Por MARILIA PACHECO FIORILLO*
Homenagem ao professor, cientista social e político falecido recentemente
1.
Fui aluna de José Álvaro Moisés na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciencias Humanas) no final dos anos 1970. Depois enveredei pela carreira jornalística, como articulista e editora de cultura e política internacional. Até que voltei à casa, isto é, à USP, como professora em 2006. Nunca mais encontrei José Álvaro Moisés, embora há quase dez anos estivéssemos lado a lado como colunistas da Radio USP ( ele, de política brasileira, eu, mais modestamente, de geopolítica internacional).
Do pouco que alcanço, não há, atualmente, grande afinidade político-partidária entre nós. E nunca participei de seus grupos de trabalho e pesquisa ou de suas redes, embora acompanhasse com interesse suas ideias, fartamente mencionadas e elogiadas, e que dispensam apresentações.
Daí esta homenagem ao mestre ser totalmente graciosa , desinteressada. É uma homenagem a um ideal que tende a se perder, e infelizmente dar lugar ao carreirismo desenfreado e virulento e ao “empreendedorismo” da produtividade.
2.
A nota de pesar do chefe do Departamento de Ciência Política da USP, Rafael Duarte Villa, enfatiza a dupla contribuição de José Álvaro Moisés, como pensador e ativista. “José Álvaro Moisés mantinha uma atividade intelectual prolixa e engajada, e com frequência recebíamos suas notícias sobre a organização de seminários, e suas reflexões sobre o futuro da democracia brasileira, direitos humanos e cultura política, áreas nas quais dirigia fóruns como o de Formulação dos Direitos e o Fórum da Democracia. Ele foi fundamental na organização do Departamento de Ciência Política da USP nos anos oitenta do século passado, da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e da International Political Science Association (IPSA).
Foi fundador do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da USP, e foi também o primeiro coordenador do Curso de Gestão de Políticas Públicas da EACH/USP (2004/2006). E como professor sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP, coordenava, com grande dinamismo, o Grupo de Pesquisa da Qualidade da Democracia. Departamento de Ciência Política da USP Moisés também foi Presidente do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea CEDEC (1987-1991), e também Secretário de Apoio à Cultura (1995-1998) e Secretário de Audiovisual (1999-2002) do Ministério da Cultura, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso”.
“Um dos fundadores dos Estudos da Cultura Política no país, era um apaixonado da democracia brasileira à qual dedicou todas suas reflexões e esforço intelectual nas últimas três décadas legando obras como Crises da Democracia: o papel do congresso, dos deputados e dos partidos”, Bulding democracies. Challenges, crises and response to rule of law, Access to justice and political representation; A desconfiança política e os seus impactos na qualidade da democracia; Democracia e desconfiança. Por que os cidadãos desconfiam das Instituições públicas”.
3.
Mas quero ressaltar outro aspecto da biografia de José Álvaro Moisés, menos explorado: a coerência entre o dizer e fazer. Sua maior virtude era a generosidade intelectual e delicadeza no trato, não só com seus pares, mas sobretudo com os aprendizes. Virtudes não muito usuais no meio acadêmico em que impera a “Schadenfreude” (algo como ‘prefiro torcer para o outro fracassar que para obter meu sucesso’), embora sejam notáveis em vários mestres brasileiros, cujos nomes omito para não incorrer em injustos esquecimentos.
Mas menciono duas honrosas exceções, meu tutor canadense Andre Corten e a professora emérita da London School of Economics, Eileen Barker. Não dá outra: quanto mais erudito, talentoso e original for o intelectual, maior será sua capacidade de se projetar agregando pela escuta, não pelas diatribes. Nada contra polémicas, desde que substanciais, e não uma fogueira de vaidades. É o efeito do amor de si: quem é suficientemente seguro pode depor as armas com mais frequência e se dar ao luxo de escutar com apreço e curiosidade.
São estas qualidades – a capacidade de acolher pensamentos diferentes ou hesitantes e, mesmo os repreendendo, fazê-lo com amabilidade – que conquistam as mentes. No final dos anos 1970 e início dos 1980, nós, alunos, éramos jovens carbonários com um idealismo de cristal e impetuosidade indomável (a ponto de exigir de um docente de antropologia que introduzisse a fórceps o conceito marxista de “classe” em tribos indígenas!).
José Álvaro Moisés amansava tais rompantes com a mais vigorosa das técnicas: afabilidade e tato. Chegou até a converter alguns bagrinhos recalcitrantes… Como lembrou uma colega de turma, ele seguia o receituário do escritor Henry James. Quando perguntaram a Henry James quais as três coisas mais importantes da vida, respondeu: Primeiro, a gentileza. Segundo, a gentileza. Terceiro e último… a gentileza.
Obrigada, professor.
*Marilia Pacheco Fiorillo é professora aposentada da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP). Autora, entre outros livros, de O Deus exilado: uma breve história de uma heresia (Civilização Brasileira) [https://amzn.to/3KXux1Q]
O velório do professor José Álvaro Moisés será hoje, 15 de fevereiro, das 8 às 11 horas, no salão nobre do prédio da Administração da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, na Rua do Lago, 717, Cidade Universitária, São Paulo, SP.
