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Breves leituras carnavalescas

Do A Terra É Redonda, 16 de fevereiro 2026
Por JOÃO CARLOS SALLES*



O carnaval, herdeiro da estrutura crítica do barroco de Gregório de Matos, encena a tensão entre a máquina mercante e a utopia de uma alegria partilhada por todos

1.

Carnaval costuma ser transe. Línguas molhadas e, quem sabe, viperinas. Crítica ou sedação, purgação de virtudes e vícios corpóreos ou espirituais. Nada é de todo simples nesses (des)encontros de almas e corpos, nos quais temos deslocamento e representação da sociedade.

Carnaval reúne opostos, encobrindo as diferenças que teima em conservar. É Mudança do Garcia, BaianaSystem, Mascarados, blocos afro, mas também camarotes luxuosos e reservados. Prazer e violência, carnaval é pipoca e corda ao mesmo tempo, como um voo audaz e interrompido.

Escolhi recolher-me este ano, mas no carnaval até o recolhimento exige poesia. Sendo na Bahia, sátira também. Sem que tivesse planejado, este carnaval me fez reencontrar de cara o protesto ainda aberto de Gregório de Matos. Caiu-me à mão, quase ao acaso, o poema “À Cidade da Bahia”.[i]


Triste Bahia! ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado,
Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mim abundante.
A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando e tem trocado
Tanto negócio e tanto negociante.
Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.
Oh, se quisera Deus que, de repente,
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!


O soneto tem uma estrutura, uma armação retórica clássica, como se, com independência dos contextos, sua feição fosse atemporal: espanto > estranheza > explicação > reação. Essa estrutura é tão forte que nos permite encenar um roteiro, os vários passos de uma tradição da nossa cultura, na qual, por transposição, ao contrário de Gregório de Matos, podemos ver nossa realidade desigual culminar não na sisudez desejada pelo poeta, mas em festa, uma festa necessária.

O poema configura uma forma, uma estrutura discursiva e retórica, que, sem muito esforço, bem poderíamos aplicar a outras realidades ou instituições. Eis que, dou-me conta agora, o poema começa com um espanto filosófico radical, pois nos separa de nós mesmos, desvelando-nos dessemelhantes de nosso antigo e natural estado, ao tempo que estabelece uma identificação entre o próprio poeta e a cidade de Salvador, como se um espanto recíproco os jungisse no mesmo gesto que os afasta de si mesmos.[ii]


Triste Bahia! ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado,


2.

Esse espanto, ademais, não é raro. Empatia e estranhamento são fortes recursos literários. Temos amiúde alguma nostalgia de algum passado que, contudo, nunca se realiza por completo, porquanto, caso estivesse realizado e fosse completo, não teria degenerado. O espanto se traduz, pois, em uma dupla estranheza, o sentimento de que algo pode, sim, ter mudado. Mas, nesse caso concreto, exatamente o quê? A resposta de Gregório é direta:


Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mim abundante.


Pobres agora, ricos outrora? Endividado (empenhado) se diz o poeta, cuja penúria contrastaria com tempos idos, priscas eras, mas não sem causa ou razão. O poeta parece, então, lamentar uma ação disruptiva, a quebra de um estado – quebra que só pode ter tido motivação externa, a saber:


A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,


A máquina invadiu, tirou do lugar, alterou, modificou um estado. A essa máquina que, por conseguinte, assusta e atrai, como aderir ou reagir? Como deixar de ver que ela tudo perturba, não deixa nada intocado, atingindo a todos e mesmo talvez o mais reticente crítico? Como impedir que a máquina tudo reduza, enfim, a um trocado? Admite, afinal, o poeta:


A mim foi-me trocando e tem trocado


Também foi alterado o poeta, impondo-se, portanto, uma lei, a dessa máquina mercante, por meio da qual um novo registro se impõe às relações (o negócio) e outra personagem se nos oferece (o negociante). Afinal, isso parece ser o que há, e agora em grande quantidade:


Tanto negócio e tanto negociante.


