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O Irã deve se opor aos EUA e a Israel

Do A Terre è Redonda, 24 de fevereiro 2026
Por LEILA MOUSSAVIAN-H UPPE*


Imagem: Sajjad Ahmadi

A crise no Irã expõe a falência do regime teocrático, mas a ameaça de intervenção imperialista torna a luta popular um campo minado entre a repressão interna e a captura externa

A afirmação de que o Irã se encontra atualmente em uma situação pré-revolucionária não estaria errada. Isso significa que ocorrerá uma revolução que leve à derrubada do regime, em prol do povo e de suas reivindicações legítimas? Infelizmente, nada é menos certo a curto e médio prazo: o povo enfrenta sérios desafios por parte do regime e dos objetivos do imperialismo estadunidense e seus aliados, principalmente Israel.

A República Islâmica enfrenta uma crise sem precedentes.

A República Islâmica atravessa sua mais profunda crise política e econômica; uma crise que não pode ser analisada como uma série de eventos isolados, mas sim como a manifestação das contradições e incompatibilidades internas da estrutura socioeconômica do sistema capitalista neoliberal, dependente e rentista, com a superestrutura religiosa que governa o Irã.

A greve iniciada em 28 de dezembro por comerciantes de tecnologia no Grande Bazar de Teerã, e que posteriormente repercutiu em bazares de outras cidades, mudou o cenário. As ações dos comerciantes levaram milhares de cidadãos de diversos grupos sociais a se manifestarem nas ruas de cidades e vilarejos por todo o país.

Vale ressaltar que, ao longo dessas décadas, esta é a primeira vez que o bazar entra em greve e protesta. A pequena burguesia, apoiadores inabaláveis de Khomeini, facções religiosas desde 1978 e a República Islâmica exigiam “intervenção governamental imediata para conter as flutuações cambiais” devido à disparada dos preços da moeda e do ouro, que ameaçavam a continuidade e a sobrevivência de seus negócios. Ao mesmo tempo, um segmento do Bazar — que havia enriquecido consideravelmente sob esse regime — detinha as rédeas do poder e faria qualquer coisa para manter seu status e privilégios.

As numerosas sanções internacionais, que impactaram severamente e violentamente a população, estão na raiz da crise econômica do país. A paralisia da economia iraniana, afetada por essas sanções, mas também pela inflação altíssima, pelo colapso da moeda, pela corrupção endêmica e pela infraestrutura obsoleta, impacta todas as classes e estratos sociais. A pressão econômica pesa fortemente sobre os trabalhadores, a classe média e até mesmo uma parcela da economia de mercado. Segundo dados oficiais da República Islâmica, mais de 40% da população vive abaixo da linha da pobreza.

As mobilizações sociais estão em ascensão.

O aumento das mobilizações por parte desses diversos grupos sociais — trabalhadores, mulheres, estudantes, jovens, defensores dos direitos humanos, etc. — que se mantêm até hoje, é considerável. As principais reivindicações centram-se na justiça social e nas liberdades democráticas, bem como na denúncia das desastrosas condições de vida econômica (queda drástica do poder de compra, desemprego endêmico, etc.).

Por mais de cem semanas, os presos têm estado em greve como parte do movimento “Terças-feiras contra a Pena de Morte/Enforcamento”, com cânticos entoados dentro das prisões e por seus apoiadores do lado de fora de mais de 55 presídios. Antes dessa onda de protestos, houve greves de metalúrgicos, trabalhadores do setor energético, mineiros em Zareh Shuran Takab, trabalhadores do petróleo e gás, manifestações dominicais de aposentados e manifestações de segunda-feira de aposentados do setor de telecomunicações, uma greve de funcionários da Middle East Sugar Company, uma ação coordenada de trabalhadores terceirizados da South Pars Oil Industries e protestos de funcionários dos setores de saúde, educação, universidades e outros. Isso demonstra claramente a crítica à direção socioeconômica do regime teocrático.

Esses movimentos indicam claramente a entrada em uma nova fase de protestos populares e questionamentos sobre as políticas e o funcionamento da República Islâmica do Irã.

Trabalhadores, operários, mulheres e jovens estão se recusando, em grande número, a viver sob pressão econômica, pobreza crescente e repressão política. Eles desafiam o regime e denunciam essas condições, arriscando suas vidas. Esta é a “crise de baixo para cima”.

A repressão, no cerne do funcionamento do regime.

