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Totalmente ilhada

Do A Terra É Redonda, 14 de fevereiro 2026
Por GILBERTO MARINGONI*


O bloqueio a Cuba não é apenas econômico, é uma tentativa de apagar a memória de um povo que aprendeu, desde criança, que a vergonha de 1901 não pode se repetir

É pouco provável que Cuba sofra uma invasão territorial, como a Venezuela, e tampouco que seja alvo de bombardeios como o Irã. Ao que tudo indica, o objetivo de Donald Trump é asfixiar o país, bloqueando o ingresso de petróleo, alimentos, máquinas e equipamentos, medicamentos e todo e qualquer gênero de primeira necessidade, até o ponto da vida se tornar insuportável na Ilha.

A infame frase do comandante da Força Aérea, Curtis Le May (1906-1990), de que os Estados Unidos deveriam fazer o Vietnã “retroceder até a Idade da Pedra”, parece mover a atual escalada imperial no Caribe.

Ao contrário de Venezuela e Irã, que no quebra-cabeças global são decisivos para o fornecimento de petróleo à China, oponente estratégico dos EUA, Cuba não representa ameaça de nenhum tipo. O país conta muito mais para a política interna, num ano de eleições parlamentares, por galvanizar o voto da comunidade cubana ultraconservadora da Flórida.

O início dos ataques

Em 12 de dezembro de 2025, a Marinha estadunidense estacionada no Caribe sequestrou um navio petroleiro venezuelano a meio caminho de Cuba. Começava ali a interrupção do fluxo médio de 27 mil barris diários à Ilha, estrangulando uma economia que vinha de quase uma década de crise. O país buscava se recuperar ainda dos efeitos devastadores da pandemia sobre o turismo, uma de suas principais fontes de divisas.

Em 8 de janeiro, Donald Trump reproduziu nas redes sociais uma provocação barata: “Marco Rubio será presidente de Cuba”. Um tapa na cara de Havana. O secretário de Estado, filho de cubanos emigrados para os Estados Unidos três anos antes da chegada de Fidel Castro ao poder, jamais viveu na Ilha, mas devota uma aversão ruidosa à Revolução. O comportamento lhe garantiu vitória na disputa pelo Senado, em 2010. Nascido em 1971, Marco Rubio cresceu em meio à reacionária comunidade latina da Flórida. É um dos interlocutores de Eduardo Bolsonaro no círculo mais próximo a Donald Trump.

Três semanas depois, a Casa Branca intensificou a carga. Em decreto datado de 29 de janeiro, Donald Trump argumenta o seguinte: “O governo de Cuba (…) alinha-se a países hostis, grupos terroristas transnacionais e agentes malignos contrários aos Estados Unidos, incluindo a Federação Russa, a República Popular da China, o governo do Irã, o Hamas e o Hizbollah”. O argumento, sem comprovação alguma, serviu para alertar que se “um país estrangeiro vende ou fornece petróleo a Cuba, direta ou indiretamente”, este sofrerá retaliações tarifárias.

As sanções atingem praticamente todas as atividades cotidianas. Na sexta-feira, 6 de fevereiro, o comitê organizador da 34º. Feira Internacional do Livro de Havana comunicou o adiamento do evento a uma semana de seu início. O motivo: “a situação extraordinária que o país atravessa”. Não há previsão de nova data.

No mesmo dia, foi comunicado que a circulação de trens entre Havana e as principais cidades da Ilha obedecerá intervalos de oito dias. Escolas e Universidades funcionam em horários limitados e laboratórios e equipamentos que já fizeram o orgulho da ciência cubana começam a se deteriorar. O fornecimento de energia elétrica, que vinha seguindo um racionamento programado agora se dá sem aviso prévio, com apagões de 12 a 14 horas diárias. Sem combustíveis e sem energia, a precariedade na coleta de lixo faz das ruas, avenidas e terrenos baldios lixões improvisados, que resultam em sérios riscos sanitários.

Sete décadas de cerco

Washington radicaliza um cerco ininterrupto de quase sete décadas. O embargo econômico estadunidense à Cuba coincide com a história da Revolução, vitoriosa em 1º. de janeiro de 1959. Seis meses depois da entrada triunfal de Fidel Castro e do Exército Rebelde em Havana, o governo Eisenhower cancelou importações de açúcar. Começava ali a mais longa série de sanções imposta internacionalmente desde a Revolução Francesa. A administração cubana denuncia o bloqueio como “um ato de guerra em tempos de paz”.

Em 8 de fevereiro de 1962, o presidente John Kennedy proibiu todas as importações de Cuba, oito meses após Fidel Castro anunciar a construção de uma “República socialista” e três semanas depois do país ser expulso da Organização dos Estados Americanos (OEA). Ao longo dos anos, o torniquete foi se apertando.

Em 1963, viagens entre os dois países foram restringidas. A partir daí mais seis dispositivos legais aprofundaram as pressões, culminando com duas normas, no final do século. Trata-se das leis Torricelli (1992) e Helms Burton (1996), sancionadas durante o chamado Período Especial. O objetivo era penalizar empresas estadunidenses ou estrangeiras que realizassem qualquer transação com Cuba.