Esse reino da troca, do negócio, é também o lugar do engodo. É a entrega do bem raro pelo ouro de besouro. A avidez seria a fraqueza local mais bem distribuída, que faria aceitar drogas inúteis do deplorável brichote, o nefando estrangeiro. Entrega-se assim o açúcar precioso (palavra de um antigo senhor de engenho e de escravizados, representante da aristocracia açucareira local) pelo irrelevante, o excelente pelo inútil.


Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.


3.

Está então tudo dominado? Não há esperança? Pode essa Cidade da Bahia reencontrar sua força? Pode ela retomar suas medidas e, um tanto sisuda, impor-se pelo algodão sóbrio que antes a cobria e lhe dava altivez e segurança?

Sabemos que nada havia de inocente, nem riqueza branda na economia anterior à máquina mercante. Como sua nostalgia aponta para um passado nada idílico e o que o poeta lamenta é a perda de um modo de vida também cruel, a empatia possível com Gregório só pode derivar de uma vaga analogia. Para o poeta apenas (e não para nós), vale tal contexto anterior como parâmetro e contraponto.

Ao fim e ao cabo, é a estrutura do poema o que aqui apreciamos; sua forma e não seu conteúdo. É nesse sentido que, em meio à crítica, a estrutura do poema obriga-se a um desfecho. Para quem abriu os olhos, espantou-se e soube criticar, a narrativa precisa esboçar um gesto final. O soneto insinua, então, uma réstia de esperança, mas na contenção; um sopro de otimismo, mas no retraimento; uma sisudez contida, com vestes agora sóbrias.


Oh, se quisera Deus que, de repente,
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!


Eis que a crítica vem como uma espécie de restauração. Não precisamos, todavia, aceitar a resposta de Gregório. Nossa resposta não há de brotar de alguma dádiva divina, nem virá assim tão de repente.

De todo modo, a crítica (como toda crítica) brota no poema como uma lição de esperança, que sempre nos dá alento e agrada: a de que, por analogia, sejamos capazes de substituir as paixões tristes do medo, da inveja, da cobiça, do ressentimento, por paixões deveras alegres – aquelas que, mesmo sisudas, nos revigoram, como a amizade e o amor.

Aqui, ao desenharmos nossa analogia sobre sua estrutura discursiva, nós nos afastamos de Gregório de Matos. Afinal, suas contradições tamanhas e concretas fazem seu lamento decorrer da perda de privilégios, do empobrecimento resultante do fim das restrições antes impostas à entrada de navios estrangeiros, concomitante à crise do comércio açucareiro.

O talento de Gregório não há de apagar o incômodo da realidade cruel que seus versos tragam e traduzem. Por outro lado, uma obra não se reduz ao seu contexto, assim como o pensamento não é um mero cativo do seu tempo, se acaso nela o talento é abundante. Desse modo, o soneto, com sua forma e sua força, nos oferece uma estrutura a ser revisitada e superada, declamada e negada, como um estímulo à nossa ação. Em suma, um acicate açucarado.

4.

Carnaval é barulho e silêncio, mescla rimas pobres e ricas, atrai energias criativas (embotadas muita vez pela repetição). Entretanto, sendo mistura, pode entrever também a possibilidade de dissolução de preconceitos e nos libertar de quanto pretenda impor-se como um valor e um destino, mas que nós, de olhos abertos, vemos logo ser um mero e pobre negócio. Que nos permitamos, pois, na rua ou nos livros, essa condenação que liberta: a da alegria – inclusive nessa forma barroca, doce amarga, tão própria aos filhos do Recôncavo.

Afinal de contas, como bem nos diz Gregório, no soneto em que “descreve a confusão do festejo do Entrudo”, o carnaval sempre dá vazão a essa vontade pantagruelesca e também autofágica: a de “querer em um só dia comer tudo”. Ao contrário de sua nostalgia marcada pelo passado, o Entrudo (essa antecipação do carnaval) é descrito por Gregório (não sem traços de preconceitos) como se concentrasse em um momento e com voracidade a utopia de um lugar mágico de fartura, simplesmente sem fome, reeditando talvez o mítico País da Cocanha, terra de preguiça e de prazeres, sem azáfama ou miséria:


Filhós, fatias, sonhos, mal-assadas,
Galinhas, porco, vaca, e mais carneiro,
Os perus em poder do pasteleiro,
Esguichar, deitar pulhas, laranjadas;
Enfarinhar, pôr rabos, dar risadas,
Gastar para comer muito dinheiro,
Não ter mãos a medir o taverneiro,
Com réstias de cebolas dar pancadas;


Forte a sátira, duro o contexto, cabe refinar as análises, inclusive da herança nefasta da escravidão, e laborar em nossas políticas a esperança, amiga das paixões alegres.

