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Esta carta vai te dar raiva | Carta semanal 7 (2026)

Do Brasil de Fato 16 de fevereiro 2026


Vijay Prashad é historiador e jornalista indiano. Diretor geral do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.


Ah, o capitalismo sempre teve esgotos sob suas ruas reluzentes. Seus bancos são catedrais construídas sobre rios imundos.

O tráfico de drogas – e a “Guerra às Drogas” que o controla – desencadeia uma cadeia de sofrimento incessante sobre as comunidades camponesas do Sul Global. Não se pode explicar tamanha brutalidade sistemática sem indignação.

Saudações do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

Para Nicolás Maduro e Cilia Flores

Há alguns meses, viajei com uma equipe do nosso instituto para Cauca, na Colômbia, para me reunir com diversas organizações afiliadas ao Processo de Unidade Popular do Sudoeste da Colômbia (Pupsoc), uma coalizão de organizações que defendem a terra e os direitos das comunidades rurais. Cauca abriga comunidades camponesas produtoras de coca, onde as famílias não cultivam a planta por “escolha”, mas porque o despojo e o abandono pelo Estado lhes negaram meios de subsistência dignos. Seu trabalho mal lhes permite sobreviver, enquanto suas plantações são inseridas em uma cadeia global de valor obscenamente lucrativa e permeada pelo sofrimento. Juntamente com a Coordenadora Nacional de Cultivadores de Coca, Papoula e Maconha (Coccam), realizamos a pesquisa que se tornou o dossiê n. 97, A Guerra contra os pobres: narcóticos, camponeses e capitalismo (fevereiro de 2026). As imagens desta carta são do dossiê; elas apresentam fotografias da Pupsoc com intervenções da equipe de arte do Tricontinental.

Comecei a escrever esta carta em prosa, mas não consegui encontrar as palavras certas. Então, transformei-a em um longo poema sinuoso. Fiz isso porque a raiva que sinto do sistema que produz essa cadeia de valor do sofrimento não pode ser facilmente explicada sem a raiva. Então, aqui vai:

Cajibío, Cauca: confronto durante a erradicação forçada da coca
| Crédito: Pupsoc

Eles chegaram,
Pois é, eles chegaram –
uma manhã o mar se abriu
como uma ferida azul,
e navios se arrastaram para fora
carregados ​​de fome.

Trouxeram a civilização
nos bolsos,
embrulhada como uma faca
em seda.

Civilização, diziam,
como se estivessem nomeando uma flor.

Mas era fome.

Era pólvora.

Eram contratos de papel
que mordiam mais fundo
que dentes.

Seus navios beberam ouro
das costelas do continente,
e exalaram correntes
nos corpos dos homens.

A terra,
a terra ancestral,
paciente como uma mãe,
foi forçada a abrir suas veias
para estranhos.

Tomaram a terra.

Tomaram a mão de obra.

Tomaram as florestas
ainda úmidas com o canto dos pássaros.

Drenaram as montanhas
até que as pedras mesmas
se sentissem pobres.

E o que deixaram?

A pobreza,
como uma tigela rachada
deixada na poeira
para as crianças lamberem.


Popayán, Cauca (2020): tributo às vítimas da repressão policial em 2019 | Crédito: Pupsoc

Depois,
os bandidos mudaram de uniforme.

Jogaram fora
suas peles de metal,
suas espadas,
suas cruzes da conquista.

Agora usavam ternos
cor de cinzas.

Suas bocas aprenderam
novas palavras:

desenvolvimento,
democracia,
lei e ordem –

perfume borrifado
sobre o mesmo cadáver.

E sempre
declaravam guerra.

Guerra às drogas.

Guerra ao terror.

Guerra aos pobres.

Guerra, guerra, guerra –
como se a guerra fosse a única oração
que seu império conhecesse.

Monterredondo, Cauca: camponeses dão boas vindas a ex-combatentes após acordos de paz de 2016 | Crédito: Pupsoc

Eles nos dizem:

O tráfico de drogas é uma infecção,
uma sombra do lado de fora do sistema,
um submundo criminoso
sob a cidade imaculada.

Mas o capitalismo,
Ah, o capitalismo,
sempre teve esgotos
sob suas ruas reluzentes.

Seus bancos são catedrais
construídas sobre rios imundos.

A máfia não está do lado de fora.
O narcotraficante não está do lado de fora.
O traficante de armas
não está do lado de fora.

