De Outras Palavras, 12 de fevereiro 2026
Por Helio Miranda Costa Junior
Título original:
A Ditadura do Liso: Como a IA e a Engenharia da Resposta estão Anestesiando a Ética
“A arte que faz política, suprimindo-se como arte, opõe-se, então, a uma arte que é política com a condição de preservar-se pura de qualquer intervenção política.”
(RANCIÈRE, p. 52)
Vivemos sob o domínio de uma emboscada sensorial que confunde deslumbramento com consciência. O maravilhamento que nos assalta diante da perfeição instantânea das inteligências artificiais não é um triunfo da subjetividade humana, mas o sintoma de uma anestesia ética profunda. Ao nos oferecerem a beleza sem o percurso, essas ferramentas operam o que Jacques Rancière define como um regime de identificação: um enquadramento antecipado da experiência que anula a nossa capacidade de estranhamento (p. 21).
Essa operação torna-se evidente na estética das imagens geradas por algoritmos. Elas recorrem com frequência a um hiper-realismo pictórico, a luzes volumétricas e a composições que mimetizam o “gosto médio” consagrado pela história da arte. Contudo, essa iluminação simulada — que evoca Rembrandt ou o Renascimento — não ilumina um objeto real, mas o nosso próprio desejo de perfeição. Trata-se de uma estética do atalho: como a imagem é tecnicamente irrepreensível, a percepção entra em repouso. O “uau” imediato bloqueia o questionamento ético; não há a tensão da pincelada errada nem o conflito cromático capaz de interromper o transe.
Por Helio Miranda Costa Junior
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| Imagem: Elliott Franks |
Título original:
A Ditadura do Liso: Como a IA e a Engenharia da Resposta estão Anestesiando a Ética
“A arte que faz política, suprimindo-se como arte, opõe-se, então, a uma arte que é política com a condição de preservar-se pura de qualquer intervenção política.”
(RANCIÈRE, p. 52)
Vivemos sob o domínio de uma emboscada sensorial que confunde deslumbramento com consciência. O maravilhamento que nos assalta diante da perfeição instantânea das inteligências artificiais não é um triunfo da subjetividade humana, mas o sintoma de uma anestesia ética profunda. Ao nos oferecerem a beleza sem o percurso, essas ferramentas operam o que Jacques Rancière define como um regime de identificação: um enquadramento antecipado da experiência que anula a nossa capacidade de estranhamento (p. 21).
Essa operação torna-se evidente na estética das imagens geradas por algoritmos. Elas recorrem com frequência a um hiper-realismo pictórico, a luzes volumétricas e a composições que mimetizam o “gosto médio” consagrado pela história da arte. Contudo, essa iluminação simulada — que evoca Rembrandt ou o Renascimento — não ilumina um objeto real, mas o nosso próprio desejo de perfeição. Trata-se de uma estética do atalho: como a imagem é tecnicamente irrepreensível, a percepção entra em repouso. O “uau” imediato bloqueia o questionamento ético; não há a tensão da pincelada errada nem o conflito cromático capaz de interromper o transe.
A engenharia da resposta ausente
Essa antecipação sistemática da experiência produz o que chamo de engenharia da resposta ausente. Se a cultura, em sua dimensão formativa, deveria treinar o sujeito a sustentar gestos e a responder por eles, a cultura técnica do imediatismo faz o oposto: ela nos dispensa da resposta. Instala-se uma ruptura silenciosa entre o ato de fazer (poiesis) e o ato de sentir (aisthesis), separando o aparelho técnico da interioridade que outrora habitava a criação (p. 43–44).
Essa ruptura manifesta-se no design das interfaces que habitamos cotidianamente. A estética do “atrito zero”, com suas tipografias neutras e espaços em branco generosos, busca uma invisibilidade absoluta. Essa transparência funciona como operação política de silenciamento: se a interface é “limpa”, a ideologia que a sustenta também o é. Onde não há erro de navegação nem fricção visual, o sujeito deixa de ocupar um espaço para se tornar um dado em fluxo. A estética do clean é, em última instância, a estética da ausência de resposta.
Consenso, dissenso e o empobrecimento do sensível
O risco ético dessa configuração reside na normalização absoluta do consenso. Para Rancière, o consenso não é um acordo harmonioso, mas um mecanismo de neutralização que apaga “o caráter dissensual da política” (p. 49). Quando o sensível é organizado para evitar o conflito, o dissenso não chega sequer a emergir como experiência possível.
Essa purificação manifesta-se na onipresença do “liso” nas texturas contemporâneas — das superfícies de vidro dos smartphones às peles filtradas que eliminam poros e marcas. O liso não oferece resistência: ele convida ao toque que escorrega, não ao que apreende. Ao filtrar as arestas do real antes mesmo que possam ser sentidas, a técnica algorítmica produz um mundo higienizado, onde “a parte dos sem-parte” — o feio, o torto, o humano — é tratada como ruído a ser removido. O maravilhamento converte-se, assim, em narcótico de alta eficácia.
