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Medicina 4.0

Do A Terra É Redonda, 26 de fevereiro 2026
Por MARIA LUIZA PIRES*


Imagem: Hush Naidoo Jade

Entre algoritmos e decisões vitais, a medicina ainda se define pelo cuidado que não se automatiza

1.
Para compreender o que é ser médico faz mister irmos para seus primórdios, sua base, seu locus nascendi, e entender o desenvolvimento dessa arte que chamamos de medicina.

Não querendo me prolongar muito na arqueologia do desenvolvimento do papel de médico, vou me ater no entanto na única e verdadeira observação que considero indispensável: não há como dissociar a medicina e o médico da constituição de um sujeito ético.

Então, devemos analisar como formamos esse sujeito ético, o médico, que irá aprender a medicina em alguma instituição de ensino, dentro da nossa realidade contemporânea informacional, imerso na infosfera.[i]

Lá no começo, com Hipócrates, foi possível sair do clã dos Asclepíades e ensinar a medicina fora dos templos, pautados pelo famoso Juramento de Hipócrates,[ii] que conferia o novo ethos no período clássico: primun non nocere![iii]

Acompanhar o mestre às casas daqueles que padeciam, observar suas feridas e dores, menos diagnosticar e mais restituir a saúde do corpo através de receitas, dietas e cuidados, respeitando a physis e o tempo da clínica, seu kairós, perfaziam a prática dos hipocráticos. Imerso na teoria dos humores, sem detalhes anatômicos, sem bioquímica, sem microscopia, sem antibióticos, observando os ciclos febris e o efeito de purgantes, o médico ia destrinchando os sinais do corpo e apaziguando o sofrimento do seu paciente. Não significava cura propriamente, mas, trazia alento e respeito à ananke physeos.[iv]

Ao longo dos tempos, o progresso técnico em todas as esferas humanas foi sensacional e quase ininterrupto, progredindo de forma exponencial[v] e na medicina não foi diferente. Do surgimento das vacinas à cirurgia robótica, vidas sendo salvas como nunca antes, dobrando a expectativa de vida da população ao final do séc. XX. Mesmo assim, a ética dos hipocráticos continuou como faceta estruturante daquilo que se chama “ser médico”. Nenhuma faculdade de medicina até hoje, que se tenha notícia no mundo ocidental, pauta seu ensino sem as considerações éticas implícitas e indispensáveis à prática médica.

Mas obviamente a preponderância da pauta técnica, ainda mais recentemente com a aplicação em vias de fato da Inteligência Artificial no âmbito da vida humana, vem tomando um espaço não desprezível na formação médica, colocando-se como indiscutível e necessária no mercado de trabalho competitivo atual: é a medicina 4.0 entrando no palco do ensino.

2.
Corte para uma cena:

Estamos diante de uma paciente com diagnóstico de câncer de pulmão, uma caiçara, com vida dedicada aos filhos, o fogão à lenha era sua lida diária. Foi internada com falta de ar e já usava oxigênio suplementar em casa. Há uma dúvida no que é possível fazer em termos terapêuticos, pois a doença vem se agravando, porém os médicos têm em mãos uma biópsia que sugere um crescimento tumoral possivelmente benigno.

A falta de ar foi maior e ela precisou ser intubada e respira agora com ajuda da ventilação mecânica. Não consegue ficar sem esse auxílio. Chama-se a família e se explica o mau prognóstico: “gostaríamos de poder extrair o tumor, mas tecnicamente isso não é possível e ela não sobreviveria a uma cirurgia tão invasiva, ela está muito fraca e sem os recursos físicos necessários para aguentar o trauma da operação”.

Aqui a cautela se apresenta. Cada médico avalia, de acordo com sua sensibilidade[vi] o melhor a ser feito a partir de agora. A forma de comunicar, a conversa, o toque e a delicadeza são fundamentais. A finitude diante dos olhos é também espelho para quem cuida. Segundo Berardi, a sensibilidade é a capacidade de interpretar e entender aquilo que não pode ser expresso em signos verbais ou digitais.[vii] Essa percepção intuitiva de cada qual que vai se deparar com situações desse tipo, procurando sempre fazer o melhor para o paciente, como deveria ser ensinada?

Fazer bons diagnósticos não é a completude do ensino médico. Máquinas e auxílios acadêmicos provenientes da interface com a internet e computadores proporcionam informação de forma prática e rápida. Para se obter uma informação crítica, um último artigo de revisão, uma equação que ajude a prescrever uma medicação, uma diretriz, um protocolo e etc… são bem vindos, mas não exaure a totalidade da prática da medicina e não abarca a dimensão ética de sua pragmática.

