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Por que Trump teme atacar o Irã

EUA concentram armamento ofensivo, mas três fatores tornam a agressão muito arriscada. Teerã não será mais surpreendida, é capaz de penetrar defesas de Israel e já pode castigar bases norte-americanas. O presidente sabe que corre sério risco


De Outras Palavras, 12 de fevereiro 2026
Por M.K.Bhadrakumar, no Indian Punchline | Tradução: Antonio Martins



Protesto em Teerã após os ataques dos EUA a instalações nucleares iranianas, em meio ao conflito Irã-Israel, em 2025. | Arash Khamooshi / The New York Times

Já dura quase um século a hostilidade mútua entre os Estados Unidos e Israel, de um lado, e o Irã, de outro. Estende-se desde a Revolução Islâmica de 1978 e o estabelecimento do sistema político singular conhecido como Vilayat-e Faqih ou proteção de Faqih (jurista islâmico). A nova ordem política do regime islâmico, centrada no nacionalismo iraniano, representou um desafio sem precedentes e uma ameaça percebida pelos EUA e pelos Estados regionais de sua órbita estratégica, incluindo as monarquias petrodólares. Para elas, a própria ideia de governo representativo baseado na doutrina da justiça, equidade e resistência era um anátema.

Mas essa não é toda a história. Michel Foucault, o filósofo francês, historiador das ideias, escritor, ativista político e crítico literário, tinha outra explicação. Certa noite, enquanto caminhava pelas ruas de Teerã, que fervilhavam com os primeiros sinais da Revolução Islâmica, Foucault encontrou um desconhecido que lhe disse: “Eles (os norte-americanos) nunca nos abandonarão por vontade própria. Não mais do que fizeram no Vietnã.”

Mais tarde, em seu famoso ensaio Com o que Estão Sonhando os Iranianos?, Foucault escreveu: “Eu queria responder que eles estão ainda menos dispostos a abrir mão de vocês do que o Vietnã por causa do petróleo, por causa do Oriente Médio. Hoje, depois de Camp David, eles parecem dispostos a ceder o Líbano à dominação síria e, portanto, à influência soviética. Mas estariam os Estados Unidos dispostos a se privar de uma posição que, dependendo das circunstâncias, lhes permitiria intervir a partir do Oriente ou monitorar a paz?”

Essa extensa recapitulação histórica torna-se útil hoje, visto que o pano de fundo do atual impasse entre Donald Trump e Teerã permanece essencialmente o mesmo — a geopolítica do petróleo nas fronteiras da resistência política. Contudo, qualquer observador de longa data dos eventos marcantes que se desenrolaram no Irã em 1978 também concordará que muita água já correu pelo Estreito de Ormuz ao longo dessas décadas turbulentas. A “alquimia” do impasse entre EUA e Israel com o Irã transformou-se completamente.

De maneira notável, vários padrões emergiram ao longo do último ano e revelaram-se altamente encadeados. Antes de mais nada, as salvaguardas que impediam que o impasse entre os EUA e o Irã degenerasse em confronto militar desapareceram durante a presidência de Trump. O Irã percebeu isso em circunstâncias trágicas, em junho do ano passado, quando, num ato de engano, fingindo negociações de paz, Israel e os EUA o atacaram.

Mas, também despontou uma terrível beleza. Primeiro, o elemento surpresa na guerra deixou de funcionar contra o Irã. Além disso, duas outras coisas aconteceram: Teerã retaliou, deixando Tel Aviv e Washington sem dúvidas de que possuía capacidade de segundo ataque; segundo, Israel teve que recorrer a Trump para negociar um cessar-fogo, já que seus próprios estoques de mísseis estavam se esgotando e suas capacidades de defesa antimíssil, incluindo o Domo de Ferro, se mostraram pouco confiáveis. O Irã afirmou sua capacidade de dissuasão com evidências empíricas.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, sempre fez questão de liderar Trump nos bastidores. Mas tudo isso se tornou irrelevante hoje. O Irã deixou claro que Israel estará em sua mira desde o primeiro dia. Além disso, a agência de espionagem israelense Mossad e a CIA estão interferindo abertamente nos recentes protestos iranianos, chegando até a se vangloriar disso. Israel, que já experimentou em primeira mão a escala de destruição que o Irã pode infligir, mesmo com um desempenho abaixo do esperado e com recursos limitados, teme represálias. De fato, Israel agora prioriza, em sua avaliação de ameaças, o programa de desenvolvimento de mísseis do Irã, em vez de seu programa nuclear. Mais uma vez, as alegações israelenses de ter derrotado as forças de resistência alinhadas ao Irã — principalmente o Hamas, os Houthis e o Hezbollah — mostram-se distantes da realidade. Os grupos de resistência estão se reagrupando e o Irã continua a colaborar com eles.

