Do Rebelión, 19 de fevereiro 2026
Por Crismar Lujano, no Diario Red | Tradução: Antonio Martins
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Marco Rubio discursa durante campanha eleitoral na Flórida, em 2016 | Foto: Paul Sancya-AP |
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O cinismo de Marco Rubio em Munique parece inacreditável, mas é real. Sua fala pode ser lida, na íntegra, no site do Departamento de Estado dos EUA.
Ao falar, em 13/2, à Conferência de Segurança de Munique, um dos principais fóruns geopolíticos mundiais, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, tirou o último véu já pouco disfarçada política externa MAGA para os próximos anos. Seu discurso foi recebido com uma ovação em pé por grande parte da elite europeia, aliviada por ouvir o chefe da diplomacia norte-americana reivindicar a aliança imperialista oldfashioned do colonialismo sem complexos e do poderio militar sem limites. Ela seria a base finalmente da tão esperada restauração geopolítica da hegemonia ocidental.
Rubio estruturou seu discurso, desde o início, no contexto dessa identidade compartilhada: “Fazemos parte de uma única civilização: a civilização ocidental”. Acrescentou que essa unidade se fundamenta em “séculos de história compartilhada, fé cristã, cultura, patrimônio, idioma, ancestralidade e nos sacrifícios que nossos antepassados fizeram juntos pela civilização comum que herdamos”. O mais espantoso não é evocar essa história compartilhada, mas perceber que ela foi apresentada como superior, homogênea e destinada a liderar. Trata-se de um apelo à “civilização ocidental” como fundamento político de uma hierarquia global.
Nostalgia pelo Império
Talvez o momento mais revelador do discurso tenha sido a defesa explícita do passado imperial e genocida. Rubio afirmou: “Durante cinco séculos, antes do fim da Segunda Guerra Mundial, o Ocidente nunca parou de se expandir. Seus missionários, peregrinos, soldados e exploradores deixaram suas terras para cruzar os oceanos, colonizar novos continentes e construir vastos impérios ao redor do mundo.” Todos esses termos são, é claro, eufemismos para escravidão, extermínio de povos indígenas, pilhagem de recursos e violência.
A colonização foi apresentada descaradamente como uma aventura épica. E quando se abordou seu declínio, o diagnóstico foi claro: “Os grandes impérios ocidentais entraram em uma fase de declínio irreversível. Esse declínio foi acelerado por revoluções comunistas ateístas e levantes anticoloniais”. Nessa narrativa, a descolonização não é justiça histórica, mas decadência. Os povos que lutaram por sua independência aparecem como catalisadores do “declínio” ocidental. Essa ginástica conceitual não é anedótica: ela reposiciona o eixo moral do século XX e sugere que o problema não era a dominação colonial, mas sim sua perda.
Quando Rubio afirma que os Estados Unidos não querem ser “os guardiões educados e ordeiros do declínio controlado do Ocidente” e que buscam “revitalizar a maior civilização da história da humanidade”, a mensagem é inequívoca: o recuo hegemônico deve ser revertido.
Migração e exclusão
Um dos pontos mais enfáticos foi a oposição à imigração. Rubio argumentou: “Controlar quem e quantas pessoas entram em nossos países não é uma expressão de xenofobia. Não é ódio. É um ato fundamental de soberania nacional. E deixar de fazê-lo não é apenas uma abdicação de um dos nossos deveres mais básicos para com o nosso povo. É uma ameaça urgente à estrutura das nossas sociedades e à própria sobrevivência da nossa civilização.”
A migração não é abordada como um fenômeno ligado às desigualdades globais, muitas das quais têm origem na história colonial e nas intervenções ocidentais, mas sim como uma ameaça existencial a uma civilização que deve ser preservada. Nesse contexto, a soberania deixa de ser um princípio universal aplicável a todas as nações e torna-se um atributo primordial do Ocidente.
Livre comércio, clima e concorrência estratégica
Rubio criticou a “visão dogmática do livre comércio irrestrito” e denunciou que “algumas nações protegeram suas economias e subsidiaram suas empresas para minar sistematicamente as nossas”, causando desindustrialização e perda de controle sobre as cadeias de suprimentos.
Ele não chegou a mencionar a China nominalmente, mas deixou claro que o objetivo é competir e reindustrializar. Também criticou as políticas climáticas, alegando que o Ocidente, “para apaziguar um culto climático”, impôs restrições a si mesmo, enquanto seus concorrentes exploram recursos energéticos “não apenas para impulsionar suas economias, mas para usá-los como alavanca contra as nossas”. A questão subjacente é uma reconfiguração da ordem econômica internacional, na qual o Sul Global aparece como uma arena de disputa estratégica, em vez de um ator autônomo.
