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Chove no sertão, tudo em volta é só alegria

Do Viomundo, 26 de fevereiro 2026
Por Lelê Teles*

“bailam corujas e pirilampos entre os sacis e as fadas”, Secos & Molhados.

na estrada, vejo, ao longe, o céu enegrecendo.

uma enorme cortina escura, formada por nuvens espessas, envolve o sertão.

os primeiros pingos de chuva, avexados, tocam o para-brisa do carro.

as gotas batem forte, como se aves bicassem o vidro.

abro a janela e deixo entrar o vento fresco, fragrante e úmido.

agora, as gotas se multiplicam, vastas, largas, uniformes.

a chuva chora e escorre pelos vidros do carro.

paro na beira da estrada, de frente a uma pequena propriedade rural.

como é domingo, a casinha, colorida e avarandada, tá cheia de gente.

o sorriso alegre das crianças se esparrama pelo quintal.

desço, debaixo de chuva, e observo a alegria em minha volta.

o que não vejo, advinho:

o gado muge, ouço o balir de cabras e ovelhas, o jumento dá pinotes.

trotam cavalos e burros, porcos focinham, patos nadam, aves fazem voos alegres e canoros nos céus.

sapos coaxam mantras na beira dos riachos, açudes, poços, cacimbas e corredeiras.

insetos habitam a relva úmida.

os quintais exalam o cheiro fresco de terra molhada, as mulheres, com seus lenços na cabeça, erguem a bainha dos vestidos leves e saem em disparada carreira pra tirar as roupas dos varais.

meninos e meninas fazem fagueira correria, deslizam no chão molhado das varandas, brincam de ciranda com os pés descalços, sujam-se lama limpa, pisam em poças, jogam água nos amigos fazendo chapinha com a sola dos pés…

o velho agricultor recolhe-se a reminiscências, as passadas e as futuras.

debruçado sobre o parapeito da janela, pita seu cigarrim de palha e filosofa.

observa, com os olhos marejados de felicidade, a algazarra que se forma no ambiente: terra molhada, relva verde, céu alegre, gente feliz.

dona maricota, na cadeira de espaldar, pitando seu cachimbo rústico, vira-se de lado e cospe ao longe, estilo cocô de pato.

o bebê, recém-nascido, é retirado do berço pelo jovem casal, levam a cria até a janela e lhe apresentam a chuva, o deus hídrico do sertão.

o bebê parece sorrir.

outrora, ele vivia em um mundo hídrico, agora viverá nas intermitências sazonais.

aprenderá a amar a chuva, mesmo aquela fina e de gotas frágeis.

o cãozinho, biloca, sorrindo como sorriem os cães domésticos, lambe a água que cai do céu, não pra matar a sede, que não tem, mas para reviver a brincância canina dos tempos selvagens.

amanhã é dia de feira e não se falará em outra coisa.

até no relincho dos cavalos se ouve a fofoca sobre o tempo chuvoso.

águas abundam: gotejam, pingam, vazam, vertem, transbordam, esguicham, ejaculam, gozam.

o que antes faltava, agora farta.

grilos sorriem esfregando as suas finas canelas de serrote, as árvores dançam sacudindo as cabeleiras verdes.

o lobisomem, peludo e purulento, assustado, esconde-se numa gruta escura.

curupiras fazem a dança da chuva, deslizando um moonwalking pela mata viva.

tudo em volta é só alegria.

chove no sertão.

palavra da salvação.

*Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS)

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