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| José Álvaro Moisés (1945-2026) |
Homenagem ao professor, cientista social e político falecido recentemente
1.
Fui aluna de José Álvaro Moisés na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciencias Humanas) no final dos anos 1970. Depois enveredei pela carreira jornalística, como articulista e editora de cultura e política internacional. Até que voltei à casa, isto é, à USP, como professora em 2006. Nunca mais encontrei José Álvaro Moisés, embora há quase dez anos estivéssemos lado a lado como colunistas da Radio USP ( ele, de política brasileira, eu, mais modestamente, de geopolítica internacional).
Do pouco que alcanço, não há, atualmente, grande afinidade político-partidária entre nós. E nunca participei de seus grupos de trabalho e pesquisa ou de suas redes, embora acompanhasse com interesse suas ideias, fartamente mencionadas e elogiadas, e que dispensam apresentações.
Daí esta homenagem ao mestre ser totalmente graciosa , desinteressada. É uma homenagem a um ideal que tende a se perder, e infelizmente dar lugar ao carreirismo desenfreado e virulento e ao “empreendedorismo” da produtividade.
2.
A nota de pesar do chefe do Departamento de Ciência Política da USP, Rafael Duarte Villa, enfatiza a dupla contribuição de José Álvaro Moisés, como pensador e ativista. “José Álvaro Moisés mantinha uma atividade intelectual prolixa e engajada, e com frequência recebíamos suas notícias sobre a organização de seminários, e suas reflexões sobre o futuro da democracia brasileira, direitos humanos e cultura política, áreas nas quais dirigia fóruns como o de Formulação dos Direitos e o Fórum da Democracia. Ele foi fundamental na organização do Departamento de Ciência Política da USP nos anos oitenta do século passado, da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e da International Political Science Association (IPSA).
Foi fundador do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da USP, e foi também o primeiro coordenador do Curso de Gestão de Políticas Públicas da EACH/USP (2004/2006). E como professor sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP, coordenava, com grande dinamismo, o Grupo de Pesquisa da Qualidade da Democracia. Departamento de Ciência Política da USP Moisés também foi Presidente do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea CEDEC (1987-1991), e também Secretário de Apoio à Cultura (1995-1998) e Secretário de Audiovisual (1999-2002) do Ministério da Cultura, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso”.
“Um dos fundadores dos Estudos da Cultura Política no país, era um apaixonado da democracia brasileira à qual dedicou todas suas reflexões e esforço intelectual nas últimas três décadas legando obras como Crises da Democracia: o papel do congresso, dos deputados e dos partidos”, Bulding democracies. Challenges, crises and response to rule of law, Access to justice and political representation; A desconfiança política e os seus impactos na qualidade da democracia; Democracia e desconfiança. Por que os cidadãos desconfiam das Instituições públicas”.
3.
Mas quero ressaltar outro aspecto da biografia de José Álvaro Moisés, menos explorado: a coerência entre o dizer e fazer. Sua maior virtude era a generosidade intelectual e delicadeza no trato, não só com seus pares, mas sobretudo com os aprendizes. Virtudes não muito usuais no meio acadêmico em que impera a “Schadenfreude” (algo como ‘prefiro torcer para o outro fracassar que para obter meu sucesso’), embora sejam notáveis em vários mestres brasileiros, cujos nomes omito para não incorrer em injustos esquecimentos.
Mas menciono duas honrosas exceções, meu tutor canadense Andre Corten e a professora emérita da London School of Economics, Eileen Barker. Não dá outra: quanto mais erudito, talentoso e original for o intelectual, maior será sua capacidade de se projetar agregando pela escuta, não pelas diatribes. Nada contra polémicas, desde que substanciais, e não uma fogueira de vaidades. É o efeito do amor de si: quem é suficientemente seguro pode depor as armas com mais frequência e se dar ao luxo de escutar com apreço e curiosidade.
São estas qualidades – a capacidade de acolher pensamentos diferentes ou hesitantes e, mesmo os repreendendo, fazê-lo com amabilidade – que conquistam as mentes. No final dos anos 1970 e início dos 1980, nós, alunos, éramos jovens carbonários com um idealismo de cristal e impetuosidade indomável (a ponto de exigir de um docente de antropologia que introduzisse a fórceps o conceito marxista de “classe” em tribos indígenas!).
José Álvaro Moisés amansava tais rompantes com a mais vigorosa das técnicas: afabilidade e tato. Chegou até a converter alguns bagrinhos recalcitrantes… Como lembrou uma colega de turma, ele seguia o receituário do escritor Henry James. Quando perguntaram a Henry James quais as três coisas mais importantes da vida, respondeu: Primeiro, a gentileza. Segundo, a gentileza. Terceiro e último… a gentileza.
Obrigada, professor.
*Marilia Pacheco Fiorillo é professora aposentada da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP). Autora, entre outros livros, de O Deus exilado: uma breve história de uma heresia (Civilização Brasileira) [https://amzn.to/3KXux1Q]
O velório do professor José Álvaro Moisés será hoje, 15 de fevereiro, das 8 às 11 horas, no salão nobre do prédio da Administração da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, na Rua do Lago, 717, Cidade Universitária, São Paulo, SP.

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