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Nova ciência econômica

Do A Terra É Redonda, 24 de fevereiro 2026
Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*


Ao superar sem destacar Marx e Keynes, a Nova Ciência Econômica propõe uma síntese evolutiva em sistemas adaptativos complexos, causalidade circular e mudança histórica

Uma experiência pessoal lamentável, na minha carreira acadêmica, tive no ano passado, quando escrevi um livro sob o título “Introdução à Nova Ciência Econômica através de Fábulas e Crônicas” e o enviei para a Editora da Unicamp. Recebi um parecer anônimo de um colega ciumento no qual perguntava, em síntese, “quem é você, mero escritor em português, para a elaboração de uma Nova Ciência Econômica?!”.

Não tive a oportunidade de lhe explicar ela ser resultante de múltiplas leituras, desde a última década, da literatura econômica de vanguarda, publicada em inglês e outras línguas. Não acho o falante em inglês ter o monopólio da inteligência… e a escrevi em português, de maneira bem coloquial, para divulgar para um público mais amplo. Felizmente, um parecerista da Edusp recomendou a publicação do livro em breve.

Uma Nova Ciência Econômica adota a transdisciplinaridade por emergir das interações entre Economia Comportamental ou Psicologia Econômica, Economia Institucionalista ou Sociologia Econômica, Economia Evolucionária ou Biologia Darwinista, Economia da Complexidade ou Econofísica.

Ela supera, mantendo o ainda válido do marxismo do século XIX e do keynesianismo de cerca de um século atrás. Muitas de suas proposições são utilizadas nesse método transdisciplinar com uma visão holística e sistêmica da complexidade da realidade dinâmica contemporânea.

A hipótese de uma “Nova Ciência Econômica” transdisciplinar não é extravagante — ela estava em formação difusa desde a segunda metade do século passado. A questão relevante não é se ela substitui marxismo ou keynesianismo, mas como reorganiza o campo científico ao integrar diferentes níveis explicativos.

A emergência transdisciplinar já está em curso pelo acesso mais fácil a múltiplos livros e métodos científicos, via internet, e por ser capaz de reunir diversas contracorrentes de pensamento. Desloca, então, o núcleo duro da Ciência Econômica tradicional.

Por exemplo, a Economia Comportamental, associada a Daniel Kahneman e Richard Thaler, entre outros autores, introduz investigações sobre racionalidade limitada e vieses heurísticos nas tomadas de decisões. Ela rompe com o agente maximizador plenamente racional do neoclassicismo.

Uma nova Economia Institucional, com autores como Douglass North e Oliver Williamson, enfatiza regras formais e informais, custos de transação e estruturas de governança. A Economia passa a depender de instituições historicamente formadas.

A Economia Evolucionária, inspirada em Joseph Schumpeter e desenvolvida por Richard Nelson e Sidney Winter, trata de inovação e seleção como processos dinâmicos. Com empreendimentos, destruição criativa e crédito farto, a economia deixa de ser vista como estivesse em equilíbrio e passa a ser processo adaptativo.

Economia da Complexidade foi desenvolvida em centros como o Santa Fe Institute. Modela sistemas econômicos como redes não lineares com emergência e feedback positivo ou negativo. É conhecida também como Econofísica.

Essas correntes desmontaram os pilares do modelo estático de equilíbrio geral. A transdisciplinaridade não é projeto futuro, porque já é uma tendência em consolidação.

Essa Nova Ciência Econômica (NCE) transdisciplinar integra quatro níveis: primeiro, o Micro psicológico, ou seja, decisão sob incerteza e emoção; segundo, o Meso institucional com regras, normas, estruturas organizacionais; terceiro, o Macroestrutural, onde se foca distribuição, poder, conflito; o quarto, Dinâmica Sistêmica, trata de redes, não linearidade e emergência.

Ela abandona o agente isolado, o equilíbrio como estado natural e a neutralidade institucional. Adota sistemas adaptativos complexos, causalidade circular e múltiplos níveis de análise. Nesse sentido, está mais próxima de uma Ciência de Sistemas em vez de uma Física socioeconômica.

