De Outras Palavras, 27 de fevereiro 2026
Por Stella Ferreira Gontijo, Anna Luiza Coli e Gabriel Avritzer
Por Stella Ferreira Gontijo, Anna Luiza Coli e Gabriel Avritzer
Marcha por reformas em Córdoba contra o modelo acadêmico autocrático e clerical, em 1918. Museu Casa da Universidade Reforma UNC
No último final de semana, o cantor João Gomes interrompeu seu show na Marquês de Sapucaí para saudar a cientista brasileira Tatiana Sampaio, professora e pesquisadora da UFRJ, que há três décadas estuda a polilaminina, composto que tem apresentado resultados relevantes para a recuperação de lesões na medula óssea, mesmo que ainda esteja em período de teste. Esse é um dos casos raros no Brasil em que uma cientista e professora se tornou uma celebridade momentânea, furando a bolha dos tradicionais espaços de disputas e reivindicações por visibilidade do trabalho feito nas universidades brasileiras. Vale dizer que rompendo também os padrões de gênero tradicionais, quando pensamos nos espaços da ciência e dos meios de comunicação. Na mídia, Tatiana Sampaio tem recorrentemente feito a defesa das instituições de ensino públicas no Brasil, ainda mais ao apresentar a realidade de pesquisadoras/es que, especialmente desde 2016, têm sofrido com restrições orçamentárias e financiamentos intermitentes. Essa realidade é fruto do que podemos considerar uma investida de desmonte das universidades que se deu com seu desfinanciamento, alicerçado naquela que ficou conhecida como “PEC do teto dos gastos”, aprovada pelo governo Temer em 2016, e consolidada nas consecutivas reduções orçamentárias ocorridas ao longo do governo Bolsonaro.
Na série histórica do orçamento destinado às universidades federais, disponibilizada pela ANDIFES, o ápice do orçamento se deu em 2013, chegando a quase 8 bilhões de reais. Em 2021, tivemos o menor orçamento desde 2006: pouco mais de 4 bilhões de reais. Tudo isso ocorreu na contramão da ampliação de vagas a partir de 2007, com a implementação do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI).
Como afirmou João Carlos Salles, em 2019, com a ascensão da extrema direita na opinião pública e, no ano seguinte, no executivo, as universidades tornaram-se um problema, justamente por seu espírito democrático e crítico. Nesse sentido, a anedota de Tatiana Sampaio, com a qual iniciamos nossas reflexões, vai justamente na contramão da visão do pesquisador como “figura trôpega e inadequada”, e encarna uma das nuances das disputas colocadas atualmente em nossa sociedade.
Em ano eleitoral, os conflitos por um imaginário de país tem como um de seus principais debates a educação e, consequentemente, a universidade e sua função econômica e social. Muitas vezes esse debate aparece escamoteado nas discussões sobre orçamento, visto que as universidades públicas dependem — embora não exclusivamente — dos repasses da União. Nesse sentido, nos interessa refletir sobre as disputas e sentidos dessas instituições em um contexto histórico e geográfico mais amplo de diálogos.
No último final de semana, o cantor João Gomes interrompeu seu show na Marquês de Sapucaí para saudar a cientista brasileira Tatiana Sampaio, professora e pesquisadora da UFRJ, que há três décadas estuda a polilaminina, composto que tem apresentado resultados relevantes para a recuperação de lesões na medula óssea, mesmo que ainda esteja em período de teste. Esse é um dos casos raros no Brasil em que uma cientista e professora se tornou uma celebridade momentânea, furando a bolha dos tradicionais espaços de disputas e reivindicações por visibilidade do trabalho feito nas universidades brasileiras. Vale dizer que rompendo também os padrões de gênero tradicionais, quando pensamos nos espaços da ciência e dos meios de comunicação. Na mídia, Tatiana Sampaio tem recorrentemente feito a defesa das instituições de ensino públicas no Brasil, ainda mais ao apresentar a realidade de pesquisadoras/es que, especialmente desde 2016, têm sofrido com restrições orçamentárias e financiamentos intermitentes. Essa realidade é fruto do que podemos considerar uma investida de desmonte das universidades que se deu com seu desfinanciamento, alicerçado naquela que ficou conhecida como “PEC do teto dos gastos”, aprovada pelo governo Temer em 2016, e consolidada nas consecutivas reduções orçamentárias ocorridas ao longo do governo Bolsonaro.
