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Caminhos da utopia

Do A Terra É Redonda, 18 de fevereiro 2026
Por LUIZ MARQUES*


Imagem: Evgeniy Smersh

Da ilha imaginária de Morus ao colapso soviético, a utopia sobrevive como resistência iconoclasta à barbárie do presente

“Todos os sonhos que me levas, / dize, ao menos, para onde vão!” (Cecília Meireles).

1.
O século XVI traz a “utopia” no título de um livro do diplomata inglês Thomas Morus. O autor inventa o termo (u-tópos, nenhum lugar) para descrever uma ilha imaginária. Idem, a “antiutopia” ao exercer a condição de chanceler. Com isso, a tolerância do lorde humanista some e, este, propõe que em seu epitáfio conste ter sido um “perseguidor de ladrões, assassinos e hereges”. Pelo que João Paulo II, o papa inquisidor da Teologia da Libertação, nomeia-o padroeiro dos políticos. No século XX, o editor J. Max Patrick cria a palavra “distopia” numa coletânea de obras utópicas.

Um ponto de inflexão recente é o fracasso do comunismo soviético, o qual respinga nos críticos à esquerda: os que denunciam os “desvios burocráticos” como Leon Trótski e os que apontam o “totalitarismo” e, a exemplo de Cornelius Castoriadis, cobram dos trotskistas um tom mais incisivo sobre o fenômeno.

Com as revelações das atrocidades do “farol dos povos”, vinte anos após o relatório secreto de Nikita Kruschev, o dissidente alemão Rudolf Bahro, em A alternativa – para uma crítica do socialismo real (1977), absolve a teoria marxista, mas condena a prática stalinista pela tragédia. A separação é elogiada por liberais no Ocidente, que reiteram o corte epistemológico no balanço.

Diferentemente os “novos filósofos franceses” diante dos horrores do stalinismo concluem que os crimes de Joseph Stalin já estão, em embrião, nas formulações de Karl Marx. Há continuidade entre utopia e distopia. A desqualificação do marxismo abarca o estruturalismo de Louis Althusser – de projeção internacional até em um surto estrangular a esposa, a socióloga Hélène Rytmann, no apartamento do casal na École Normale Supérieure, em Paris.

A virada de sentido se dá na convergência da crítica dos nouveaux philosophes com uma ascensão dos quadros do neoliberalismo, reforçada pelos Prêmios Nobel de Economia para Friedrich Hayek (1974) e Milton Friedman (1976). A seguir, Margaret Thatcher no Reino Unido e Ronald Reagan nos Estados Unidos transformam a ordem do egoísmo em políticas assumidas pelo Estado. Distopias então são vistas como o complemento lógico das utopias.

O comunismo e o nazismo são igualados na responsabilização, embora na Segunda Guerra Mundial se aquartelassem com bandeiras antagônicas. “Devemos nos precaver da utopia”, sublinha Ralf Dahrendorf. O sociólogo estuda as classes não sob o viés da propriedade dos meios de produção, senão do poder e da autoridade; e atribui às instituições o papel de regulação dos conflitos políticos. “Para evitar o pior – uma revolução”.

Assim, o senso comum joga fora a criança junto com a água suja do banho e a utopia, órfã, cai em um ostracismo. Não obstante, o liberalismo desenha um horizonte inconfiável. As promessas não se realizam. O fim da história com a economia de mercado e a democracia representativa aumentam a desigualdade e o ressentimento. A necropolítica toma as rédeas da sociedade.

No decênio de 1990, a internet livre reinaugura o espírito utópico. Entusiastas anunciam a era do “socialismo digital”. O anjo cibernético reatualiza o inconformismo e ataca o mal – a alienação social – na webesfera. O destino reabre as portas à incerteza e, a política, à ação dos internautas. Mas os sonhos libertários esbarram nas megacorporações dos monopólios tecnológicos.

2.
Russell Jacoby, em Imagem imperfeita – pensamento utópico para uma época antiutópica, expõe a contradição. “As utopias buscam a emancipação ao visualizar um mundo baseado em ideias novas, negligenciadas ou rejeitadas. As distopias buscam o assombro ao acentuar as tendências contemporâneas que ameaçam a liberdade (leia-se mercado)”. Num caso, a presidenta do México Claudia Sheinbaum; noutro, o presidente da Argentina Javier Milei.

Para o professor da Universidade da Califórnia, o utopismo é “projetista” ou “iconoclasta”. O projetista mira a sociabilidade de amanhã no parâmetro de ontem, com o que veem. O iconoclasta age feito um profeta do Primeiro Testamento. Não acredita na iconografia visual de símbolos e de imagens; e recusa fazer o inventário do futuro. Apenas compartilha uma orientação – lazer, harmonia, cooperação, paz, prazer – para um coletivo. Importa manter os ouvidos abertos e a espinha ereta, com dignidade.

Três razões são elencadas para o enfraquecimento da ideologia utopista: (i) o referido colapso da URSS, iniciado em 1989 e oficializado em 1991; (ii) a convicção propagada de que nada distingue os utópicos dos totalitaristas na geleia geral e; (iii) o empobrecimento crescente da imaginação social, com adaptações ao status quo. A mercadoria vira panaceia para a depressão.

A imaginação confere energia ao utopismo; sem o que degringola no totalitarismo. Explica-se a perseguição a artistas e intelectuais censurados no regime de exceção, com prerrogativas suprimidas e filhos estimulados a denunciar os pais, na política de vigilância no seio das famílias. Afetos privados desmancham no ar fétido.

Uma geração atrás se tinha a sensação de que outro mundo é possível, na versão otimista do Fórum Social Mundial (FSM, 2001). Hoje parece estarmos na plateia da crise climática, do genocídio da Faixa de Gaza, do controle orwelliano da verdade e da conversão dos indivíduos em empresas. No teatro do ódio, o imaginário é preso pelo discurso da corrupção e das fake news. O farisaísmo tira da coxia o medo e coloca-o no palco.

Nasce a “rebeldia a favor” que afronta os poderes institucionais, mas aceita e enrijece as hierarquias sociais e a dominação do capital-rentista e do capital-nuvem na sociedade. E mais, libera o mando-obediência em cada estrato. Se o melhor no capitalismo é ser capitalista; o melhor num sistema hierarquizado em que os deveres superam os direitos é ser aquele que manda em alguém. A extrema direita cresce no terreno árido da desvalia e da desdemocratização da democracia – “onde os fracos não têm vez”.

No ensaio sobre a redenção judaica e a utopia pós-capitalista, Michael Löwy fala da necessidade de descrever a história sob o prisma dos vencidos para “uma nova percepção da temporalidade, em ruptura com o evolucionismo e com a filosofia do progresso”. É preciso questionar o processo civilizatório. A terceira via liberista prega o caminho do meio entre os de cima e os de baixo; a politeia aristotélica. Mas é uma comensal no banquete da burguesia que conspira contra o Estado de direito democrático.

O perigo se esconde na demagogia; o atraso espia as pesquisas. Como na canção The Sound of Silence: “As palavras dos profetas / Estão escritas nas paredes do metrô / E nos corredores dos cortiços / Sussurradas no som do silêncio”. Que os corações estejam prontos, em 2026, para superar o risco de o apelo utópico se confundir com o outdoor do paraíso ou o neon da opressão. Trata-se, antes, de uma estação de resiliência e esperança.

*Luiz Marques é professor de ciência política na UFRGS. Foi secretário estadual de cultura do Rio Grande do Sul no governo Olívio Dutra.

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