A ordem internacional subordinada
O desafio ao multilateralismo foi direto: “Não podemos continuar a priorizar a suposta ordem mundial em detrimento dos interesses vitais de nossos povos e nações”. Rubio defendeu as ações unilaterais em Gaza, Ucrânia, Irã e Venezuela como exemplos de liderança necessária quando as instituições internacionais falham. Em relação à Venezuela, ele afirmou que “foram as forças especiais dos EUA que tiveram que intervir”.
A lógica é coerente com a tradição imperial: o direito internacional é válido desde que não limite a capacidade de ação da potência hegemônica. E ele deixou isso claro: “Embora estejamos preparados para fazer isso sozinhos, se necessário, é nossa preferência e nossa esperança fazê-lo em conjunto com vocês, nossos amigos aqui na Europa”. O convite é para uma aliança de potências que atuem de forma coordenada, mas sem abrir mão da primazia.
Da América Latina: memória histórica
Para a América Latina e o Caribe, esse discurso não é mera retórica. A região tem sido um laboratório histórico para a política externa dos EUA: intervenções militares, golpes de Estado apoiados por Washington, sanções, bloqueios e restrições financeiras. Quando a colonização é evocada como um capítulo glorioso e a descolonização como um erro histórico, o que se normaliza é uma hierarquia global na qual o Ocidente, e particularmente os Estados Unidos, arroga para si o direito de decidir o destino dos outros.
O império anglo-americano não abandonou o colonialismo; transformou-o. Passou da ocupação direta à hegemonia financeira, tecnológica e militar. O que distingue este momento é a franqueza com que a primazia é afirmada. A ovação em Munique refletiu o alívio europeu num tom mais elegante do que o de Trump ou J.D. Vance. Mas o conteúdo permanece o mesmo: a formulação contemporânea de uma ambição colonizadora que já não é apresentada como um fardo histórico, mas como uma missão renovada.
E também não se trata de um gesto isolado. Além da política externa imediata, o discurso em Munique teve o caráter de uma plataforma política. Em seu tom e em sua síntese de trumpismo e reaganismo, percebeu-se algo mais do que diplomacia: o início de um projeto pessoal. Em Washington, muitos já o interpretam como o primeiro ato de uma corrida rumo a 2028. Rubio falou como secretário de Estado. Mas também falou como candidato. E se esse foi de fato o ponto de partida de sua campanha presidencial, ele deixou claro qual seria sua bandeira: não administrar o declínio, mas restaurar, por bem e por mal, a primazia ocidental.
Ao falar, em 13/2, à Conferência de Segurança de Munique, um dos principais fóruns geopolíticos mundiais, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, tirou o último véu já pouco disfarçada política externa MAGA para os próximos anos. Seu discurso foi recebido com uma ovação em pé por grande parte da elite europeia, aliviada por ouvir o chefe da diplomacia norte-americana reivindicar a aliança imperialista oldfashioned do colonialismo sem complexos e do poderio militar sem limites. Ela seria a base finalmente da tão esperada restauração geopolítica da hegemonia ocidental.
Rubio estruturou seu discurso, desde o início, no contexto dessa identidade compartilhada: “Fazemos parte de uma única civilização: a civilização ocidental”. Acrescentou que essa unidade se fundamenta em “séculos de história compartilhada, fé cristã, cultura, patrimônio, idioma, ancestralidade e nos sacrifícios que nossos antepassados fizeram juntos pela civilização comum que herdamos”. O mais espantoso não é evocar essa história compartilhada, mas perceber que ela foi apresentada como superior, homogênea e destinada a liderar. Trata-se de um apelo à “civilização ocidental” como fundamento político de uma hierarquia global.
Nostalgia pelo Império
Talvez o momento mais revelador do discurso tenha sido a defesa explícita do passado imperial e genocida. Rubio afirmou: “Durante cinco séculos, antes do fim da Segunda Guerra Mundial, o Ocidente nunca parou de se expandir. Seus missionários, peregrinos, soldados e exploradores deixaram suas terras para cruzar os oceanos, colonizar novos continentes e construir vastos impérios ao redor do mundo.” Todos esses termos são, é claro, eufemismos para escravidão, extermínio de povos indígenas, pilhagem de recursos e violência.
A colonização foi apresentada descaradamente como uma aventura épica. E quando se abordou seu declínio, o diagnóstico foi claro: “Os grandes impérios ocidentais entraram em uma fase de declínio irreversível. Esse declínio foi acelerado por revoluções comunistas ateístas e levantes anticoloniais”. Nessa narrativa, a descolonização não é justiça histórica, mas decadência. Os povos que lutaram por sua independência aparecem como catalisadores do “declínio” ocidental. Essa ginástica conceitual não é anedótica: ela reposiciona o eixo moral do século XX e sugere que o problema não era a dominação colonial, mas sim sua perda.