Na série histórica do orçamento destinado às universidades federais, disponibilizada pela ANDIFES, o ápice do orçamento se deu em 2013, chegando a quase 8 bilhões de reais. Em 2021, tivemos o menor orçamento desde 2006: pouco mais de 4 bilhões de reais. Tudo isso ocorreu na contramão da ampliação de vagas a partir de 2007, com a implementação do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI).
Como afirmou João Carlos Salles, em 2019, com a ascensão da extrema direita na opinião pública e, no ano seguinte, no executivo, as universidades tornaram-se um problema, justamente por seu espírito democrático e crítico. Nesse sentido, a anedota de Tatiana Sampaio, com a qual iniciamos nossas reflexões, vai justamente na contramão da visão do pesquisador como “figura trôpega e inadequada”, e encarna uma das nuances das disputas colocadas atualmente em nossa sociedade.
Em ano eleitoral, os conflitos por um imaginário de país tem como um de seus principais debates a educação e, consequentemente, a universidade e sua função econômica e social. Muitas vezes esse debate aparece escamoteado nas discussões sobre orçamento, visto que as universidades públicas dependem — embora não exclusivamente — dos repasses da União. Nesse sentido, nos interessa refletir sobre as disputas e sentidos dessas instituições em um contexto histórico e geográfico mais amplo de diálogos.
As disputas sobre o sentido das universidades públicas
Não é novidade o debate em torno do papel das universidades nas nações modernas. Por isso, nos somamos aos esforços do professor Naomar Almeida Filho, quando ele nos provoca a pensar nessas instituições como parte considerável para “formação de sujeitos epistêmicos e de reprodução das utopias da modernidade e suas derivações”. Nesse sentido, superando a perspectiva individual, dialogamos com a proposta do antropólogo e intelectual Darcy Ribeiro a respeito do papel das universidades nas disputas por soberania, autonomia, desenvolvimento e fortalecimento das democracias.
Desde a Reforma de Córdoba (1918), certos setores da sociedade latino-americana têm se oposto aos projetos hegemônicos das elites políticas e econômicas da região, buscando construir uma universidade que partisse dos desafios e realidades locais. Naquele momento, dentre muitas coisas, a proposta visava uma universidade aberta e democrática, a serviço dos interesses populares e voltada aos desafios das sociedades latino-americanas, em oposição ao projeto elitista que serviu de pilar à modernidade-colonial. Assim, os universitários de Córdoba convocaram seus “companheiros das Américas”: “a virtude de um chamamento à luta suprema pela liberdade: ela nos mostra o verdadeiro caráter da autoridade universitária, tirânica e obcecada, que vê em cada petição um agravo e, em cada pensamento, uma semente de rebelião.”
Na segunda metade do século XX, Darcy Ribeiro, também inspirado pela experiência vitoriosa desses estudantes, desenvolveu seu projeto de universidade latino-americana como instituição fundamental para a superação do subdesenvolvimento dos países da região. O projeto recuperava críticas dos argentinos às elites intelectuais latino-americanas que não olhavam para suas próprias realidades e insistiam em buscar respostas, soluções e propostas em teorias e formulações europeias. Nesse sentido, a transformação da universidade inseriu-se em um projeto de superação do “colonialismo cultural”, devendo atuar como agente de transformação e não como mera reprodutora de práticas acadêmicas do então chamado “primeiro mundo”. A proposta, em última instância, era a de romper com a subordinação às elites políticas e econômicas e formar intelectuais comprometidos.
Mas a dependência assumiu novos matizes na era digital: as capacidades estratégicas para pesquisa, organização de dados e produção de conhecimento, na medida em que requerem infraestruturas digitais privadas e concentradas no centro do capitalismo, torna as universidades públicas cada vez mais enredadas na trama de uma dependência tecnológica que significa, ao mesmo tempo, uma fragilização da própria soberania de dados.
