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Capitalismo superindustrial

Do A Terra É Redonda, 14 de fevereiro 2026
Por CARLOS ÁGUEDO PAIVA*


Mélodie Mousset, HanaHana , 2017–2025

Considerações sobre o livro recém-lançado de Fernando Haddad

Um livro pluri-surpreendente

O livro recentemente lançado por Fernando Haddad surpreende por diversos motivos. Desde logo, surpreende pela amplitude dos conhecimentos do autor e pelo rigor no tratamento de algumas questões de grande complexidade.

Mas surpreende, acima de tudo, por uma ausência atordoante: o Brasil. Lançado ao final de seu terceiro ano como Ministro da Fazenda do terceiro mandato de Lula, coetâneo ao anúncio de que pretende se afastar para se dedicar à campanha eleitoral de 2026, seria de se esperar que, de alguma forma, ele tomasse o Brasil atual e seus desafios, senão como objeto central, pelo menos, como um tema relevante de suas considerações.

Mas o Brasil não é objeto de uma única subseção dos 12 capítulos do livro. Na verdade, a palavra “Brasil” aparece apenas sete vezes ao longo do texto. E todas as vezes, na primeira parte da obra, intitulada “A acumulação primitiva na periferia do capitalismo”.

A tese central de Fernando Haddad é que o capitalismo é um sistema mundial de extraordinária plasticidade e capacidade de reinvenção. Uma leitura que já estava presente em sua tese de doutorado, onde se lê: “O que … não ocorreu aos marxistas ortodoxos, e essa é a mais severa crítica que se lhes pode fazer no âmbito da Economia Política, é que a forma adequada ao capitalismo simplesmente é sua forma negada. É a negação continuada da sua forma que expande seus limites, de modo que, se esses limites existem, eles são móveis e nunca estão no mesmo lugar. (Fernando Haddad, 1996, Tese de Doutorado, p 20-21).

Mantivemos a passagem acima nos termos de redação do autor. Nós mesmos, se fôssemos salientar alguma passagem, salientaríamos a parte final da segunda frase: se esses limites existem, esses limites são móveis e nunca estão no mesmo lugar. Essa parece-nos ser a tese organizadora de Capitalismo superindustrial; a tese de que vivemos, hoje, uma nova etapa do modo de produção capitalista. Mas – de forma alguma – a sua crise final ou a passagem (como pretende, por exemplo, Yanes Varoufakis, com quem debate no capítulo final) para um novo modo de produção.

O subtítulo do livro – caminhos diversos, destino comum – é igualmente elucidativo e explica a razão dos capítulos iniciais. O tratamento dado à acumulação primitiva nas primeiras partes do livro é irretorquível. Fernando Haddad quer demonstrar que as formas (aparente e efetivamente) pré-capitalistas de produção que emergem na periferia do sistema nos primórdios da Era do capital (a partir da revolução comercial) são parte do movimento de emergência do capitalismo. O escravismo na América e a segunda servidão no Leste Europeu não podem ser pensados como modos de produção autônomos: eles estão a serviço da acumulação primitiva no centro do sistema e, de forma subalterna, na própria periferia. Que acabará por ser engolfada na ordem global.

Mas – e aqui, mais um “gol” de Fernando Haddad – o ingresso da periferia se dará de forma peculiar e o peso do passado persistirá. Donde Fernando Haddad extrai uma crítica à leitura marxiana original: para o autor, a proposição de Marx na abertura do primeiro volume de O Capital – de te fabula narratur – não é rigorosa: Karl Marx apostava em uma uniformização dos padrões de reprodução econômica no mundo que não teria se realizado. Pleno acordo: Marx subestimou a força da permanência e o caráter cronicamente desigual (ainda que combinado) do desenvolvimento capitalista global.

As duas seções subsequentes – O Marxismo Oriental e A dissidência Ocidental – podem ser lidos como um resumo atualizado da dissertação de mestrado de Fernando Haddad, intitulada O debate sobre o caráter socioeconômico do sistema soviético. A tese é ousada. Para Fernando Haddad, independentemente de qual tenha sido o projeto original da revolução de outubro de 1917, o atraso econômico russo e o isolamento relativo (porquanto cercado e assediado por países capitalistas por todos os lados) impôs a aceleração e exacerbação da acumulação primitiva de capital em seu interior a partir da hipertrofia das funções econômicas e político-regulatórias do Estado.

