Do Brasil de Fato, 17 de fevereiro 2026 - Okinawa (Japão)
Por Mauro Ramos
Por Mauro Ramos
Kiyomi Uesato, copresidente da Associação de Moradores da Ilha de Miyako pelo Fim das Bases de Mísseis, no Memorial Arirang, em homenagem às mulheres vítimas de escravidão sexual do Japão | Crédito: Mauro Ramos / Brasil de Fato
Os povos das ilhas de Okinawa, no Sul do Japão, foram testemunha de vários dos crimes de guerra e contra a humanidade cometidos pelo país asiático, incluído o sistema de escravização sexual conhecido como “mulheres de conforto”.
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o arquipélago se manteve sob forte ocupação militar, inclusive se mantendo sob domínio dos EUA até 1972, quando foi devolvido ao Japão.
A saída dos EUA de Okinawa, porém, foi simbólica. Os estadunindenses não apenas mantiveram a presença militar ali, como a intensificaram nas décadas seguintes.
Até hoje, 70% das bases militares dos EUA no Japão estão em Okinawa, que representa apenas 0,6% do território japonês.
A presença militar massiva causa, entre outros problemas, casos de violência e violência sexual contra as mulheres locais, cometidos tanto por militares estadunidenses quanto pelas Forças de Autodefesa do Japão.
Os dados da Polícia de Okinawa mostram que a situação está piorando. Em 2024, a polícia de Okinawa registrou 73 crimes cometidos por militares e civis estadunidenses, o maior número em 20 anos. Em 2025, o número saltou para 101 casos, representando o maior número em 22 anos, um aumento de 38% em relação ao ano anterior.
Os povos das ilhas de Okinawa, no Sul do Japão, foram testemunha de vários dos crimes de guerra e contra a humanidade cometidos pelo país asiático, incluído o sistema de escravização sexual conhecido como “mulheres de conforto”.
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o arquipélago se manteve sob forte ocupação militar, inclusive se mantendo sob domínio dos EUA até 1972, quando foi devolvido ao Japão.
A saída dos EUA de Okinawa, porém, foi simbólica. Os estadunindenses não apenas mantiveram a presença militar ali, como a intensificaram nas décadas seguintes.
Até hoje, 70% das bases militares dos EUA no Japão estão em Okinawa, que representa apenas 0,6% do território japonês.
A presença militar massiva causa, entre outros problemas, casos de violência e violência sexual contra as mulheres locais, cometidos tanto por militares estadunidenses quanto pelas Forças de Autodefesa do Japão.
Os dados da Polícia de Okinawa mostram que a situação está piorando. Em 2024, a polícia de Okinawa registrou 73 crimes cometidos por militares e civis estadunidenses, o maior número em 20 anos. Em 2025, o número saltou para 101 casos, representando o maior número em 22 anos, um aumento de 38% em relação ao ano anterior.
Crimes contemporâneos revoltam população
Em maio de 2024, um soldado da Marinha dos Estados Unidos tentou cometer violência sexual contra uma jovem em Naha, a capital e ilha principal de Okinawa. Jamel Clayton atacou a vítima por trás e a estrangulou por cerca de dois minutos. O soldado foi condenado a sete anos de prisão pelo Tribunal Distrital de Naha.
Em 2023, um oficial da Força Marítima de Autodefesa do Japão abusou sexualmente de uma menor de idade. O caso só veio a público mais de um ano depois, gerando protestos em todo o arquipélago.
O próprio movimento contra as bases militares em Okinawa teve início com um dos casos que mais enfureceu o povo do arquipélago: um estupro coletivo de soldados estadunidenses contra uma criança de 12 anos. Em 4 de setembro de 1995, três militares, o soldado da Marinha dos EUA Marcus Gill, de 22 anos, e os fuzileiros navais Rodrico Harp, de 21 anos, e Kendrick Ledet, de 20 anos, sequestraram uma menina quando ela saía de uma papelaria vestindo uniforme escolar. Os três a jogaram no banco traseiro de um carro alugado, a amordaçaram com fita adesiva, espancaram e a levaram para uma área isolada de treinamento militar, onde a estupraram coletivamente.
A menina foi abandonada sangrando e quase inconsciente em um canavial. A recusa inicial do comando militar estadunidense em entregar os acusados às autoridades japonesas, alegando o Acordo sobre o Estatuto das Forças (Sofa, para a sigla em inglês), provocou indignação generalizada.