A medicina 4.0 está aí como produto de marketing das faculdades de medicina, quem não tem corre o risco de ser arcaica na sua proposta de ensino. A dita “quarta revolução industrial” promete fazer a medicina entrar em uma nova fronteira antecipando benefícios econômicos e técnicos, mas também colocando em xeque o papel do médico no futuro. Mas é possível ensinar coisas como empatia e humanismo aprendendo com uma máquina? Então pergunta-se, quais são os reflexos da Inteligência Artificial na formação do médico?

3.
Outro corte de cena:

Em uma Unidade de Terapia Intensiva, à mercê de algumas decisões de vida e de morte, o paciente é um corpo sem sujeito ou um sujeito dessubjetivado. Na ausência de alguém que se interesse por sua história de vida, seus projetos interrompidos, seu lugar na família e seu temor ou horror diante da solidão de uma cama de UTI, o paciente/sujeito está desprovido de autonomia e identidade própria.

Ao seu redor ele ouve apitos que não fazem sentido, outros barulhos constantes, vozes que muitas vezes não entende, onde ele não vê a luz do sol entrar, não sabendo ao certo se é dia ou noite, sendo controlado por monitores e câmeras, sob o torpor de medicações ou sentindo alguma dor física. Como ensinar o médico em formação para a percepção desse entorno que se coloca como a “quase-essência” de casos do seu dia-a-dia utilizando-se de máquinas que carecem de espírito?

O treinamento e o conhecimento onde aplicamos nossa habilidade de saber o que deve ser feito, a conduta certa a ser tomada, se encontra agora em um espaço mais distante, uma sala ao lado, ou um balcão em separado, onde se pode ver os traçados do eletrocardiograma, as curvas de pressão e a oximetria do paciente.

Nessa conexão do médico treinado em captar essa informação, concatenando dados, visualizando os monitores e interpretando sinais computacionais é que surge o campo propício para a constituição de um médico maquínico. O pensamento se torna um mecanismo semelhante ao da máquina. É o médico que se concentra em absorver, na tentativa de interpretar todos os sinais magnéticos, os fluxos e as estatísticas numéricas de registros biológicos na tela de um monitor e na rede de informática que lhe entrega os sinais do paciente além de uma série de resultados de exames laboratoriais e estatísticas.

Vejamos que na medicina moderna já estamos lidando com uma proliferação de sinais e signos com os quais o médico precisa interagir e decifrar, buscando estabelecer uma conexão, muitas vezes procurando um sentido de causa e efeito. A subjetividade médica em formação tenta se alinhar com a subjetividade das máquinas que lhe auxiliam e são indissociáveis, formando um construto operacional maquínico. Nessa formatação não há a possibilidade de uma intersubjetividade à la Jacob Levy Moreno: falta um “outro”.[viii]

Não irei fazer um juízo de valor sobre faculdades médicas que desejam estar atualizadas naquilo que de melhor existe em termos de tecnologia. A verdade é que a tecnologia moderna digital e as plataformas médicas online, estão se tornando cada vez mais prevalentes, para o bem ou para o mal: a vindoura medicina 4.0. Apenas acredito que devemos nos perguntar então que médico estarão formando, como forma de provocação para aprofundamento da discussão em pauta: serão ainda hipocráticos esses egressos?

4.
Pergunto mais, precisamos de “mais medicina” ou de “mais cuidado”? À primeira vista não precisariam ser tópicos excludentes, mas o contexto atual exige um esforço de discernimento.[ix] Sabemos desde muito que é pela prevenção que evitamos a maioria das doenças e que é pelo fortalecimento do sistema básico de saúde e da melhoria das condições de vida da população no geral que oferecemos o que se produziu de melhor em termos de saúde. A medicina preventiva não é só mais barata, ela também é a melhor abordagem a ser ensinada e aplicada quando almejamos cuidar do povo.

Contudo, estamos chegando ao ponto em que daqui a pouco tempo será possível que um robô faça diagnósticos melhores que os humanos, pois já conseguem fazer cirurgias menos lesivas com cortes milimetricamente precisos pelo auxílio da robótica. Se para chegar em alguns diagnósticos fazemos roteiros, algoritmos e pontuações, seria ingênuo desacreditar na primeira afirmação acima. O que nos faz argumentar que com o aumento da utilização da Inteligência Artificial na medicina, treinamento específico nessa área deverá se impor.