E o autor faz um movimento ainda audacioso: resgata a pretensão de que existiria um modo de produção asiático, que caracterizaria (ainda que de forma distinta) o passado pré-capitalista de países como Rússia e China, para explicar o sucesso de sistemas de acumulação primitiva sob controle rigorosamente nacional e anti-imperialista nesses dois países.

Coerentemente com os desenvolvimentos dos dois primeiros capítulos – Fernando Haddad vai tentar demonstrar que a radical peculiaridade do sistema produtivo soviético não o torna imune às pressões externas; pois o sucesso (ou insucesso) dos projetos de Stálin, Mao e sucessores era medido pela capacidade das nações socialistas concorrerem nos planos tecnológico, bélico-militar, produtivo e de bem-estar da população com as nações capitalistas desenvolvidas. Vale dizer: mesmo no socialismo real, a dinâmica capitalista externa é a determinação fundamental da dinâmica econômica interna.

Mais, para Fernando Haddad, esses sistemas produtivos são socialistas; ainda que no sentido restrito do “socialismo real despótico”. Vale dizer: não se pode reduzi-los – como quis Charles Bettelheim, dentro outros – a uma forma particular de “capitalismo monopolista de Estado”. Para Fernando Haddad, o sistema socialista é um “quase modo de produção”. É falsa a pretensão de que o sistema se baseava no assalariamento e na apropriação de lucro.

De fato, não há mercado de trabalho ou salário, pois o Estado é o único empregador e define a remuneração dos trabalhadores em função de suas prioridades em torno da dinâmica de expansão do sistema. E tampouco há lucro, pois essa é uma categoria da concorrência. Evidentemente, há excedente. Mas o padrão de distribuição e canalização do mesmo não corresponde aos padrões burgueses.

De outro lado, Fernando Haddad concorda com a leitura dos críticos mais acerbos do sistema soviético no sentido de que há, sim, um padrão de estratificação social e diferenciação do acesso a renda e bem-estar que não tem nada de igualitária ou democrática: a estrutura de estratificação não é rigorosamente de classes; há elementos estamentais muito fortes. Mas ela está lá. Como ficou evidente na forma com esses sistemas ruíram no ocidente (URSS e Leste Europeu) e da expansão acelerada das trocas mercantis na reprodução dos demais países socialistas (China, à frente).

Os dois últimos capítulos da terceira parte e toda a quarta parte do livro – intitulada O desenvolvimento histórico não linear –, voltam-se a uma grande varredura sobre os padrões de desenvolvimento capitalista ao longo do século XX, com ênfase nos países hegemônicos. Essa é a parte menos rigorosa da obra. Aliás, o próprio ordenamento dos capítulos é algo confuso. A mim parece que o capítulo que abre a quarta seção – O modo de produção asiático – deveria ser o último da terceira; e o que encerra a terceira – intitulado Revolução organizacional – deveria abrir a quarta.

Creio que a inversão lógica se explica – pelo menos em parte – pela cronologia da produção dos textos. Há diferenças sutis, mas expressivas, entre o tratamento que Fernando Haddad dá ao modo de produção asiático nos capítulos iniciais e no oitavo. A incoerência na organização dos capítulos também se manifesta no fato de Fernando Haddad encerrar o capítulo sexto (da parte dedicada à dissidência marxista ocidental) e o capítulo oitavo com avaliações virtualmente idênticas sobre os determinantes da crise do planejamento soviético.

Ao final do capítulo sexto lê-se: “O coletivismo burocrático só “funciona” enquanto opera em pequena escala; a partir de certo ponto, observam-se desproporções entre os setores produtivos e a consequente queda da produtividade do trabalho”. (Haddad, 2026, p. 218)

Essa tese reaparece no capítulo oitavo (à página 246), onde, mais uma vez, Fernando Haddad pretende que ela deite suas raízes em León Trótsky. Ora, o objeto do capítulo sétimo, situado entre os dois referidos acima, é o planejamento ocidental e foca nas contribuições teóricas de John Kenneth Galbraith e Joseph Schumpeter.

Talvez aí se encontre uma segunda determinação (para além da cronologia de redação) para a (aparente) inversão dos capítulos. Tomando a construção como um todo, a impressão que fica é que o verdadeiro fundamento da crítica de Haddad ao planejamento soviético se encontre, antes, em Joseph Schumpeter (e, secundariamente, em John Kenneth Galbraith), do que em Leon Trótsky, como afirma o autor. Senão, vejamos.

