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| Foto: Marina Silva/Correio |
Por André Augusto Araújo Oliveira
Título original: Vias para uns, veias para outros: o urbanismo racializado do carnaval em Salvador
Salvador se anuncia ao mundo como a capital da alegria. Todos os anos, o carnaval é vendido como espetáculo democrático, popular, mestiço e vibrante. Mas basta deslocar o olhar do trio elétrico para o chão que sustenta a festa para perceber que a cidade não pulsa da mesma forma para todos. O carnaval escancara um urbanismo racializado, onde as vias são cuidadosamente desenhadas para garantir fluxo, consumo e visibilidade a alguns, enquanto as veias — os corpos negros, periféricos e trabalhadores — são exploradas, contidas e, muitas vezes, silenciadas.
O traçado da festa não é neutro. Os circuitos oficiais — Barra-Ondina, Campo Grande, Pelourinho — reproduzem uma lógica histórica de ocupação do espaço urbano que privilegia zonas valorizadas, turísticas e brancas. Ali, o asfalto é liso, a iluminação é reforçada, a presença do Estado se manifesta como proteção e organização. Para quem desfila nos camarotes, a cidade parece segura, funcional e acolhedora. Para quem trabalha na festa, mora nas franjas urbanas ou atravessa a cidade para garantir o sustento, Salvador se revela como um território de controle, exaustão e exclusão.
Há uma engenharia invisível que sustenta o carnaval: cordeiros, catadores, ambulantes, seguranças informais, trabalhadores da limpeza urbana, costureiras, montadores de estruturas. Corpos majoritariamente negros que acordam antes da festa e dormem depois dela. São eles que fazem o carnaval circular, mas raramente circulam com dignidade. O urbanismo do carnaval não os reconhece como sujeitos de direito, mas como engrenagens descartáveis de uma máquina que precisa funcionar sem falhas.
Essa lógica não nasce na festa; ela é herdeira direta da cidade colonial e escravocrata. Salvador foi pensada para separar, vigiar e hierarquizar corpos. O carnaval apenas atualiza essa gramática. As ruas que se abrem para o desfile se fecham para o cotidiano dos moradores. A mobilidade é seletiva. A polícia não atua da mesma forma em todos os territórios. A festa ocupa espaços públicos, mas não redistribui poder. O que se vende como celebração da cultura negra, muitas vezes se sustenta sobre a precarização da vida negra.
Há também uma dimensão simbólica dessa exclusão. Enquanto a estética afro-brasileira é exaltada nos trios, nos figurinos e nos discursos oficiais, os territórios negros seguem sendo tratados como zonas de risco, sujeira e abandono. O mesmo corpo que é celebrado como expressão cultural é criminalizado quando reivindica descanso, moradia, mobilidade ou silêncio após a festa. O carnaval consome a negritude, mas não se compromete com sua sobrevivência.
Falar em urbanismo racializado do carnaval é reconhecer que a cidade não é apenas palco, mas personagem ativa do conflito. É admitir que planejamento urbano, políticas de segurança, concessões privadas e investimentos públicos operam juntos para produzir uma festa altamente lucrativa, porém profundamente desigual. Não se trata de negar a potência cultural do carnaval, mas de perguntar: quem paga o preço da alegria? Quem sangra para que outros dancem?
Apesar disso, há fissuras. Blocos afro, afoxés, coletivos culturais periféricos e trabalhadores organizados seguem disputando o sentido da festa. Eles reconstroem o carnaval como território de memória, ancestralidade e resistência. Nas brechas do asfalto, nas vielas que não aparecem nos mapas oficiais, o povo negro reinscreve a cidade com outros ritmos, outras narrativas e outras possibilidades de pertencimento.
Pensar o carnaval de Salvador a partir das vias e das veias é, portanto, um convite à honestidade política. Não há democracia urbana possível enquanto a cidade continuar sendo desenhada para fluir para uns e sangrar para outros. Se Salvador deseja, de fato, celebrar sua negritude, precisará ir além do espetáculo e enfrentar o racismo estrutural que organiza seus espaços, suas festas e seus silêncios. Porque uma cidade que só pulsa na festa, mas adoece no cotidiano, não celebra a vida — apenas a consome.

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