Qual será o lugar do médico e da medicina na sociedade da informação? Um dos criadores da Inteligência Artificial, Kai-Fu Lee, fez uma pergunta intrigante: “quando as máquinas podem fazer tudo que podemos, o que significa ser humano?”[x] Ele mesmo, após ser diagnosticado com um linfoma avançado parou para ressignificar aquele crescimento dentro de si e afirmar a centralidade do amor na experiência humana em detrimento da busca pela superação do cérebro humano que ele almejava como cientista da computação.

Para Kai-Fu Lee, em contrapartida ao valor econômico e a prosperidade em escala inigualável alcançada pela humanidade a partir da “nova eletricidade”, a própria inteligência artificial, resta aos humanos a procura por profissões que ainda não estão sujeitas à automação e que exijam mais inteligência emocional.

Uma consultora de projetos em Inteligência artificial, Sol Rashidi, criou critérios para decidir o que ainda deve ficar exclusivamente nas mãos dos seres humanos, em qualquer área de atuação. Se a iniciativa é de alto risco e alta complexidade é melhor que as decisões recaiam sobre os humanos, mas se a tarefa é de baixo risco e baixa complexidade pode ser delegada aos robôs[xi]. Parece uma obviedade, mas que deve ser levada à sério quando a “Inteligência Artificial Geral” chegar. Decisões críticas poderão escapar ao controle humano.

Na medicina já estamos diante de quase isso, se considerarmos que do ponto de vista individual uma decisão terapêutica ou diagnóstica pode representar um risco significativo para o paciente. Estudos sobre a perspectiva de pacientes do uso da inteligência artificial através de plataformas médicas /chatbots revelam que, até o presente, a maioria ainda prefere receber recomendações diretamente de um médico.[xii]

5.
Considerando que estamos na era da “medicina de precisão”, é compreensível que o auxílio de plataformas que contabilizam dados e atualizam o conhecimento médico se torne cada vez mais indispensáveis. No entanto, devemos admitir e lembrar que empatia e atendimento humanizado são insubstituíveis, podendo impactar no uso de algoritmos e plataformas informacionais no atendimento ao paciente.

Isso é tão verdadeiro que mesmo hoje muitos laboratórios e clínicas diagnósticas tomam cuidado e recomendam que agentes médicos e não-médicos envolvidos na realização de exames se eximam de fazer comentários sobre seus resultados, deixando para o clínico responsável conversar com o paciente sem intermediários, evitando mal-entendidos e falta de acolhimento com certos diagnósticos difíceis. Nada mais prudente e humano.

Uma outra questão importante, e que foi muito cara aos médicos hipocráticos, é a questão da responsabilidade pelas ações e resultados da prática médica. Quem há de se responsabilizar no caso de um erro relacionado à Inteligência Artificial?

Na relação médico-paciente fatores múltiplos estão envolvidos no processo de decisão em relação às condutas médicas. A aliança terapêutica influencia na adesão do paciente ao tratamento, a empatia e o respeito às crenças individuais são fundamentais para o sucesso de uma abordagem que almeja a saúde integral e não apenas física. O que fazer quando o computador, através de dados analisados pela Inteligência Artificial, sugerir que o prognóstico de um caso é muito ruim e isso ser colocado digitalmente para o paciente e ele optar pela eutanásia?

Recentemente houve um caso em que o ChatGPT foi implicado no suicídio de um adolescente que mantinha uma conversa com o computador que imitava a “empatia humana”, e ao que parece, os diálogos do jovem com a máquina haviam durado meses até seu fim trágico! Nenhum algoritmo interno da Inteligência Artificial foi capaz de barrar ou alterar o curso dos eventos. Restou aos pais processarem a OpenAI.

6.
Talvez por temer situações como essa, pesquisas sobre a percepção dos pacientes em relação à Inteligência Artificial indicam que muitos ainda não confiam completamente na tecnologia, principalmente os mais idosos e com menor grau de escolaridade (digital gap), e que esperam que um humano propriamente esteja à frente das decisões médicas e que possam inclusive desfazer uma recomendação dada como certa pelo computador.[xiii]

Uma das habilidades que os médicos aprendem a desenvolver durante o ensino na faculdade é que existem maneiras diversas de fazer o que é certo; são caminhos alternativos que guiam o paciente pelo seu percurso em direção à cura ou de como ir sobrevivendo com os desafios de carregar uma doença ao longo da vida que ainda lhe resta.

