Do GGN, 23 de fevereiro 2026
Por Augusto Cesar Barreto Rocha
Os indígenas seguem a protestar no Estado Pará, defendendo o Rio Tapajós, pois ele representa a “força dos rituais”. O protesto contundente de 20 de fevereiro segue fora das pautas principais sobre a infraestrutura da Amazônia. As discussões com respeito às obras no Rio Tapajós não são para o interesse das pessoas da região. Os interesses são claramente voltados para outras regiões, outros povos e outros países. O interesse da Amazônia segue longe das discussões.
Mesmo que a discussão mude de patamar e passe para as cidades ou indústrias da Amazônia, as pautas seguem ignoradas dos debates. Quando se fala sobre a BR-319, o argumento se inverte – o meio-ambiente é o fator para nada fazer. O discurso ambiental ele se move, contrário para a Amazônia, quando é do interesse dos povos locais ou favorável pela construção e obra quando é para outras regiões. A hipocrisia reina na discussão sobre obras para o setor de transporte da Amazônia.
As hidrovias deveriam ser as linhas de comunicação, mas não existem portos ou obras de portos. Quando inverteremos a discussão sobre transporte na Amazônia? Hoje ignora-se o meio ambiente, ao mesmo tempo em que se ignoram as pessoas, sejam indígenas, sejam capitais, sejam indústrias, sejam as universidades ou qualquer outro cidadão da região. Os órgãos que debatem a infraestrutura do Brasil seguem a fazer obras para ricos.
Como exemplo, conforme amplamente noticiado, apenas no “Contorno Viário da Grande Florianópolis”, para beneficiar a BR-101, foram investidos R$ 3,9 bilhões. É uma obra certamente necessária e que passou bastante tempo para ser feita. A minha questão é que seguimos a aumentar as diferenças de infraestrutura nas áreas mais prósperas do país em relação às áreas mais periféricas. Sequer são feitos estudos com base nos interesses regionais da Amazônia. Ainda não temos planos para os principais corredores de rios, salvo quando há interesse para o escoamento de produtos do agronegócio para o exterior.
Enquanto não existir um Plano Amazônico de Logística e Transporte seguiremos a tratar apenas as prioridades dos recantos ricos do Brasil. E a afirmar que queremos proteger o meio-ambiente. A pauta pública é cuidadosamente conduzida para nada fazer. É preciso chegar a hora de reduzir as desigualdades regionais. É por isso que fica muito difícil para as regiões mais remotas romperem a condição de subdesenvolvimento, em um mundo cada vez mais conectado e integrado. A ausência de condições básicas de infraestrutura impede qualquer tipo de atividade econômica competitiva.
Os indígenas seguem a ocupar espaços públicos e privados. A opinião pública e a imprensa nacional seguem a lidar com o assunto de maneira periférica. Sabemos e publicamos mais sobre assuntos de outros países do que conhecemos os problemas e protestos de nosso país. É melhor distrair a opinião pública do que enfrentar os problemas reais. Enquanto isso não mudar, seguiremos um país desigual e que favorece apenas os mais ricos, com discurso de um país para todos.
Augusto Cesar Barreto Rocha – Professor da UFAM.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Por Augusto Cesar Barreto Rocha
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Foto de Marizilda Cruppe - Greenpeace - Reprodução |
Mesmo que a discussão mude de patamar e passe para as cidades ou indústrias da Amazônia, as pautas seguem ignoradas dos debates. Quando se fala sobre a BR-319, o argumento se inverte – o meio-ambiente é o fator para nada fazer. O discurso ambiental ele se move, contrário para a Amazônia, quando é do interesse dos povos locais ou favorável pela construção e obra quando é para outras regiões. A hipocrisia reina na discussão sobre obras para o setor de transporte da Amazônia.
As hidrovias deveriam ser as linhas de comunicação, mas não existem portos ou obras de portos. Quando inverteremos a discussão sobre transporte na Amazônia? Hoje ignora-se o meio ambiente, ao mesmo tempo em que se ignoram as pessoas, sejam indígenas, sejam capitais, sejam indústrias, sejam as universidades ou qualquer outro cidadão da região. Os órgãos que debatem a infraestrutura do Brasil seguem a fazer obras para ricos.
Como exemplo, conforme amplamente noticiado, apenas no “Contorno Viário da Grande Florianópolis”, para beneficiar a BR-101, foram investidos R$ 3,9 bilhões. É uma obra certamente necessária e que passou bastante tempo para ser feita. A minha questão é que seguimos a aumentar as diferenças de infraestrutura nas áreas mais prósperas do país em relação às áreas mais periféricas. Sequer são feitos estudos com base nos interesses regionais da Amazônia. Ainda não temos planos para os principais corredores de rios, salvo quando há interesse para o escoamento de produtos do agronegócio para o exterior.
Enquanto não existir um Plano Amazônico de Logística e Transporte seguiremos a tratar apenas as prioridades dos recantos ricos do Brasil. E a afirmar que queremos proteger o meio-ambiente. A pauta pública é cuidadosamente conduzida para nada fazer. É preciso chegar a hora de reduzir as desigualdades regionais. É por isso que fica muito difícil para as regiões mais remotas romperem a condição de subdesenvolvimento, em um mundo cada vez mais conectado e integrado. A ausência de condições básicas de infraestrutura impede qualquer tipo de atividade econômica competitiva.
Os indígenas seguem a ocupar espaços públicos e privados. A opinião pública e a imprensa nacional seguem a lidar com o assunto de maneira periférica. Sabemos e publicamos mais sobre assuntos de outros países do que conhecemos os problemas e protestos de nosso país. É melhor distrair a opinião pública do que enfrentar os problemas reais. Enquanto isso não mudar, seguiremos um país desigual e que favorece apenas os mais ricos, com discurso de um país para todos.
Augusto Cesar Barreto Rocha – Professor da UFAM.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
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