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‘Matem’ os jornalistas (e advogados e professores) e chamem a IA.

Do DCM, 19 de fevereiro 2026
Por Lenio Streck


Robôs substituindo jornalistas. Foto gerada por IA

Há uma discussão sobre o uso de inteligência artificial no jornalismo e na escrita em geral. Escrevi sobre isso na semana passada, criticando a posição da jornalista ombudsman da Folha de S.Paulo, que, de certo modo, avalizou o modus operando algorítmico utilizado pela colunista Natália Beauty. A colunista confessou às claras que usa. Não só usa como tudo o que ela escreve é feito pela IA. Inclusive a resposta para a ombudsman (ler aqui o artigo Ombudsman da Folha de S.Paulo também precisa de hermenêutica!).

Outo jornalista, Paulo Markun entrou na discussão e também avalizou os algoritmos de N. Beauty. Foi mais longe: disse que a IA é o aperfeiçoamento do ofício de escrever. E confessou que faz igual a N. Beauty. Pronto.

Houve repercussões. Mas, parece uma guerra perdida. Já não dá para aguentar a frase “ah, é só uma ferramenta”. É? Um pincel não recebe um prompt e sai pintando. Elementar isso. Dizer “é só uma ferramenta” é um insulto à inteligência não artificial! Portanto, parem com esse meme ridículo de “é só uma ferramenta” (ver aqui meu texto Os entalhadores de pedras, a escrita por IA e o tec-existencialismo)

João Pereira Coutinho fez um belo texto na própria Folha. O título é magnifico: Textos por IA são como a masturbação, satisfazem, mas não convencem. Disse também:

“Pensar e escrever não são universos distintos. Escrever também é um modo de pensar — e os pensamentos, que podem existir antes do ato, são transformados pelo processo criativo. É isso que explica que, para muitos escritores, a escrita continuaria sendo uma necessidade vital mesmo que não publicassem uma única linha. Muitos não publicaram, ou só o fizeram modestamente, como Fernando Pessoa. Outros ordenaram a destruição dos seus inéditos em caso de morte, como Kafka ao amigo Max Brod — que, felizmente, não cumpriu esse desejo.”

Recentemente lancei o livro Robô Não Desce Escada e Trapezista Não Voa, com o subtítulo OS LIMITES DOS APRENDIZES DE FEITICEIRO, pela Contracorrente. Ali comento e denuncio os estragos feitos pela IA, como o brain rot. No mundo todo, escolas começam a banir telas. Estamos involuindo. Se a escrita é a garantia contra o fracasso da memória, não parece que, ao terceirizarmos um texto para a IA, estejamos evoluindo em alguma coisa, a não ser em nossa preguiça.“Robô Não Desce Escada e Trapezista Não Voa”. livro de Lenio Streck

No livro, conto algumas histórias. Inclusive a do aprendiz de feiticeiro, de Goethe (reaproveitada por Walt Disney por meio de uma historinha do Mickey Mouse). De tantas que conto, gosto muito da seguinte, talvez porque me identifique com o velho pardal Scronkfinkle.

Nick Bostrom, em seu célebre livro sobre “Superinteligência — caminhos, perigo e estratégias para um novo mundo”, inicia a obra com uma fábula, a “Fábula Inacabada dos Pardais”:

Era a estação de construção dos ninhos. Mas, após longos dias de trabalho árduo, os pardais se sentaram sob o luar, relaxando e gorjeando.
“Nós somos tão pequenos e fraquinhos… Imagine como a vida seria fácil se tivéssemos uma coruja que nos ajudasse na construção de nossos ninhos!”
“Sim”, disse outro. “E nós poderíamos ter a ajuda dela para cuidar dos pardais mais velhos e também dos mais novos.”
“Ela poderia nos aconselhar e ficar de olho no gato do vizinho”, acrescentou um terceiro. Então, Pastus, o pássaro mais velho, disse: “Vamos enviar olheiros para procurar em todos os lugares uma corujinha abandonada, ou talvez um ovo. Um filhote de corvo ou de doninha também serviria. Isso poderia ser a melhor coisa que já nos aconteceu, pelo menos desde a abertura do Pavilhão do Grão Ilimitado, no quintal ao lado”.

O bando estava radiante e os pardais começaram a gorjear com toda a força.

Apenas Scronkfinkle, o pardal rabugento e de um olho só, não estava convencido da prudência daquela empreitada. Disse ele: “Será, com certeza, nossa destruição. Não deveríamos pensar um pouco sobre a arte da domesticação e do adestramento das corujas antes de trazer criaturas desse tipo para o nosso meio?”.


Quando um jovem advogado posta nas redes dizendo “em 30 segundos o ChatGPT faz um agravo melhor do que eu”, dirijo-me às montanhas. Se ele estudou cinco anos e não aprendeu como elaborar um agravo, então deveria parar de advogar. Perder para uma ferramenta, que faz melhor do que ele em apenas 30 segundos?

Que fracasso, não?

Também nas redes nos deparamos com gente vendendo “clonagem” de juiz. Run to the hills.

Quanto à colunista Natalia Beauty e quem pensa como ela, chamemos o garçom. Canta melhor do que o cantor.

Post scriptum: Os agentes de IA e o mais do mesmo no judiciário

Como diz o cientista Avi Loeb, chefe do Projeto Galileu, diretor fundador da Iniciativa Buraco Negro da Universidade de Harvard, diretor do Instituto de Teoria e Computação do Centro Harvard-Smithsonian de Astrofísica, agora que os agentes de IA conseguem superar os humanos em tarefas de pesquisa científica, estou bastante preocupado com o futuro da academia. Como os cientistas de IA afetariam o mercado de trabalho para estudantes e pós-doutorandos? Assistentes de pesquisa poderiam ser substituídos por agentes de IA como força de trabalho principal. As aulas perderiam seu papel tradicional de transmitir informações, que poderiam ser transmitidas de forma mais eficaz por agentes de IA”.

Ele complementa: A educação terá que se concentrar em ensinar os alunos a pensar independentemente de seus agentes de IA. Essa não será uma tarefa fácil, pois aqueles que dependem de agentes de IA tendem a perder sua capacidade cognitiva.

A partir do trabalho desses “agentes de IA” dos quais fala Avi Loeb, o meu leitor fiel Carlos Rodrigo Tanajura Barreto me lembra o seguinte: com base no treinamento que a IA ou os Agentes da IA irão ter ou têm, a IA do nosso sistema de Justiça é, e será, mais do mesmo. E explica: eles treinam a IA para caçar e inadmitir recursos, como já faziam antes com mão humana. Poderiam aproveitar a eficiência da IA e os agentes de IA para quebrar um pouco a barreira das súmulas e entendimentos que travam os recursos superiores e permitirem os julgamentos de mérito, mas o que acontece é justamente o contrário. As IAs e Agentes s(er)ão treinados por uma experiência humana. E, em um parafraseio de minha obra, Tanajura fecha, dizendo: a IA só será um sniper mais eficiente que um humano; mas apenas fará o estrago de forma mais eficiente.

Repito: Dizer “é só uma ferramenta” é um insulto à inteligência não artificial!

Repito 2: Ou: “matem” todos e “chamem” as ferramentas! Afinal…

Publicado originalmente no Conjur

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