Do Brasil de Fato, 5 de fevereiro 2026
Por LUCAS SALUM
A presença do glifosato, o agrotóxico mais utilizado no Brasil, em alimentos ultraprocessados expõe uma realidade alarmante para quem consome produtos industrializados no dia a dia. Vendido por décadas como seguro, o veneno teve seu principal estudo de segurança, realizado no ano 2000, manipulado pela multinacional Monsanto. A revelação, feita no fim do ano passado, desmonta uma das principais bases científicas que sustentaram a liberação do produto no país.
Mesmo após a constatação da fraude, o estudo seguiu sendo utilizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) na reavaliação do glifosato em 2020, decisão que manteve a substância liberada no mercado brasileiro. Desde então, mais de 1.200 toneladas do agrotóxico foram comercializadas no país.
Para entender a dimensão desse problema e os impactos diretos na saúde da população, o Conversa Bem Viver ouviu Tamara Andrade, especialista em regulação de alimentos, integrante do programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), além de gestora de políticas públicas e advogada.
A ideia de que o glifosato se restringe às lavouras e não chega aos centros urbanos também não se sustenta. Um levantamento do Idec identificou resíduos da substância em 31 dos 75 alimentos ultraprocessados analisados na terceira fase da pesquisa “Tem Veneno Nesse Pacote”. Entre os produtos contaminados estão pães, biscoitos, bolachas recheadas, embutidos e salgadinhos amplamente consumidos no Brasil.
Segundo Tamara, é importante nomear o problema sem rodeios: o glifosato é um veneno. “Ele é um pesticida criado para eliminar pragas nas plantações. Sempre foi produzido em larga escala e há muitas evidências sobre seus potenciais malefícios para a saúde, como doenças crônicas e aumento da probabilidade de alguns tipos de câncer, especialmente os do sangue e do sistema nervoso”, explica.
Confira a entrevista completa
Brasil de Fato: Tamara, é importante para todo mundo entender a dimensão de termos vivido cerca de 20 anos com informações falsas sobre o glifosato. Afinal, o que é essa substância e o que a população precisa saber quando tem contato com ela, seja pela alimentação ou pela água?
Tamara Andrade: O glifosato é um veneno. Ele é um pesticida, usado para eliminar pragas nas plantações. Em um primeiro momento, era aplicado em diferentes tipos de lavoura, como milho, feijão, frutas e hortaliças. Com o avanço das sementes transgênicas, especialmente da soja, o uso do glifosato passou a ser ainda mais intenso, porque essas culturas foram desenvolvidas para resistir ao veneno.
Sempre foi um produto fabricado em larga escala e existem diversas evidências científicas sobre seus potenciais malefícios à saúde, como o desenvolvimento de doenças crônicas e o aumento da probabilidade de alguns tipos de câncer, especialmente cânceres do sangue e do sistema nervoso. Não existe uma relação imediata de causa e efeito, mas sim uma associação crescente com a exposição contínua.
Às vezes as pessoas têm a sensação de que qualquer contato com o glifosato já representa uma condenação à doença. É assim que funciona?
Não exatamente. Não é o consumo pontual de um alimento contaminado que vai gerar uma doença grave no dia seguinte. O problema é a exposição constante, diária, ao longo dos anos. Esse contato repetido aumenta os riscos para a saúde e pode, sim, contribuir para o desenvolvimento de doenças mais sérias com o passar do tempo.
Na terceira fase da pesquisa “Tem Veneno Nesse Pacote”, o Idec identificou glifosato em 31 dos 75 ultraprocessados analisados. Esse número chama atenção?
Chama muita atenção. Em nenhuma das edições da pesquisa menos da metade dos produtos testados apresentou ausência de glifosato. Ele aparece com muita frequência, porque está presente nas matérias-primas dos ultraprocessados, como trigo e milho. Ao longo do processo industrial, o resíduo não desaparece. Ele persiste no produto final, no ambiente e, consequentemente, no nosso organismo.
Entre os produtos analisados estão pães, biscoitos, bolachas recheadas, embutidos e salgadinhos. O que esse dado revela?
Revela que os ultraprocessados não são mais seguros do ponto de vista da contaminação por agrotóxicos. Existe a ideia de que o problema está apenas no campo, mas isso não é verdade. Esses resíduos chegam até a mesa do consumidor urbano e passam a fazer parte da alimentação cotidiana, quase como um tempero invisível.
Diante desse cenário, o Idec entrou com um pedido formal junto à Anvisa. O que exatamente está sendo solicitado?