O risco ético dessa configuração reside na normalização absoluta do consenso. Para Rancière, o consenso não é um acordo harmonioso, mas um mecanismo de neutralização que apaga “o caráter dissensual da política” (p. 49). Quando o sensível é organizado para evitar o conflito, o dissenso não chega sequer a emergir como experiência possível.
Essa purificação manifesta-se na onipresença do “liso” nas texturas contemporâneas — das superfícies de vidro dos smartphones às peles filtradas que eliminam poros e marcas. O liso não oferece resistência: ele convida ao toque que escorrega, não ao que apreende. Ao filtrar as arestas do real antes mesmo que possam ser sentidas, a técnica algorítmica produz um mundo higienizado, onde “a parte dos sem-parte” — o feio, o torto, o humano — é tratada como ruído a ser removido. O maravilhamento converte-se, assim, em narcótico de alta eficácia.
Indistinção e simulacro no regime estético
Esse mal-estar não é apenas subjetivo; ele decorre de um rearranjo histórico mais profundo do sensível. No Regime Estético da Arte, a obra deixa de ser identificada por regras de execução ou critérios técnicos e passa a ser reconhecida por um “modo de ser sensível próprio a seus produtos” (RANCIÈRE, p. 77). A arte torna-se autônoma quando suas maneiras de fazer se misturam às demais atividades humanas.
É nessa zona de indistinção que a inteligência artificial se instala de forma perversa. Ela produz objetos que possuem o corpo e a aura da arte, mas que não resultam de um gesto situado. Retomando o par mimesis/poiesis, tal como Rancière o mobiliza ao discutir o regime representativo, a imagem algorítmica preserva o “agenciamento de ações representadas” (p. 76), mas esvazia sua origem. Representa a ação de estudar ou criar sem resultar da ação de criar.
Temos, assim, simulacros de saber: formas reconhecíveis que eliminam o intervalo da dúvida e a hesitação do gesto. O saber aparece como produto, não como percurso. Como observa Lev Manovich, trata-se de uma estética da mídia sintética, orientada à retenção passiva e à eficácia do maravilhamento, não à verdade do gesto.
O liso como afeto dominante
É nesse ponto que o pensamento de Byung-Chul Han ilumina a dimensão afetiva do processo. O domínio do Liso designa uma estética que elimina a negatividade e a resistência do outro. O liso não permite demora; ele convida ao deslizamento contínuo. A percepção é mantida em movimento, mas jamais interrompida o suficiente para exigir resposta.
O erro, o inacabado e o estranho são tratados como ruídos a serem corrigidos. A experiência estética torna-se consumo imediato, purificado de qualquer ferida. A indistinção que, historicamente, permitia à arte reorganizar o sensível converte-se agora em instrumento de neutralização.
Confiança, política e anestesia
Para Rancière, a submissão não se sustenta pela ignorância. “Os explorados raramente tiveram necessidade de que lhes fossem explicadas as leis da exploração.” O que sustenta a dominação é a perda de confiança na própria capacidade de transformar o mundo comum. Ao automatizar a beleza e torná-la indistinguível da criação humana, a estética algorítmica corrói essa confiança.
O sensível passa a ser percebido como algo que vem de fora — de sistemas e modelos — e não como algo que pode ser produzido e tensionado pela experiência. Forma-se um mundo consensual não porque todos concordam, mas porque já não se acredita que seja possível discordar de maneira eficaz.
A imagem como prova ética
É nesse ponto que a imagem gerada por inteligência artificial abaixo se impõe como prova silenciosa. À primeira vista, nada nela denuncia a técnica. Ela poderia passar por uma pintura renascentista: estudiosos debruçados sobre mapas celestes, composição equilibrada, luz dramática. Tudo remete ao esforço humano do saber.
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Mas trata-se de um simulacro. A imagem representa o estudo sem resultar de um ato de estudar. Não há risco, hesitação ou decisão incorporada na forma. O sensível está completo demais para exigir resposta. Surge, então, a pergunta decisiva: quem assina essa imagem? Não no sentido jurídico, mas ético. A máquina não responde; o operador não atravessou o gesto. Resta um regime que se assina a si mesmo.Imagem gerado pelo CHAT GPT 5.2 – Prompt: me cria uma imagem como se fosse uma pintura clássica renascentista, com estudiosos debruçados em livros.
O que ainda nos obriga a responder
Retomar a ética não significa rejeitar a técnica, mas recusar a paz artificial de uma beleza que não nos custou nada. A potência política da arte reside na distância e na suspensão que ela instaura (p. 37). Onde não há intervalo, não há resposta. Onde não há resposta, não há ética.
A solidão da obra reaparece, assim, como recusa à integração imediata. Ser ético hoje talvez consista em sustentar o desconforto como condição da experiência. No crepúsculo da resposta automática, nossa única liberdade reside em não delegar o gesto de responder.
Referências
HAN, Byung-Chul. A salvação do belo. Petrópolis: Vozes, 2019.
MANOVICH, Lev. AI aesthetics. Moscow: Strelka Press, 2018.
RANCIÈRE, Jacques. O mal-estar da estética. São Paulo: Editora 34, 2009.
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