Vale assim a leitura carnavalesca das desigualdades e do sofrimento, ou seja, podermos ler a realidade conservando a promessa mais forte do carnaval – que faz sentido, sim, como festa, como horizonte de um poema ou afirmação da cultura, sobretudo para quem se dispõe a lutar, não por uns poucos privilégios, mas sim para que sempre possamos comer de tudo e que, bem abertos camarotes e janelas, todos os nossos dias sejam de festa, nos quais haveremos de


Não perdoar arroz, nem cuscuz quente,
Despejar pratos, e alimpar tigelas.


5.

O carnaval nos toca e transforma. É gesto de reflexão coletiva, como se fora uma encenação pública de nossos pensamentos e desejos mais íntimos. Por isso mesmo, disrupção contida, suspensão continuada, mas com prazo preciso. Eis que, um tanto inadvertidamente, meu texto também encena a seu modo essa potência crítica, tanto na vontade de análise quanto no horizonte utópico acima desenhado, como se navegasse entre as agruras da exploração e o reino da liberdade.

Como juntar essas pontas? Como unir no discurso os extremos da máquina mercante e de uma sociedade de iguais? A resposta insinuada apontou para a potência mesma da alegria, das paixões alegres, subversivas, próprias do nosso povo (ou seja, de quem pode ser protagonista de uma nova ordem) – paixões que, de resto, podem ser obstruídas ou favorecidas por políticas públicas.

Carnaval é invenção, afirmação do talento de um povo, cuja força crítica se atualiza, quiçá momentaneamente, mas com a promessa de um samba duradouro. Não deixou de ser então emblemática dessa alegria poderosa um momento único do carnaval, um desses encontros quase sobrenaturais.

Como disse, estou recolhido, embora tentado pela Mudança do Garcia, mas ainda em casa. Eis que, pelos olhos de amigos e pelas redes, pude testemunhar um encontro que nossas forças mais progressistas têm possibilitado na forma de políticas públicas de inclusão.

Muitos não vão gostar e é bom que detestem, mas o encontro do BaianaSystem com Lula, em pleno Campo Grande, puxando os gritos de “Sem anistia” e “Fascistas não passarão”, é um gesto que sinaliza o tipo de aposta contida na força mais crítica do carnaval. Uma força e uma emoção maiores que a soma de todos nós.

Enfim, o músico do trio de Thiago Aquino tocando “Lula-lá” para agradecer por seu primeiro violino, outrora adquirido por meio de políticas públicas de incentivo às artes e à cultura em comunidades carentes: esse gesto é puro carnaval ou bem mais que um mero carnaval. É de arrepiar o corpo e de lavar a alma.

*João Carlos Salles é professor titular do Departamento de Filosofia da Universidade Federal da Bahia. Ex-reitor da UFBA e ex-presidente da Andifes. Autor, entre outros livros, de Universidade pública e democracia (Boitempo). [https://amzn.to/4cRaTwT]

Notas

[i] Que se tome a referência a Gregório de Matos neste texto pelo que ela de fato é: apenas uma leitura carnavalesca e descompromissada de um soneto clássico. Registro de uma impressão pessoal e um tanto errática, não pretende competir com trabalhos canônicos como os de Cleise Mendes, Fernando da Rocha Peres e Alfredo Bosi.

[ii] Que se trate de um passo narrativo clássico, isso fica bem claro o fato (para o qual Nancy Vieira me chamou a atenção) de esse espanto inicial ter sido inspirado por um poema lírico do português Francisco Rodrigues Lobo: “Formoso Tejo meu, quão diferente / Te vejo e vi, me vês agora e viste, / Turvo te vejo a ti, tu a mim triste, / Claro te vi eu já, tu a mim contente”.

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