O ministro Fernando Haddad, Joseph Schumpeter e o capitalismo superindustrial

Há muitos anos tento entender os discursos e práticas de Fernando Haddad no âmbito da economia. Particularmente surpreendente, para mim, é sua ousadia em criticar e descartar projetos e práticas heterodoxas de enfrentamento da inflação de economistas de reconhecimento internacional, como André Lara Resende e Dilma Rousseff.

Trato dessa questão com algum detalhe na seção final do décimo capítulo de A economia política do atraso. Parece-me evidente que Fernando Haddad tem uma compreensão limitada do discurso daqueles que critica. O que me faltava (e, de certa forma, ainda falta) era entender as determinações de sua resistência. E esperava encontrar respostas em seu Capitalismo superindustrial.

No livro, porém, o Brasil é uma ausência. O que nos obriga a procurar os indícios que se anunciam na temática central: o “capitalismo superindustrial”. Fernando Haddad já havia apresentado essa categoria em sua tese doutoral. Lá, partindo da famosa passagem dos Grundrisse, em que Marx afirma que “à medida em que a grande indústria se desenvolve, a criação da riqueza efetiva se torna menos dependente do tempo de trabalho e do quantum de trabalho utilizado, … mas depende antes da situação geral da ciência, do progresso da tecnologia, ou da utilização da ciência na produção” (Haddad, 1996, p. 40).

Fernando Haddad conclui que Marx teria antevisto “o desenvolvimento da superindústria capitalista, definida como aquela que incorpora a ciência como fator de produção” (idem, p. 40). E conclui: “Marx não conheceu o exército de homens de ciência (cientistas, engenheiros e técnicos) recrutado pelo capital, Não podia, portanto, prever as consequências da internalização e mecanização do processo de inovação tecnológica promovido pela superindústria (fato só descrito por Schumpeter em 1942)” (idem, p. 41).

O argumento não é convincente. Karl Marx também não conheceu muitas outras dimensões do capitalismo moderno, que, contudo, foram objeto de previsão e exploração detalhada em suas obras. Esse é o caso, por exemplo, da automação universal dos processos produtivos e da globalização. Além disso, Joseph Schumpeter não pretendeu, no Capitalismo, socialismo e democracia,que sua análise da concorrência envolvesse qualquer ruptura de fundo com a leitura de Marx. Não gratuitamente, dedica os quatro primeiros capítulos desse livro a Marx.

É Fernando Haddad que precisa se desfazer de Marx para poder afirmar que “o capitalismo cognitivo suplanta o capitalismo industrial. … O trabalho material é relegado à periferia do processo de produção. O trabalho cognitivo se desenvolve por toda a vida por meio do pensamento, da comunicação e do compartilhamento de conhecimento, e o capital volta a depender do conhecimento dos próprios trabalhadores que é mobilizado pelo compromisso de cada um com um objetivo comum. Assim, no capitalismo cognitivo, a subsunção ao capital volta a ser apenas formal”. (Haddad, 2026, pp. 326/7)

A passagem acima parece ser um mero detalhe. Mas não é. É ela que organiza a crítica de Fernando Haddad à categoria de “tecnofeudalismo”, de Yanes Varoufakis. Tal como a entendo, o fundamento primeiro da hipótese de Yanes Varoufakis é a incontestabilidade do poder competitivo do “capital da nuvem”. A Amazon é o paradigma: onde é melhor adquirir os bens e serviços do seu interesse? Onde o mix de produtos ofertados é o mais amplo possível e onde os preços são (como regra geral), os mais baixos? Na Amazon.

Qual o melhor espaço para ofertar os produtos e serviços de qualquer firma? Na Amazon, pois é onde a grande maioria dos consumidores vai buscá-los. As possibilidades de emergir um sistema concorrente são virtualmente nulas, pois todo o recém entrante conta com uma oferta de bens e serviços menor e com um poder de barganha também menor para administrar os preços de oferta final.