Um pós-keynesiano, temeroso de sua superação, apelou: “Enquanto vocês se divertem com metáforas da Física, nós estamos ocupados, construindo a ponte entre a teoria de Keynes e os problemas reais da indústria brasileira. A Faria Lima agradece quando a heterodoxia se perde em ‘econofísicas’ e ignora a dinâmica da taxa de câmbio real e da produtividade”. É lamentável a vaidade academista…

Quando digo ela supera (no sentido dialético hegeliano) o marxismo e o keynesianismo, mantendo seus conceitos válidos, é preciso cuidado conceitual. Sem dúvida, Karl Marx já tinha visão estrutural e sistêmica ao tratar o capitalismo como relação social, dinâmica histórica, conflito distributivo e reprodução ampliada. Faltava, no marxismo contemporâneo, a formalização em termos de sistemas complexos e integração com psicologia ou biologia evolutiva.

Logo, uma abordagem transdisciplinar não elimina Marx. Ela reformula sua contribuição em linguagem sistêmica contemporânea.

No caso do pós-keynesianismo, é notório os herdeiros de John Maynard Keynes terem incorporado incerteza radical, expectativas, instabilidade financeira. São, nesse sentido, precursores da complexidade macroeconômica. Mas uma ciência transdisciplinar expande sua teoria ao integrar redes financeiras, comportamento coletivo e dinâmica adaptativa a cada nova realidade.

Portanto, a NCE não elimina essas tradições fundamentais na formação adequada de um bom economista. Ela as reinterpreta. Marx analisa estrutura e conflito. Keynes analisa instabilidade e incerteza. Complexidade analisa variações dinâmicas ao longo do tempo. Economia Comportamental analisa microfundamentos não racionais. Institucionalismo analisa mediação histórica por instituições. Economia Evolucionária analisa o método darwinista, aplicado à economia, ou seja, a adequação dos agentes econômicos ao ambiente mutável.

Há risco de “ecletismo superficial”. Transdisciplinaridade não pode significar só soma acrítica de teorias, justaposição de conceitos e perda de núcleo explicativo.

Para constituir “Nova Ciência”, é preciso uma ontologia (estudo das propriedades mais gerais do ser) com resposta clara à questão: o que é sistema econômico? Precisa, igualmente, um princípio organizador, por exemplo, reprodução e transformação sistêmica. Precisa de uma estrutura formal compatível com não linearidade. Por fim, precisa ter capacidade preditiva condicional. Sem isso, vira mera retórica holística sem adotar os métodos top-down (de cima para baixo) e bottom-up (de baixo para cima). A vida é difícil, mas temos de lidar com ela…

Uma abordagem sistêmica possível é uma formulação integradora. A atividade econômica passa a ser vista como um sistema adaptativo complexo, composto por agentes cognitivamente limitados, inseridos em instituições historicamente formadas, interagindo por meio de relações monetárias e financeiras, capazes de gerarem dinâmicas emergentes de crescimento, crise e transformação estrutural.

Nesse enquadramento, mercado não é mecanismo de equilíbrio, Estado não é exógeno, moeda não é neutra, expectativas não são racionais no sentido absoluto. Crises não são choques externos, mas propriedades emergentes. Isso tudo é profundamente compatível com uma abordagem holística.

A superação é um dos pilares da dialética de Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Ela não significa simplesmente destruir, anular ou abandonar uma ideia ou situação anterior, mas sim um processo triplo de negar, conservar e elevar.

Nesse sentido, “superar” não significa descartar Marx e Keynes. Significa sim integrá-los em uma arquitetura mais ampla. Trata-se de uma síntese evolutiva da Economia Política sob o paradigma da complexidade.

O realmente distinto dessa Nova Ciência Econômica não é apenas o método transdisciplinar, mas o abandono do equilíbrio como centro, a centralidade da dinâmica histórica, o reconhecimento da disputa de poder e do conflito distributivo, a integração entre micro comportamento e macroestrutura e a modelagem por sistema complexo. Este emerge das interações entre seus múltiplos componentes.

Se a Teoria Alternativa da Moeda, organizada por mim na tese de Livre-Docência, defendida em 1994, a partir da história do pensamento econômico, já destaca a moeda como relação social dinâmica e condicionada estruturalmente, ela é candidata natural a integrar esse paradigma. Mas este será um tema para novo artigo de divulgação da complexidade com simplicidade.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]

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