Quando Rubio afirma que os Estados Unidos não querem ser “os guardiões educados e ordeiros do declínio controlado do Ocidente” e que buscam “revitalizar a maior civilização da história da humanidade”, a mensagem é inequívoca: o recuo hegemônico deve ser revertido.
Migração e exclusão
Um dos pontos mais enfáticos foi a oposição à imigração. Rubio argumentou: “Controlar quem e quantas pessoas entram em nossos países não é uma expressão de xenofobia. Não é ódio. É um ato fundamental de soberania nacional. E deixar de fazê-lo não é apenas uma abdicação de um dos nossos deveres mais básicos para com o nosso povo. É uma ameaça urgente à estrutura das nossas sociedades e à própria sobrevivência da nossa civilização.”
A migração não é abordada como um fenômeno ligado às desigualdades globais, muitas das quais têm origem na história colonial e nas intervenções ocidentais, mas sim como uma ameaça existencial a uma civilização que deve ser preservada. Nesse contexto, a soberania deixa de ser um princípio universal aplicável a todas as nações e torna-se um atributo primordial do Ocidente.
Livre comércio, clima e concorrência estratégica
Rubio criticou a “visão dogmática do livre comércio irrestrito” e denunciou que “algumas nações protegeram suas economias e subsidiaram suas empresas para minar sistematicamente as nossas”, causando desindustrialização e perda de controle sobre as cadeias de suprimentos.
Ele não chegou a mencionar a China nominalmente, mas deixou claro que o objetivo é competir e reindustrializar. Também criticou as políticas climáticas, alegando que o Ocidente, “para apaziguar um culto climático”, impôs restrições a si mesmo, enquanto seus concorrentes exploram recursos energéticos “não apenas para impulsionar suas economias, mas para usá-los como alavanca contra as nossas”. A questão subjacente é uma reconfiguração da ordem econômica internacional, na qual o Sul Global aparece como uma arena de disputa estratégica, em vez de um ator autônomo.
A ordem internacional subordinada
O desafio ao multilateralismo foi direto: “Não podemos continuar a priorizar a suposta ordem mundial em detrimento dos interesses vitais de nossos povos e nações”. Rubio defendeu as ações unilaterais em Gaza, Ucrânia, Irã e Venezuela como exemplos de liderança necessária quando as instituições internacionais falham. Em relação à Venezuela, ele afirmou que “foram as forças especiais dos EUA que tiveram que intervir”.
A lógica é coerente com a tradição imperial: o direito internacional é válido desde que não limite a capacidade de ação da potência hegemônica. E ele deixou isso claro: “Embora estejamos preparados para fazer isso sozinhos, se necessário, é nossa preferência e nossa esperança fazê-lo em conjunto com vocês, nossos amigos aqui na Europa”. O convite é para uma aliança de potências que atuem de forma coordenada, mas sem abrir mão da primazia.
Da América Latina: memória histórica
Para a América Latina e o Caribe, esse discurso não é mera retórica. A região tem sido um laboratório histórico para a política externa dos EUA: intervenções militares, golpes de Estado apoiados por Washington, sanções, bloqueios e restrições financeiras. Quando a colonização é evocada como um capítulo glorioso e a descolonização como um erro histórico, o que se normaliza é uma hierarquia global na qual o Ocidente, e particularmente os Estados Unidos, arroga para si o direito de decidir o destino dos outros.
O império anglo-americano não abandonou o colonialismo; transformou-o. Passou da ocupação direta à hegemonia financeira, tecnológica e militar. O que distingue este momento é a franqueza com que a primazia é afirmada. A ovação em Munique refletiu o alívio europeu num tom mais elegante do que o de Trump ou J.D. Vance. Mas o conteúdo permanece o mesmo: a formulação contemporânea de uma ambição colonizadora que já não é apresentada como um fardo histórico, mas como uma missão renovada.
E também não se trata de um gesto isolado. Além da política externa imediata, o discurso em Munique teve o caráter de uma plataforma política. Em seu tom e em sua síntese de trumpismo e reaganismo, percebeu-se algo mais do que diplomacia: o início de um projeto pessoal. Em Washington, muitos já o interpretam como o primeiro ato de uma corrida rumo a 2028. Rubio falou como secretário de Estado. Mas também falou como candidato. E se esse foi de fato o ponto de partida de sua campanha presidencial, ele deixou claro qual seria sua bandeira: não administrar o declínio, mas restaurar, por bem e por mal, a primazia ocidental.

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