As exceções só emergem (como no caso da rede chinesa, Ali-Ba-Ba) quando há circunscrições nacionais à utilização das redes estrangeiras e o mercado interno é vultoso. Mas essa também é uma situação extraordinária. Ao fim e ao cabo, podemos apostar na estruturalização de um duopólio. Idem, ibidem, para as redes sociais: de que adianta postar algo numa nova rede social que nenhum de meus amigos utiliza? Ou, de que adianta tornar-me um prestador de serviços de transporte de pessoas ou mercadorias para um aplicativo recém-criado, que ninguém conhece ou usa?

Assim – sustenta Yanes Varoufakis – nós nos tornamos cada vez mais dependentes dos serviços que utilizamos. Pior: como esses serviços estão na “nuvem” e registram nossas demandas e buscas, eles se tornam proprietários de um acervo estatístico inigualável e incomparável com qualquer sistema de pesquisa institucional mantida por Estados e governos.

Em suma: o sonho de Goebbles e Stalin (ou, se se quiser, o pesadelo de Winston Smith, protagonista do 1948, de Orwell) torna-se realidade. Uma realidade que se mostra tão mais distópica na medida em que a realizamos pensando atender nossos desejos e necessidades. É a Servidão voluntária de Étienne de La Boétie levada às últimas consequências.

Ora, não é preciso dizer que a hipótese de Yanes Varoufakis é uma hipótese; e, como tal, pode ser objeto de contestação. Mas é uma hipótese forte e sua contestação exigiria que fossem esgrimidos argumentos teórico-econômicos – em especial, no plano da estrutura e contestabilidade de mercados – que Fernando Haddad sequer tangencia.

Por que não o faz? Se o fizesse perceberia uma outra dimensão relevante da questão: a renda dos serviços em nuvem não apresenta qualquer relação direto com o desenvolvimento científico tecnológico. Não há patentes, segredos ou curvas de aprendizagem longas (e, no limite, intransponíveis) por trás dos ganhos extraordinários da Amazon, do Uber ou da Meta. Há oligopólio e oligopsônio definido quase que exclusivamente pelo protagonismo na ocupação da “área”, do “território”. Tal como na renda feudal.

A verdade é que a análise estritamente econômica de Fernando Haddad em Capitalismo superindustrial é fugidia e superficial, contrastando com o (quase excessivo) detalhismo com que abarca temas históricos, sociológicos, políticos e filosóficos. Os principais economistas com os quais Fernando Haddad trabalha são aqueles que – como Marx, Schumpeter e Galbraith – extrapolam as circunscrições (apertadas, mas relevantes) da Economia, (tomada em sentido mais estrito).

O próprio John Maynard Keynes é (como o Brasil) praticamente ausente de sua démarche teórica. Aliás, as palavras “Keynes” e “keynesianismo”, somadas, contam com o mesmo número de referências na obra que a palavra “Brasil”: exatamente sete. Mais: Keynes e o keynesianismo são tratados, ou como expressões do reformismo e da conciliação de classe (vale dizer: como ideologia), ou como substrato do projeto de planejamento ocidental (vale dizer: como precursor de Galbraith).

Não podemos nos surpreender, pois, que Fernando Haddad dedique apenas um parágrafo à questão da crise da social-democracia e do projeto do Welfare State, vaticinando: “o Welfare State é produto de uma conjunção de dois fatores: (i) o dinamismo tecnológico, que gera um aumento da produtividade do trabalho doméstico, bem como um fluxo de lucro extraordinário da periferia e da semiperiferia para o centro; e (ii) o endividamento público, mecanismo pelo qual o Estado socializa esses ganhos sem a necessidade de taxar o capital ou o trabalho, postergando o acerto de contas entre as classes sociais. Por não compreender os limites desse mecanismo de socialização, dado pela capacidade de endividamento do Estado, o social-democrata nacionalista pensa ser possível manter, nas condições atuais, o mesmo padrão de sociabilidade dos anos de ouro do capitalismo. (Haddad, 2026, p. 311)

Ora, mas o que caracteriza o capitalismo superindustrial não é, exatamente, a extraordinária velocidade do progresso técnico? E por que a capacidade de endividamento do Estado seria mais limitada, hoje, após anos de neoliberalismo, do que foi no passado? … Fernando Haddad não responde. A impressão que fica é que, para Fernando Haddad, nem vale a pena tratar de temas tão óbvios. “Todos sabem” que o equilíbrio fiscal (e o superávit primário) é uma cláusula pétrea da “constituição econômica”.