É importante lembrar que, entre as revoluções do século XX, a República Islâmica do Irã gozou de amplo apoio popular. No entanto, ao longo do tempo, as políticas repressivas do regime marginalizaram, baniram, silenciaram, prenderam e encarceraram toda a oposição. A repressão em massa e as execuções sumárias começaram em 1988, visando ativistas e líderes de grupos de esquerda. Todos os protestos, violentamente reprimidos pela Guarda Revolucionária e pela milícia Basij, foram atribuídos a agentes estrangeiros e à interferência estrangeira. Os protestos contra a apreensão do jornal “Salam” em julho de 1999, seguidos por ataques a campi universitários; as manifestações de 2009 – contestando a fraude eleitoral – levaram à prisão de milhares de pessoas; a prisão domiciliar de Mir Hossein Mousavi, Zahra Rahnavard e Mehdi Karroubi por conspiração em 2010; a violenta repressão de manifestações populares contra o aumento de preços e as políticas governamentais, rotulada como uma “conspiração contrarrevolucionária” orquestrada pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Israel em janeiro de 2017; a repressão e as mortes nos protestos do “Novembro Negro” em 2019 em 29 províncias contra um aumento de 200% no preço da gasolina; e a rotulação de “manifestantes violentos” durante o levante popular “Mulher, Vida, Liberdade” em 2022. Muitos ex-funcionários do regime – como Tadjzaseh – expressam abertamente suas críticas e estão presos em Evin. A lista é longa. O regime está agora mais isolado do que nunca, com uma base de apoio de apenas 10 a 15% da população, e se mantém por meio de sua força repressiva. Este governo é incapaz de fornecer soluções concretas e duradouras para as crises econômicas e estruturais, apoiar as diversas camadas sociais ou mesmo manter a coesão dentro da burguesia dominante parasitária. Seu poder repressivo não pode protegê-lo a longo prazo. Outro fator: as aspirações por subsistência, dignidade humana e liberdade que alimentaram o movimento revolucionário de 1978-79 prevalecem sobre o discurso ideológico religioso. A “crise vinda de cima” é, portanto, evidente.

A revolta foi desafiada pela organização e pela unidade política.

Assim, nos deparamos com as condições objetivas para uma revolução: as classes mais baixas não querem mais viver como antes e as classes mais altas não conseguem mais governar como antes.

Mas o problema reside na clara ausência das “condições subjetivas” para a revolução e a transformação das classes médias. Isso constitui um perigo real.

O movimento de protesto é vasto e profundamente enraizado, e os assassinatos e abusos do regime não o silenciarão. Mas sem uma liderança unificada e organizada de forças nacionais e progressistas, esse movimento terá dificuldades para alcançar seus objetivos. Uma liderança que represente os verdadeiros interesses dos trabalhadores, das classes populares — em suma, da nação — e que defenda um programa radical de transformação política e econômica que garanta a integridade do país e a soberania do povo, atualmente não controla as ruas.

Podem-se observar semelhanças com o movimento revolucionário que começou em 1977 e levou à queda da tirânica monarquia Pahlavi. A diferença reside no fato de que o regime de Mohammad Reza Pahlavi, restaurado ao trono após o golpe de 1953 orquestrado pela CIA e pelo MI6, era ilegítimo, enquanto a República Islâmica ainda possui legitimidade hoje, uma base que, embora limitada, é inegavelmente muito real, e o apoio armado da Guarda Revolucionária, que conta com mais de 150.000 homens.

Portanto, qualquer mudança de regime imposta ao Irã levará ao caos.

O imperialismo estadunidense e Israel estão tentando de tudo para alcançar seus respectivos objetivos, que não são idênticos. Uma guerra civil, o desaparecimento do Irã como Estado e sua partição, semelhante à do Iraque, tranquilizariam Israel e permitiriam que os Estados Unidos e seus aliados assumissem o controle e explorassem os recursos naturais do país, além de recuperar o controle desse espaço geoestratégico na região, na Ásia e em relação à China.

O futuro do Irã pertence ao seu povo.Mas o futuro do Irã também depende, e sobretudo, da capacidade coletiva das forças nacionais e progressistas de guiar essa revolta espontânea da fase de entusiasmo e raiva para a de organização e planejamento.

*Leila Moussavian-h Uppe é tradutora e analista do Oriente Médio

Tradução: Artur Scavone.

Publicado originalmente na revista Recherches internationales.

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