Importante salientar que o uso e aplicação da Inteligência Artificial na área da saúde tem sido um dos campos de pesquisa que mais cresce na medicina de hoje. Muitos desses estudos visam aumentar a confiança das pessoas nos diagnósticos baseados em dados gerados pela Inteligência Artificial.[xiv]

A velocidade com que a tecnologia avança não deve fazer com que se perca de vista nossa habilidade de reflexão sobre os dilemas éticos que se impõe à profissão de médico, tomando-se cuidado e atenção para não sermos atropelados por interesses econômicos que procuram vender a tecnologia de forma acrítica. Interessante ver em um jornal de grande circulação uma matéria que diz: “novas tecnologias ajudam a agilizar diagnósticos, desburocratizar rotinas e garantem mais tempo para o médico se dedicar ao paciente”.[xv]

A tecnologia sendo vendida como um instrumento que potencializa o cuidado e a redução do tempo gasto pelo emprego de algoritmos usados em exames com aplicação da Inteligência Artificial é o suprassumo da ideologia neoliberal na medicina: mais eficiência, mais produtividade, menos atrito de corpos! Dedicação ao paciente não é uma questão de tempo, é uma questão de princípio ético.

A formação do médico enquanto um sujeito ético deve estar sempre no foco das faculdades de medicina, apesar e com todos os avanços tecnológicos atuais e que porventura ainda venham a existir. Fato este que coloca o Juramento de Hipócrates como núcleo a-histórico, imóvel e atemporal do que chamamos de “ser médico”.

*Maria Luiza Pires, médica, é doutora pela Faculdade de Medicina da USP. Autora do livro Juramento de Hipócrates e lógos epitáphios: o éthos clássico (Unesp). [https://amzn.to/4tXfSWf]

Notas

[i] GUIRALDELLI, P. Capitalismo 4.0: sociedades e subjetividades. São Paulo: CEFA Editorial, 2025.

[ii] PIRES, M.L. Juramento de Hipócrates e Lógos Epitáphios: O Éthos Clássico. São Paulo, Ed. Unifesp, 2023, 184 p.

[iii] Primeiro não fazer o mal!

[iv] Ananke physeos: do grego “necessidade da natureza”, significando aceitar os limites da arte pelo imperativo divino da natureza e sua sabedoria e também admitindo a inexorabilidade das doenças.

[v] KURZWEIL, R. The singularity is near: when humans transcends biology. Ed. Viking, 2005.

[vi] O tratado medico hipocrático “Da Medicina Antiga”, evoca a necessidade do médico usar a sua sensibilidade, no sentido grego de aisthesis, para melhor proceder em cada caso. Ver: PIRES, M.L. Juramento de Hipócrates e Lógos Epitáphios: O Éthos Clássico. São Paulo, Ed. Unifesp, 2023, p. 127.

[vii] BERARDI, F. Asfixia: capitalismo financeiro e a insurreição da linguagem. São Paulo: Ubu, 2020. IN: GUIRALDELLI, P. Semiocapitalismo. CEFA Editorial, São Paulo, 2022.

[viii] Jacob Levy Moreno, criador do Psicodrama, corrente psicoterapêutica que prioriza a relação “eu-tu”.

[ix] Uma crítica ao “excesso de medicina” pode ser lido em: Overtreated: why too much medicine is making us sicker and poorer. BROWNLEE, S. New York, Bloomsbury, 2007.

[x] LEE, K. Inteligência artificial: como os robôs estão mudando o mundo, a forma como amamos, nos relacionamos, trabalhamos e vivemos. Trad. Marcelo Barbão. Rio de Janeiro, Globo Livros, 2019.

[xi]“IA não é varinha mágica, e projetos hoje são uma bagunça, diz especialista”. Folha de S. Paulo, 18/10/2025.

[xii] KLINGER, C. et. al. Patient Perspectives on the Use of Artificial Intelligence in Health Care: A Scoping Review. JPCRR, vol. 11(1), 2024, p. 51-62.

[xiii] FRITSCH, S.J. et. al. Attitudes and perception of artificial intelligence in healthcare: a cross-sectional survey among patients. Digital Health, vol. 8, 2022, p. 1-16.

[xiv] PESAPANE, F. et. al. Patients´ Perceptions and Attitudes to the use of Artificial Intelligence in Breast Cancer Diagnosis: A Narrative Review. Life, vol. 14(454), 2024, p.1-11.

[xv] “Aliada dos profissionais de saúde, inovação é oportunidade para humanizar atendimento”. Folha de S. Paulo, 18/10/2025.

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