Big Techs e IA: os desafios contemporâneos da universidade latinoamericana
Assim como propôs Darcy Ribeiro, acreditamos que para superar a crise das universidades é preciso alterar, intencionalmente, os marcos estruturais e institucionais que se opõem ao seu desenvolvimento, sem copiar modelos, senão fundando novos marcos a partir da realidade brasileira e latino-americana. Para isso, é fundamentalmente necessário uma proposta de universidade que seja soberana e que tenha controle sobre seu fluxo de dados. O cenário educacional atual, marcado pelas tecnologias educacionais e pelo crescimento da modalidade de ensino à distância (EAD), acelerado pela pandemia de COVID-19, consolida a tendência à adoção de plataformas digitais e tecnologias na área da educação. Em sua maioria técnica e tecnologicamente despreparadas para a imposição da modalidade remota no período pandêmico, as instituições de ensino superior tiveram que recorrer a estratégias de licenciamento de softwares estrangeiros para suprir essa nova necessidade. Zoom, Google e Microsoft são apenas algumas das multinacionais que possuem contratos com as universidades estaduais e federais brasileiras.
Com a resolução de um problema, emerge outro. Plataformas educacionais corporativas, estruturadas por arquiteturas algorítmicas e orientadas por modelos de negócio, expandiram-se rapidamente e passaram a reconfigurar os processos de aprendizagem, as práticas docentes, a distribuição de materiais didáticos, os currículos e a própria gestão de escolas e universidades.
A crescente dependência das universidades em relação às tecnologias educacionais é atravessada por uma fragilidade estrutural: quadros técnicos insuficientes e investimentos limitados em infraestruturas físicas e digitais reduzem a capacidade institucional de desenvolver e manter soluções próprias. Nesse contexto, a adesão a plataformas corporativas aparece como resposta pragmática à escassez de recursos, sobretudo quando revestida pelo discurso da gratuidade, da praticidade e da suposta economia proporcionada pelo armazenamento “em nuvem”. Apesar de possibilitarem que as universidades brasileiras acompanhem o ritmo da tecnologia global, a adoção dessas plataformas aprofunda uma assimetria contratual em que a parte mais vulnerável, sem alternativas viáveis, aceita condições impostas por megacorporações estrangeiras, mesmo quando onerosas ou opacas. Ao concentrarem poder infraestrutural e normativo, essas empresas passam a exercer funções de regulação antes atribuídas ao Estado, que, ao subcontratá-las sem controle público efetivo, contribui para a consolidação de uma forma de governança privada sobre a vida acadêmica. O resultado é uma erosão progressiva da autonomia universitária, convertida em dependência tecnológica, jurídica e política.
Diante do que foi discutido, reafirmamos que a universidade não pode ser reduzida a um dispositivo de formação técnico-profissional orientado por imperativos econômicos. Sua função é mais ampla e estrutural: uma instituição socialmente referenciada, comprometida com a cultura e com a soberania nacional deve também poder enfrentar problemas que atravessam o Brasil e a América Latina. Como fazer isso? Ora, em primeiro lugar não abrindo mão da tarefa de formar sujeitos críticos e cidadãos capazes de intervir de modo a transformar as sociedades em que vivem, ampliando, na prática, os horizontes e a densidade das democracias lationamericanas. O projeto universitário contemporâneo não pode, portanto, prescindir da batalha pela autonomia no novo front digital em que ela se anuncia. No contexto histórico atual, esse compromisso passa necessariamente pela disputa em torno da soberania digital e pelas formas de desenvolvimento e controle sobre as próprias infraestruturas.
A Cátedra Darcy Ribeiro é uma iniciativa do IEAT para estudar Política, Educação e Soberania em suas mais diversas interdisciplinaridades. Sua realização é possível graças ao apoio e financiamento do Deputado Federal Patrus Ananias. Este artigo não reflete a opinião do IEAT ou da UFMG.
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Stella Ferreira Gontijo, Anna Luiza Coli e Gabriel Avritzer
Bolsistas de pós-doutorado da Cátedra (IEAT/UFMG), Stella Ferreira Gontijo é historiadora e Anna Coli é filósofa. Bolsista de Iniciação Científica da Cátedra, Gabriel Avritzer é graduando em Ciências Sociais na UFMG

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