Do Brasil de Fato, 16 de fevereiro 2026
Por LUCAS SALUM E TABITHA RAMALHO
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| Chiquinha Gonzaga (1847-1935) compôs a primeira marchinha carnavalesca da história em 1899 | Crédito: Domínio Público |
“Ô abre alas que eu quero passar.” A frase, entoada por milhões de brasileiros em cada Carnaval, carrega mais do que o espírito da folia. É o grito de liberdade de uma mulher negra, pianista, compositora, regente, abolicionista e pioneira na luta pelos direitos autorais no Brasil. Chiquinha Gonzaga (1847-1935) compôs a primeira marchinha carnavalesca da história em 1899, e 126 anos depois sua obra segue viva na avenida, nos trios elétricos e na memória do povo.
Para contar essa história, o Conversa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato, entrevistou a pianista Maria Teresa Madeira, doutora em música pela UniRio e uma das maiores especialistas na obra de Chiquinha, com mais de 30 anos de dedicação à pesquisa e à difusão de seu legado.
Francisca Edviges Neves Gonzaga nasceu no Rio de Janeiro em 1847, filha de uma mãe liberta e de um pai influente. Educada como “sinhazinha”, teve aulas de piano e línguas. Aos 16 anos, teve um casamento arranjado; aos 20, separou-se, e, por isso,deserdada pela família e impedida de ter a guarda dos filhos. “Ela não rompeu barreiras, ela botou o pé na porta e quebrou ela inteira”, resume Maria Teresa.
Foi na rua que Chiquinha encontrou sua música. “Ela andava sozinha numa época em que mulher não podia circular sem um homem. Ouvia os batuques, as rodas, os ritmos de salão, e juntou tudo isso à sua formação clássica. Essa mescla fez o brilho da obra dela”, explica a pianista.
Em 1899, Chiquinha morava no Andaraí, onde também ficava o rancho carnavalesco Rosa de Ouro. “Ela foi lá e escreveu despretensiosamente aquela música. Tanto que a edição demorou, foi passada oralmente”, conta Maria Teresa. “Ô Abre Alas” foi a primeira canção feita especificamente para o Carnaval de rua — até então, a festa era animada por hinos, gritos de guerra ou batuques sem uma trilha sonora própria.
“A música ficou maior do que ela. É impressionante que uma estrofe só tenha mudado a história do Carnaval”, reflete a pianista. A marchinha antecedeu em quase 20 anos a tradição de cada agremiação ter seu próprio samba-enredo, prática que só se consolidaria a partir de 1917.
Chiquinha também foi fundamental na luta pelos direitos de compositores e músicos. Envolvida com o teatro musical, revoltava-se com as “recitas do autor” — bilheterias destinadas aos criadores apenas no fim da temporada, quando o público já rareava. “Ela se juntou a outros artistas e fundou a primeira sociedade protetora de direitos autorais do país. Tem uma foto linda da fundação: só homens e ela, com o Joãozinho do lado”, relembra Maria Teresa.
Joãozinho, seu último companheiro, foi o responsável por preservar o espólio de Chiquinha após sua morte, em 1935, numa terça-feira de Carnaval. “A família dela, por gerações, não podia falar no nome dela. Se temos partituras, fotos e escritos, devemos ao Joãozinho.”
O legado vivo e os desafios de hoje
Para Maria Teresa, a trajetória de Chiquinha é também um espelho das lutas contemporâneas das mulheres na música. “Existe uma cobrança muito grande sobre como a mulher deve se portar. Mas Chiquinha mostra que o ofício da música é o que importa. Ela tinha uma certeza que vinha de algum lugar sagrado.”
A pianista destaca que Chiquinha não foi um mártir esquecido — ela fez sucesso em vida, viu o povo cantar suas músicas e morreu reconhecida. “Isso é a cereja do bolo. A gente tende a glorificar quem luta e morre lutando, mas ela conquistou enquanto existia.”
Maria Teresa Madeira faz um apelo aos foliões: “Quando você estiver no Carnaval, cutuca a primeira pessoa do lado e pergunta: ‘Sabia que essa música é de uma mulher?'”. A pergunta ecoa a importância de reconhecer as raízes negras e femininas da maior festa popular do país.
Chiquinha Gonzaga vive — no abre-alas, na resistência, na luta por direitos e na certeza de que a música, quando é de verdade, atravessa gerações sem pedir licença.

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