Entre 2009 e 2011, Barack Obama suspendeu várias restrições de viagens, tendo como horizonte o restabelecimento de relações diplomáticas, rompidas desde janeiro de 1961. Todos esses avanços foram revertidos no primeiro mandato de Donald Trump (2017-21). Além do cerco econômico, o governo cubano computa quase 600 tentativas de assassinato de Fidel Castro, entre 1959 e 2008, além de dezenas de atentados terroristas contra a Ilha. Condenado várias vezes em votações quase unânimes na Assembleia Geral da ONU, desde 1992, o embargo jamais foi revogado.

Durante o primeiro governo de Donald Trump (2017-21), foram adotadas mais 243 medidas restritivas. Entre elas, estão limitações a voos comerciais, o cancelamento de serviços consulares, restrições a transações bancárias e penalizações a indústrias petrolíferas, seguradoras e empresas de navegação que levem combustíveis para a Ilha. Para coroar o torniquete político e econômico, a Casa Branca incluiu Cuba numa arbitrária lista de Estados patrocinadores do terrorismo. Em 2020, no auge da pandemia de covid-19, empresas chinesas foram proibidas de entregar doações de máscaras, kits de diagnóstico e ventiladores pulmonares.

A crise atual é mais grave que a enfrentada desde a quebra do socialismo no Leste Europeu, entre 1989 e 1991. O fim do acesso ao petróleo e a outras mercadorias em condições vantajosas abalaram uma economia frágil, baseada na cana de açúcar e produtos de baixa complexidade. De 1990 a 1994, o PIB cubano caiu 36%, as exportações 80% e as importações 73%, segundo dados oficiais.

A circulação de veículos a gasolina se restringiu ao mínimo, os apagões se disseminaram e o governo realizou maciça importação de bicicletas chinesas para contornar problemas de transporte. Não faltaram vozes nos meios políticos e na mídia ocidental a vaticinar a crise final de uma das últimas experiências socialistas do mundo.

Em extensa entrevista realizada por Ignacio Ramonet – publicada em Biografia a duas vozes (Boitempo, 2006) – Fidel Castro descreve aqueles tempos: “Sofremos um golpe devastador quando, de um dia para o outro, aquela potência [a URSS] desmoronou e nos deixou sozinhos. Perdemos todos os mercados de açúcar e deixamos de receber mantimentos, combustível e até madeira para fazer caixões para nossos mortos”.

A situação só se estabilizou quando Hugo Chávez foi eleito presidente da Venezuela, em fins de 1998. Um acordo de cooperação firmado dois anos depois estipulava o fornecimento de 53 mil barris diários de petróleo à Cuba, em condições especiais, tendo por base os preços internacionais. Em contrapartida, Castro comprometeu-se a compensar as facilidades de financiamento através do fornecimento de serviços médicos, educacionais e esportivos. Após a crise venezuelana de 2013, as remessas se reduziram à metade.

Diálogo soberano

Na sexta-feira, 6 de fevereiro, o presidente cubano, Miguel Diaz-Canel declarou em entrevista coletiva que “Cuba está aberta ao diálogo com os Estados Unidos sobre qualquer assunto que possa ser discutido. Sem pré-condições, em pé de igualdade, com respeito à nossa soberania, à nossa independência e à nossa autodeterminação”. Até aqui, a declaração não encontrou eco. Apesar da situação, ele repele a ideia de “país falido”, disseminada pelo presidente estadunidense.

Num corajoso gesto, o México enviou a Cuba no domingo (8 de fevereiro) dois navios com 814 toneladas de alimentos e produtos de higiene pessoal. A presidenta Claudia Sheinbaum declarou-se empenhada em retomar o fornecimento regular de petróleo. Foi o que bastou para a Casa Branca ameaçar o vizinho. No dia seguinte, Claudia Sheinbaum foi forçada a desistir. Mesmo assim, o país se constitui, até aqui, em absoluta exceção na América Latina.

Os problemas entre Cuba e o Império vêm desde a Independência, primeiro da Espanha (1898) e depois dos Estados Unidos (1902). As condições impostas por este último foram draconianas.

Em fevereiro de 1901, o senador Orville Platt, republicano, subiu à tribuna para apresentar uma emenda a um projeto de lei que balizaria o relacionamento entre Estados Unidos e o novo Estado. Seu curto texto afirmava, entre outras coisas, o seguinte: “Que o governo de Cuba consinta que os Estados Unidos exerçam o direito de intervir pela preservação da independência cubana, pela manutenção de um governo adequado à proteção da vida, da propriedade e da liberdade individual”.

A Ilha foi forçada a incluir o texto em sua própria Constituição. Apesar de revogada em 1934, seus efeitos perdurariam por mais um quarto de século e ficaria gravada de forma perene na memória nacional. Desde 1959, as crianças aprendem no ensino fundamental que aquele tipo de vergonha nacional não pode se repetir. O mesmo inimigo agora tenta colocar a Ilha de joelhos.

*Gilberto Maringoni é jornalista e professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC).

Publicado originalmente na revista Carta Capital no. 1400.

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