Como “todos também sabem” – excetuados André Lara Resende, Dilma Rouseff, defensores da Teoria Monetária Moderna, campineiros e demais heterodoxos amalucados – que precisamos aumentar os impostos e impor um “teto” (ainda que móvel) aos gastos públicos. Para Fernando Haddad, isso é óbvio. Para mim, não.

Mas deixemos as certezas de Fernando Haddad de lado e voltemos ao seu debate com Yanes Varoufakis. Qual é a base de sua crítica? Ela não fica clara, mas, até onde a entendi, ela tem dois fundamentos. O primeiro é a radicalização da tese de Joseph Schumpeter apresentada em Capitalismo, socialismo e democracia de que criação de grandes grupos industriais oligopolistas não corresponde à supressão da concorrência, mas, de certa forma, à sua radicalização. Pois os lucros extraordinários continuam sendo contestáveis a partir de inovações tecno-produtivas disruptivas realizadas e apropriadas originalmente por outras firmas. E, de fato, foi assim.

Enquanto a base do capital ainda era industrial, a IBM suplantou a Olivetti na produção de máquinas de escritório. A Microsoft e os produtores de computadores pessoais suplantaram a IBM, apegada à produção de mainframes. A Motorola suplantou a Bell com a invenção dos aparelhos celulares; apenas para ser superada pela Ericson, a Nokia, a Sony e a Apple. E assim por diante.

O problema, para Yanes Varoufakis, é que, agora, os oligopólios contam com um padrão de fidelização da clientela que é derivada do próprio uso: quanto maior a utilização, maior a dependência.

Qual a resposta de Fernando Haddad? Ele sai “pela tangente”. Sem o declarar, propõe, subliminarmente, que, assim como não podíamos prever as formas de contestação que deprimiriam o poder de monopólio dos grandes conglomerados industriais, ainda é cedo para prever as formas de contestação do capital-nuvem. Mas aposta claramente nesse caminho através da radicalização de sua afirmação (reproduzida acima) de que a subordinação do trabalho ao capital voltou a ser meramente formal no capitalismo contemporâneo. Pois a valorização, agora, se estrutura sobre o conhecimento científico. E ele é, necessariamente, social e coletivo.

Além disso, acrescenta Fernando Haddad, seria falsa a pretensão de que o “capital nuvem” subordinaria e deprimiria a rentabilidade das esferas especificamente produtivas. Segundo Fernando Haddad, “todas as atividades econômicas estão submetidas à nova lógica, seja a agricultura, a indústria ou os serviços” (idem, p. 338); pois todas tornaram-se radicalmente dependentes das inovações tecnológicas de substrato científico (e, portanto, diretamente social).

Ou, como reforça mais adiante: “Essa etapa é marcada pela endogeneização da inovação, o que pressupõe a contratação de profissionais especializados dedicados à criação, processo pelo qual o conhecimento é mercantilizado e convertido em fator de produção. (Haddad, 2026, p. 341).

E, finaliza Fernando Haddad: “Não há uma contradição entre … “senhores tecnofeudais”, de um lado, e capitalistas, de outro. Os que auferem superlucros também são capitalistas ou, se quisermos, supercapitalistas. Há, sim, contradição entre proprietários, de um lado, e não proprietários, de outro: os primeiros, naturalmente coesos; os últimos, socialmente fragmentados e dispersos. Cabe à política articulá-los em torno de um projeto emancipatório comum”. (Haddad, 2026, p. 343).

Na aparência, Fernando Haddad presta uma homenagem à ortodoxia socialista, afirmando que, a despeito das mudanças da ordem burguesa, sua essência é a mesma e contrapõe proprietários e despossuídos. Um passo a mais e voltamos a Karl Marx e Vlaímir Lênin, conclamando a união/organização dos proletários pela construção da sociedade sem classes. Mas quer me parecer que haja bem mais do que isso.

Ao nublar (e, no limite, apagar) as diferenças entre as diversas formas de capital, Fernando Haddad vai além da tese de Joseph Schumpeter de que as vantagens monopolistas não são perenes. Ele tangencia a posição daquele economista a quem Joseph Schumpeter dedicou suas críticas mais acerbas – David Ricardo –, e aposta na operatividade do mercado no sentido da equalização (no longo prazo, claro!) das taxas de lucro.