Por sua vez, os EUA também desenvolveram um respeito considerável pela tecnologia de mísseis e drones desenvolvida internamente pelo Irã. Isso significa que a abordagem de Trump, baseada em um ataque rápido seguido de extensas operações midiáticas para projetar força, esgotou seu potencial. Na doutrina iraniana revisada de “guerra total”, a resposta do Irã não se limitará a uma retaliação proporcional a um ataque externo, mas sim a atingir as raízes da presença regional dos EUA. Isso significa que a resposta iraniana irá além de uma estrutura puramente defensiva e se voltará para uma estratégia ofensiva. Em outras palavras, Teerã abandonou a lógica defensiva até então baseada em respostas limitadas e proporcionais; dito isso, diferentemente da guerra de junho, não se espera nenhuma manipulação de resultados. O Irã declarou categoricamente que qualquer forma de ataque dos EUA será considerada um ato de guerra.

Na semana passada, o Irã revelou brevemente uma de suas novas “cidades de mísseis” subterrâneas, operadas pela Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), e exibiu o Khorramshahr-4, um míssil balístico pesado com alcance operacional de 2.000 quilômetros e capaz de transportar mais de uma tonelada de explosivos. O Khorramshahr-4 atinge velocidades de até 16 vezes a velocidade do som (Mach 16) fora da atmosfera e aproximadamente Mach 8 dentro dela. “Com um tempo total de voo estimado entre 10 e 12 minutos, os iranianos alertaram que todas as bases militares americanas na região serão alvos.”

Isso representa uma mudança de paradigma. A superioridade militar dos EUA é inquestionável, mas o risco de perda de vidas estadunidense torna-se extremamente alto, o que terá um custo político elevado para Trump, visto que as eleições de meio de mandato de 2026, em 3 de novembro, aproximam-se rapidamente. A perda do controle do Congresso é uma possibilidade concreta, e uma guerra no Oriente Médio seria o golpe final.

A ameaça de guerras paira sobre as negociações em Omã, mas o lado positivo é que Trump classificou as conversas como “muito boas” e o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, respondeu que elas “representam um passo adiante”. O Irã descartou categoricamente qualquer acordo que negue seu direito de enriquecer urânio e se recusa a discutir seu programa de desenvolvimento de mísseis. Mesmo assim, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, declarou que o Irã busca o fim das sanções econômicas norte-americanas, em troca de “uma série de medidas de fomento da confiança relativas ao programa nuclear”. Um dia após a declaração de Araghchi, Mohammad Eslami, chefe da Organização de Energia Atômica do Irã, afirmou que Teerã poderia considerar reduzir o nível de 60% de enriquecimento de seus estoques de urânio, caso todas as sanções fossem suspensas.

Entretanto, um ponto de inflexão está surgindo, visto que Netanyahu esteve em Washington até quarta-feira. É perfeitamente concebível que Netanyahu, que enfrenta eleições ainda este ano, pressione Trump para que amplie o escopo das negociações nucleares com o Irã, incluindo a limitação de mísseis balísticos e o “fim do apoio ao eixo iraniano”, como afirmou seu gabinete no fim de semana. Tal exigência é inalcançável, estando em desacordo com a crescente realidade de que a opção militar contra o Irã pode estar se aproximando do seu esgotamento.

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