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Os povos originários – nossos mestres e doutores

Do A Terra É Redonda, 20 de fevereiro 2026
Por LEONARDO BOFF*



Imagem: Hans

Os povos originários guardam a memória viva de um futuro possível: viver sem dominar a Terra

1.
Hoje nos sentimos todos mais ou menos perdidos. A situação de nossa civilização, assim nos parece, chegou ao seu limite. Perdida nas contradições que ela mesma criou, dá-se conta de que o corpo de conhecimentos e o arsenal de técnicas que ela mesma criou, não oferecem soluções que poderiam nos tirar dos graves problemas que enfrentamos. Temos que mudar ou nas palavras de Sygmunt Bauman, “vamos engrossar o cortejo daqueles que estão caminhando para a vala comum”.

A civilização atual não nos apresenta um futuro que seja esperançador. Como advertiu um dos últimos grandes naturalistas francês Théodore Monod em seu livro-testamento Se a humanidade vier a desaparecer (Paris, 2000): “Seria o justo castigo pelas agressões que por séculos temos infligido à Terra”.

Mesmo assim continuamos esperando o imponderável e o imprevisível, pois a evolução não é linear, mas dá saltos na direção de ordens mais complexas e estruturadas ou também numa direção destrutiva. A nossa esperança é que o salto seja construtivo.

Em momentos de impasses como estes, buscamos fontes que nos inspirem e que apontem para uma alternativa possível. Assim surgem em nossa consideração os povos originários. Não são “índios”, pois estes não existem. O que existem são povos com suas culturas, tradições e religiões. Quando Cabral aportou em nossas terras, havia cerca de 5 milhões de habitantes, agrupados em 1.400 povos, falando 1.300 línguas, a maior proliferação conhecida na história. Infelizmente devido à dizimação, ocorrida ao longo de mais de 500 anos, restaram apenas 180 línguas, uma perda da ordem de 85%, um dano irreparável para toda a humanidade.

Os que sobreviveram, segundo a ONU, são vários milhões em quase todas as partes do mundo. Conservam um tesouro de experiências, de sabedoria ancestral e modos de se relacionar com a comunidade de vida (natureza) que podemos afirmar aquilo que os Padres da Igreja antiga diziam dos pobres: eles são nossos mestres e doutores. Efetivamente, eles são isso e sua ancestralidade pode ser o nosso futuro (Ailton Krenak).

Eles ensinaram aos europeus como viver nos trópicos, a começar por tomar banho, ao menos uma vez ao dia. O nosso idioma português foi enriquecido com centenas de palavras, especialmente ligadas à geografia como Anhngabaú, Itu, Itaquatiara, Iguaçu, Itaorna, Piracicaba, Jundiaí Itaipava, onde moro. Ou em tantos vocábulos, como aipim, cipó, cuia, jabuticaba, girau, jururu, paçoca, mingau, farofa, beiju, tapioca, pirão, guaraná, e tocaia entre muitas outras.

2.
Mais que tudo nos ensinaram uma integração sinfônica com a natureza. Eles se sentem parte da natureza e não um estranho dentro dela. Por isso, em seus mitos, seres humanos e outros seres vivos, como animais, con-vivem e casam entre si. Intuíram o que sabemos pela ciência empírica que todos formamos uma cadeia única e sagrada de vida. Eles são exímios ecologistas.

A Amazônia, por exemplo, não é terra intocável. Em milhares de anos, as dezenas de nações originárias que aí viveram e ainda vivem, interagiram sabiamente com ela. Quase 12% de toda a floresta amazônica de terra firme foi manejada por eles, promovendo “ilhas de recursos”. Os Yanomami sabem aproveitar 78% das espécies de árvores de seus territórios, tendo-se em conta a imensa biodiversidade da região, na ordem de 1200 espécies por área do tamanho de um campo de futebol.

Lição para nós: não podemos manter uma relação meramente utilitarista para com a natureza, sentindo-nos fora e donos dela. Mas de convivência sentindo-nos parte dela, cuidando-a e preservando sua integridade e regeneração. Se não aprendermos deles essa lição, dificilmente salvaremos nossos biomas, base de nossa subsistência.

Os povos originários revelam uma atitude de respeito e veneração por tudo o que existe e vive e vem carregado de mensagens que eles sabem decifrar. A árvore não é apenas uma árvore. Ela tem braços que são seus ramos, tem mil línguas que são suas folhas, une a Terra com o Céu pelas raízes e pela copa. Quando dançam e tomam as beberagens rituais, fazem uma experiência de encontro com o mundo do Espírito, dos anciãos e dos sábios que estão vivos e no outro lado da vida.

Para eles, o invisível é parte do visível. Essa lição importa aprender deles, pois vivemos uma radical coisificação da natureza que nos torna surdos e cegos para mensagens que ela nos transmite. Para nossa cultura as coisas são apenas coisas e não símbolos de uma energia de fundo, poderosa e amorosa que tudo penetra e sustenta. Nós, filhos da racionalidade, damos pouco valor a outros saberes que vêm do coração e de nosso profundo.

A sabedoria deles se teceu através da sintonia fina com o universo e na escuta atenta do pulsar da Terra. Sabem melhor do que nós, casar céu e terra, integrar vida e morte, compatibilizar trabalho e diversão, confraternizar o ser humano com a natureza. Nesse sentido eles são altamente civilizados, embora sejam tecnologicamente primitivos.

Essa sabedoria precisa ser resgatada por nossa civilização dominante, fundada na vontade de potência e de dominação. Sem essa comunhão sapiencial com a linguagem da Terra, ficaremos reféns de nossa vontade de tudo dominar e de crescer infinitamente, num planeta notoriamente finito. Ao perseverar nesse intento poderemos cavar o abismo no qual todos nos precipitaremos.

Um de nossos maiores desejos é a vida em liberdade. Pois essa liberdade é vivida em plenitude pelos povos originários. Baste-nos o depoimento de dois grandes conhecedores deles, os irmãos Orlando e Cláudio Villas Boas: “O índio é totalmente livre, sem precisar de dar satisfação de seus atos a quem quer que seja. Se uma pessoa der um grito no centro de São Paulo, uma rádio-patrulha poderá levá-la presa. Se um índio der um tremendo berro no meio da aldeia, ninguém olhará para ele, nem irá perguntar por que ele gritou. O índio é um homem livre” (Xingu, os indígenas e seus mitos, 1970, p. 48).

Os caciques nunca têm poder de mando sobre os demais. Sua função é de animação, de articulação das coisas comuns e das relações para com outros povos originários de fora, tidos como parentes, respeitando sempre a liberdade individual.

Como se depreende, podemos reafirmar: os povos originários devem ser revisitados. Poderão ser nossos mestres e doutores que nos darão sábias lições que poderão sugerir um outro rumo para a nossa civilização agônica.

*Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor. Autor, entre outros livros, de Virtudes de um mundo possível. Hospitalidade: direito/dever de todos (Vozes). [https://amzn.to/3Mp6vOf]

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