Em 21 de outubro de 1995, cerca de 85 mil pessoas participaram do maior protesto político da história de Okinawa, na cidade de Ginowan, exigindo a revisão do acordo e a eliminação das bases militares. Os três militares foram condenados em março de 1996 a penas entre seis anos e meio e sete anos de prisão.
“Continuamos tendo problemas de agressões sexuais contra mulheres”, Keiko Yonaha, do movimento Batalha de Okinawa Nunca Mais.
“Embora as pessoas geralmente não falem sobre os crimes publicamente, ocorrem com bastante frequência. Enquanto as bases militares estadunidenses existirem, esses crimes não desaparecerão”, diz Yonaha.
Ela é enfática sobre os problemas causados pela militarização estadunidense do arquipélago: “Pode-se quase dizer que a maioria dos problemas gerais de Okinawa decorre das bases militares estadunidenses”.
‘Centros de conforto’ em Okinawa vitimaram 400 mil mulheres
Entre 1931 e 1945, o Japão vitimou pelo menos 400 mil mulheres em diversos países asiáticos através do sistema de escravidão sexual conhecido como “mulheres de conforto”. Quando cerca de 100 mil soldados japoneses foram mobilizados para Okinawa em 1944, centros de escravidão sexual foram instalados no arquipélago, com mulheres trazidas principalmente da Coreia.
Não se sabe ao certo quantas “estações de conforto” o Japão instalou em Okinawa durante a Segunda Guerra Mundial. Segundo pesquisa da historiadora Hong Yunshin, publicada no livro ‘Comfort’ Stations as Remembered by Okinawans during World War II (“Estações de conforto, segundo a memória dos okinawanos durante a Segunda Guerra Mundial”, Brill, 2020), com base em depoimentos de sobreviventes okinawanos e documentos militares, o número total de instalações na ilha entre 1941 e 1945 foi de cerca de 147. Documentos militares dos EUA capturados após a Batalha de Okinawa registram que mais de cem dessas estações foram construídas ou ativadas especificamente entre 1944 e 1945.
Em outro trabalho, Hong Yunshin afirma que, segundo estimativas de outros pesquisadores, “pelo menos mil mulheres coreanas foram levadas para Okinawa como ‘mulheres de conforto’ durante a guerra”.
Um número menor eram okinawanas.
Em 2008, moradores da pequena ilha de Miyako construíram o Memorial de Arirang para homenagear as vítimas. O nome refere-se a uma canção coreana que as mulheres escravizadas costumavam cantar enquanto lavavam roupas. O memorial traz palavras de homenagem em 11 idiomas, representando os países de origem das vítimas do sistema, mais o vietnamita, em homenagem as mulheres desse país que sofreram violência sexual das tropas sul-coreanas durante a invasão ao Vietnã.
“Durante a guerra, cerca de 30 mil soldados japoneses vieram para esta ilha. Junto com eles, vieram mulheres coreanas trazidas à força da península coreana, forçadas a se tornarem ‘mulheres de conforto’ para o exército japonês, sofrendo tratamento desumano”, explica Kiyomi Uesato, co-presidente da Associação de Moradores da Ilha de Miyako pelo Fim das Bases de Mísseis.
O professor Su Zhiliang, fundador do Centro Chinês de Pesquisa sobre as ‘Mulheres de Conforto’ da Universidade Normal de Xangai, dedicou décadas ao estudo do sistema japonês de escravidão sexual. “Em agosto de 1945, quando o Japão enfrentava a derrota, os militares destruíram provas por completo. Desde a década de 1990, temos buscado sobreviventes um a um”, relata Su.
Seu centro identificou mais de 350 sobreviventes na China, das quais 24 processaram o Japão em Tóquio. Embora tenham perdido o caso, os tribunais reconheceram sua condição de vítimas.
Em 2008, moradores da pequena ilha de Miyako construíram o Memorial de Arirang para homenagear as vítimas. O nome refere-se a uma canção coreana que as mulheres escravizadas costumavam cantar enquanto lavavam roupas. O memorial traz palavras de homenagem em 11 idiomas, representando os países de origem das vítimas do sistema, mais o vietnamita, em homenagem as mulheres desse país que sofreram violência sexual das tropas sul-coreanas durante a invasão ao Vietnã.