São artérias
no mesmo corpo.

O dinheiro sujo sobe
como fumaça de uma fornalha,
é lavado,
passado,
e devolvido
como capital legítimo
para sentar-se educadamente
à mesa do poder.

Isso não é um acidente.

É o órgão oculto
da besta.

Marx chamou isso de
acumulação originária –

mas nunca teve fim.

Conquista colonial,
cercamento,
roubo de terras,
comércio de seres humanos –

o capital não nasceu limpo.

Nasceu
com sangue nos lábios.

E quando tem fome,
quando tem sede,
retorna
ao banditismo,

como um vampiro
debruçado sobre o pescoço
do mundo.

Outubro de 2020: participante da Minga Social e Comunitária para a Defesa da Vida, do Território, da Democracia e da Paz | Crédito: Pupsoc

Olhem –
olhem para os camponeses
na Colômbia.

Os jornais os chamam de criminosos.

O Estado os chama de inimigos.

Mas eles são apenas
humanos com terra
sob as unhas,
pais
contando a fome
nos rostos de seus filhos.

Os helicópteros chegam
como gafanhotos de metal.
O glifosato cai como chuva
como um clima envenenado.

O exército marcha
pelas plantações
como se marchasse pela carne.

E o camponês cultiva coca
não por ganância,
mas porque o capitalismo
fechou todas as outras portas.

Terra concentrada
em poucas mãos.

Plantações legais murchando
como pássaros cansados.

Sem estradas.
Sem mercados.
Sem escolas.
Sem hospitais.

Apenas abandono.

Apenas a coca
como a última moeda verde
de sobrevivência.

Na porteira da fazenda,
eles ganham quase nada –
um punhado de pó.

Mas a folha viaja.

Por meio de laboratórios clandestinos,
por meio de corredores de tráfico,
por meio das veias
do mercado global –

e seu valor se multiplica
até se tornar
um milagre monstruoso:

de um dólar
para dezenas de milhares.

Isso é o capitalismo:
valor extraído de baixo para cima
como medula óssea.

Pobreza imposta de cima para baixo
como a gravidade.

O camponês permanece pobre.

O chefe do cartel vive violentamente.

E os bancos –
os bancos imaculados –
recebem o excedente
como sacerdotes recebendo oferendas.

Santa Marta, Colombia: camponês pesca na vasta Atlântica | Crédito: Pupsoc

Ocasionalmente,
um escândalo aparece.

O HSBC lava
um bilhão de dólares.

A punição é paga
como uma pequena moeda
jogada ao silêncio.

Nenhum executivo vai para a cadeia.
Grandes demais para serem presos.
Sagrados demais para serem tocados.

Porque a lavagem de dinheiro
não é incidental.

É estrutural.

A guerra não atinge
o cofre.
Ela atinge
o campo de batalha.

A Guerra às Drogas
não é uma guerra às drogas.
É uma arma imperial.
Um manto moral
para a agressão.

O Plano Colômbia
militarizou o solo camponês.

Hoje, a mesma retórica
é direcionada à Venezuela –
acusações de narcoterrorismo
fabricadas como balas.

Evidências são irrelevantes.
Narrativa é tudo.
O império sempre precisa de
uma desculpa sagrada
para sua violência.

E a floresta tropical queima.

Venenos são pulverizados
pela Amazônia
para destruir a coca,
enquanto o vício do Norte
em petróleo, dinheiro e extração
permanece não nomeado.

Eles clamam:
“Destruam a planta que mata!”
Mas é a guerra deles
que mata.

Essa guerra é travada
Tanto contra a natureza
quanto contra as pessoas.

Bacia do rio Cauca: projeto de reflorestamento realizado por comitês ambientais locais | Crédito: Pupsoc

Onde começa a paz?
Não com a erradicação.
Não com a militarização.
Não com as prisões.

A paz começa
com a dignidade:
reforma agrária,
colheitas garantidas,
estradas,
escolas,
hospitais,
direitos.

A reconstrução
da vida rural.
Porque o problema
não é a folha de coca.

O problema
é o sistema.

A Guerra às Drogas
não é uma guerra contra as drogas.
É uma guerra
contra os pobres.
E para acabar com ela
é preciso não reforma,
mas ruptura –
outro mundo
surgindo como a aurora
sobre o mar manchado de sangue.

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