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Pão sem glúten: estudo científico da Unicamp revela dado impressionante sobre o alimento

Pesquisador analisou 44 amostras e identificou níveis muito baixos de ferro, cálcio e zinco, além de menor liberação dos nutrientes após ingestão; cenário acende alerta para celíacos e consumidores do produto

Da Revista Fórum, 13 de fevereiro 2026
Por: Tati Fávaro



- Absorção dos minerais em produtos de panificação: desafio geral em todos os tipos de pães (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Uma pesquisa desenvolvida na Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) apontou um esvaziamento de minerais nos pães sem glúten, quando comparados a produtos da mesma categoria, mas feitos com farinha de trigo.

Após analisar 44 amostras diferentes de pães sem glúten e quatro pães tradicionais com trigo (para ter uma base de comparação), o químico Paulo Henrique Leuteviler Pereira constatou baixíssimas quantidades de minerais como ferro, cálcio, zinco e magnésio, essenciais para o corpo humano.

Pereira identificou uma variação na quantidade de cálcio nos pães, de 9 mg a 200 mg em cada 100 g. Em muitas amostras dos pães sem glúten, a quantidade de ferro era tão pequena que não chegava a ser detectada. O mesmo padrão se repetiu com o zinco: até 2,09 mg no pão com trigo ante o máximo de 0,99 mg no sem glúten.

O estudo inédito de simulação de digestão humana indicou, ainda, baixa bioacessibilidade (porção do nutriente liberada do alimento após digestão) dos minerais. Em sua tese, o pesquisador apresenta uma proposta de fortificação de pães que aumenta a concentração e a bioacessibilidade do ferro.

Para o pesquisador, os consumidores dos produtos sem glúten têm o direito de saber que ingerem menos ferro e que há neles, portanto, um “vazio” de minerais, quando comparados aos produtos tradicionais, com glúten. “O celíaco, no geral, já tem uma carência nutricional, de acordo com a literatura da área. Seria importante ele ter no pão sem glúten o mesmo aporte de minerais que existe em um pão tradicional”, disse Pereira ao Jornal da Unicamp.

Pães com glúten: farinha fortificada com ferro, obrigatoriamente

De acordo com a pesquisa, uma das principais razões para que os pães com glúten tenham níveis de minerais essenciais mais elevados é que, no Brasil, a farinha de trigo é obrigatoriamente fortificada com ferro e ácido fólico. A determinação faz parte de uma política de saúde pública de combate à anemia e uma estratégia nutricional recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A carência de ferro é um dos maiores problemas de saúde pública mundial, afetando os sistemas imunológico e cognitivo.

Os pães sem glúten feitos com farinhas diferentes, como a de arroz e a fécula de batata, não possuem legislação específica sobre formulações permitidas. Quem consome pães sem glúten, portanto, “perde” a oportunidade de ingerir a mesma quantidade de ferro que as pessoas que consomem pães tradicionais fortificados.

“Bombando” o pão sem glúten

Durante o estudo, Pereira percebeu que a fortificação de farinha de arroz com sulfato ferroso (forma de ferro permitida para a fortificação de farinhas de trigo e milho no Brasil), no processamento de pães, foi eficaz no aumento da concentração e da bioacessibilidade do mineral. O pesquisador testou a adição de sulfato ferroso na sua forma livre e na forma microencapsulada. Nos dois casos, o pão fortificado sem glúten passou a ter uma quantidade relevante de ferro, contribuindo com 7% da chamada Ingestão Diária Recomendada (IDR) deste mineral para adultos (considerando uma porção de 50 g). “Não somos o que comemos, mas o que absorvemos”, afirmou Pereira, que trabalhou seis anos na indústria e hoje é pesquisador científico no Instituto Adolfo Lutz de Campinas, na área de alimentos.

A professora da FEA Juliana Azevedo Lima Pallone, orientadora da tese, disse que não basta saber a quantidade de minerais – é importante entender a quantidade deles que fica disponível no trato digestivo para o corpo absorver e utilizar. O risco de haver ingredientes antinutrientes também nos pães fortificados, tradicionais, também é iminente. “A absorção dos minerais em produtos de panificação é um desafio geral para todos os tipos de pães”, observou a orientadora de Pereira.

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