O que, por sua vez, contribui – e muito – para entendermos sua inação, enquanto Ministro da Fazenda, no enfrentamento dos oligopólios alimentados pela ânsia privatizante de FHC, Michel Temer, Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Ratinho Jr, dentre outros.

Assim é que – após a privatização da BR Distribuidora – os esforços da Petrobrás para baixar o preço de oferta dos derivados de petróleo mostram-se inócuos para o consumidor final, que se depara com preços a cada dia que passa mais elevados. Mas, para Fernando Haddad, tudo é uma questão de dar “tempo ao tempo”, que os ganhos de monopólio serão contestados. … E vamos esperando.

O mais estranho, é que essa conclusão envolve uma discreta – mas crucial – inflexão da leitura que o autor defendia em sua tese de Doutorado. Nessa, Fernando Haddad dizia que: “caso a ciência crie, finalmente, inteligência artificial … não demoraria a ir para o prelo o livro “O Papel da Ciência na Transformação do Homem em Macaco”. Enquanto isso não se dá, há uma parcial coincidência, entre os interesses do capital e da massa da população. (Haddad, 1996, p. 59).

O que foi feito dessa premonição – e de sua conclusão lógica – na Tese de Doutorado? Evaporou-se. Agora, que a inteligência artificial campeia e subtrai postos de trabalho em todos os setores de atividade, Fernando Haddad, mais uma vez, apela para a negociação política. E para a crença de que ainda há coincidência “parcial” entre os interesses do capital e da massa da população. Então, convenhamos, seu substrato não era os limites da negação do trabalho intelectual. Qual era ele? Não se sabe.

Conclusão

Comentei, acima, da relevância do subtítulo de Capitalismo superindustrial: caminhos diversos, destino comum. E elogiei o tratamento dos “caminhos diversos”, por Fernando Haddad. Não se trata apenas de uma visão primorosa, detalhada e inovadora das diferenças dos processos de acumulação primitiva de capital nas diversas sociedades.

A mim parece que o ponto mais importante se encontra na crítica da frase emblemática de Marx na abertura do Livro 1 de O Capital: de te, fabula narratur. Não!; diz Haddad: o peso do passado é grande, importa e se preserva no presente. Porque as diversas nações chegaram ao seu presente por trajetórias diversas. O desenvolvimento é path-dependent.

O problema do livro, do meu ponto de vista, está no “destino comum”. Aquilo que era diferenciação detalhada, de repente vira gatos à noite: todos são pardos. O capital-ciência ocupa todos os setores – agricultura, indústria, serviços, sistemas informacionais (nuvem), etc. – de uma forma virtualmente igual. E, parece – dada a ausência de qualquer consideração minimamente detalhada sobre os elementos nacionais – que atinge todos os cantos do globo ao mesmo tempo e de forma essencialmente similar.

Questões como – por exemplo – a importância estratégica de contar-se com grupos nacionais (privados, estatais ou de economia mista) operando no capital-nuvem, a importância de gerenciar e aprofundar a concorrência nesse segmento – que Yanes Varoufakis chama de tecnofeudal – não são objeto de qualquer consideração. Questões de segurança política, soberania e autonomia tecnológica, bélica e militar, sequer são apontados.

A relação entre as estratégias de soberania de China e Rússia com o recente sucesso econômico desses dois países (a despeito das sanções, a Rússia acaba de ultrapassar a Alemanha em PIB calculado por paridade do poder de compra, de acordo com o FMI), estão totalmente fora do escopo de investigação e preocupação de Fernando Haddad.

De repente, não mais do que de repente, tudo o que era diversidade, virou comum-unidade. Como se deu esse salto? Por que essa ruptura teórica e metodológica? Em que ela se baseia? Será que podemos deixar de lado essas questões para projetarmos o desenvolvimento brasileiro? … Eu tenho certeza de que a resposta é negativa. Mas não tenho ideia do que Fernando Haddad pensa sobre isso. Só sei que ele não as considera suficientemente relevantes para sequer apontar para a sua existência. Muito menos para a necessidade urgente de seu enfrentamento. Infelizmente.

*Carlos Águedo Paiva é doutor em economia pela Unicamp.

Referência


Fernando Haddad. Capitalismo superindustrial: caminhos diversos, destino comum. Rio de Janeiro, Zahar, 2026, 454 págs. [https://amzn.to/4a0LZfM]

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