“Durante a guerra, cerca de 30 mil soldados japoneses vieram para esta ilha. Junto com eles, vieram mulheres coreanas trazidas à força da península coreana, forçadas a se tornarem ‘mulheres de conforto’ para o exército japonês, sofrendo tratamento desumano”, explica Kiyomi Uesato, co-presidente da Associação de Moradores da Ilha de Miyako pelo Fim das Bases de Mísseis.
O professor Su Zhiliang, fundador do Centro Chinês de Pesquisa sobre as ‘Mulheres de Conforto’ da Universidade Normal de Xangai, dedicou décadas ao estudo do sistema japonês de escravidão sexual. “Em agosto de 1945, quando o Japão enfrentava a derrota, os militares destruíram provas por completo. Desde a década de 1990, temos buscado sobreviventes um a um”, relata Su.
Seu centro identificou mais de 350 sobreviventes na China, das quais 24 processaram o Japão em Tóquio. Embora tenham perdido o caso, os tribunais reconheceram sua condição de vítimas.
Três mil dias de protestos contra a base militar
Diante da expansão contínua da militarização, moradores de Miyako mantêm protestos sistemáticos. Em 23 de janeiro de 2026, Associação de Moradores de Miyako Contra as Bases de Mísseis completou 3 mil dias de manifestações contra a instalação de novas bases de mísseis na pequena ilha de aproximadamente 55 mil habitantes.
A associação foi criada em 2017 em resposta ao anúncio do governo japonês de instalar na ilha uma base do Exército de Autodefesa com mísseis antiaéreos e anti-navios.
Os moradores que não houve quaisquer consultas, com o Ministério da Defesa realizando uma única reunião informativa, apenas um dia antes do início oficial das obras.
Entre as preocupações dos moradores, está a de transformar Miyako num alvo militar em eventuais conflitos regionais, a contaminação de aquíferos vitais para a ilha e o temor de aumento de crimes sexuais contra mulheres. Também preocupa a destruição de utaki, locais sagrados segundo a tradição de Ryukyu, como se chamava boa parte das ilhas de Okinawa antes de o Japão anexá-las em 1879.
Hayako Shimizu, de 76 anos e copresidente da Associação de Moradores de Miyakojima Contra as Bases de Mísseis, explica a motivação da resistência: “Para garantir que a mesma tragédia não se repita e para evitar que a ilha de Miyako se torne um campo de batalha, temos mantido essa luta de forma persistente”.

Hayako Shimizu, de 76 anos e copresidente da Associação de Moradores de Miyakojima Contra as Bases de Mísseis, durante atividade organizada junto a Fórum Acadêmico do Sul Global de Shanghai, em 2026 | Crédito: Mauro Ramos / Brasil de Fato
Shimizu denuncia a falta de infraestrutura de proteção civil. “Há quem pergunte: há abrigos na ilha? Foram realizados treinamentos de evacuação? A realidade é não; até agora, não há abrigos preparados para os residentes”, lamenta.
Para Keiko Yonaha, a situação afeta profundamente até mesmo os sobreviventes da Batalha de Okinawa, um dos confrontos mais sangrentos da Segunda Guerra Mundial. “Estamos diretamente expostos, todos os dias, ao perigo de que nossas vidas possam ser tiradas em um instante. É por isso que os idosos que vivenciaram a Batalha de Okinawa agora dizem que não conseguem dormir à noite. O trauma daquela guerra ainda existe, e agora essas memórias estão sendo despertadas novamente”, relata.
A ativista conclui: “A guerra nunca deve acontecer de novo. Acredito que isso é verdade não apenas para Okinawa, mas para todo o Japão também”.
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Editado por: Luís Indriunas
Shimizu denuncia a falta de infraestrutura de proteção civil. “Há quem pergunte: há abrigos na ilha? Foram realizados treinamentos de evacuação? A realidade é não; até agora, não há abrigos preparados para os residentes”, lamenta.
Para Keiko Yonaha, a situação afeta profundamente até mesmo os sobreviventes da Batalha de Okinawa, um dos confrontos mais sangrentos da Segunda Guerra Mundial. “Estamos diretamente expostos, todos os dias, ao perigo de que nossas vidas possam ser tiradas em um instante. É por isso que os idosos que vivenciaram a Batalha de Okinawa agora dizem que não conseguem dormir à noite. O trauma daquela guerra ainda existe, e agora essas memórias estão sendo despertadas novamente”, relata.
A ativista conclui: “A guerra nunca deve acontecer de novo. Acredito que isso é verdade não apenas para Okinawa, mas para todo o Japão também”.
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Editado por: Luís Indriunas

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