Estamos pedindo a reavaliação imediata do glifosato. Ou seja, que a Anvisa volte a analisar se a substância deve continuar autorizada no Brasil. Um dos estudos mais importantes usados para justificar a permanência do glifosato no mercado foi considerado fraudulento, o que muda o conjunto de evidências científicas disponíveis.
Existe alguma resposta da Anvisa até agora?
Ainda não. Esse tipo de processo costuma ser longo, tanto pelo tempo técnico de análise quanto pelas pressões econômicas envolvidas. Estamos falando de um dos agrotóxicos mais utilizados no país, com interesses muito poderosos por trás.
As empresas citadas no estudo demonstraram preocupação com os resultados?
Todas as empresas são notificadas após a divulgação dos resultados e sempre respondem. Algumas buscam entender melhor a cadeia produtiva, outras apresentam seus programas de controle de qualidade. Mas todas afirmam que não cometem nenhuma ilegalidade e, de fato, não cometem, porque não existe hoje um limite legal estabelecido para resíduos de agrotóxicos em ultraprocessados.
Isso revela um problema anterior à fiscalização, que é a ausência de lei?
Exatamente. Falta regulamentação. Sem limites definidos, não há como caracterizar uma infração. Isso mostra a urgência de aprimorar a legislação brasileira, que hoje é muito permissiva, inclusive quando comparada a outros países.
O Brasil adota padrões diferentes dos internacionais?
Sim. Um exemplo claro é o glifosato na água. Na União Europeia, o limite permitido é de 0,1 micrograma por litro. No Brasil, esse limite chega a 500 microgramas por litro. É uma diferença enorme, fruto de uma regulamentação mais frouxa.
Para finalizar, que orientações práticas você daria para quem vai ao mercado?
Não é preciso ter medo dos alimentos in natura, como frutas, verduras e legumes. Sempre que possível, vale priorizar feiras e produtores locais. No caso dos industrializados, é fundamental ler os rótulos, especialmente a lista de ingredientes. Quanto menor e mais compreensível essa lista, melhor. E, claro, reduzir o consumo de ultraprocessados sempre que possível.
Por LUCAS SALUM
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Glifosato, o agrotóxico mais utilizado no Brasil | Crédito: Freepik |
A presença do glifosato, o agrotóxico mais utilizado no Brasil, em alimentos ultraprocessados expõe uma realidade alarmante para quem consome produtos industrializados no dia a dia. Vendido por décadas como seguro, o veneno teve seu principal estudo de segurança, realizado no ano 2000, manipulado pela multinacional Monsanto. A revelação, feita no fim do ano passado, desmonta uma das principais bases científicas que sustentaram a liberação do produto no país.
Mesmo após a constatação da fraude, o estudo seguiu sendo utilizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) na reavaliação do glifosato em 2020, decisão que manteve a substância liberada no mercado brasileiro. Desde então, mais de 1.200 toneladas do agrotóxico foram comercializadas no país.
Para entender a dimensão desse problema e os impactos diretos na saúde da população, o Conversa Bem Viver ouviu Tamara Andrade, especialista em regulação de alimentos, integrante do programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), além de gestora de políticas públicas e advogada.
A ideia de que o glifosato se restringe às lavouras e não chega aos centros urbanos também não se sustenta. Um levantamento do Idec identificou resíduos da substância em 31 dos 75 alimentos ultraprocessados analisados na terceira fase da pesquisa “Tem Veneno Nesse Pacote”. Entre os produtos contaminados estão pães, biscoitos, bolachas recheadas, embutidos e salgadinhos amplamente consumidos no Brasil.
Segundo Tamara, é importante nomear o problema sem rodeios: o glifosato é um veneno. “Ele é um pesticida criado para eliminar pragas nas plantações. Sempre foi produzido em larga escala e há muitas evidências sobre seus potenciais malefícios para a saúde, como doenças crônicas e aumento da probabilidade de alguns tipos de câncer, especialmente os do sangue e do sistema nervoso”, explica.
Confira a entrevista completa
Brasil de Fato: Tamara, é importante para todo mundo entender a dimensão de termos vivido cerca de 20 anos com informações falsas sobre o glifosato. Afinal, o que é essa substância e o que a população precisa saber quando tem contato com ela, seja pela alimentação ou pela água?
Tamara Andrade: O glifosato é um veneno. Ele é um pesticida, usado para eliminar pragas nas plantações. Em um primeiro momento, era aplicado em diferentes tipos de lavoura, como milho, feijão, frutas e hortaliças. Com o avanço das sementes transgênicas, especialmente da soja, o uso do glifosato passou a ser ainda mais intenso, porque essas culturas foram desenvolvidas para resistir ao veneno.
Sempre foi um produto fabricado em larga escala e existem diversas evidências científicas sobre seus potenciais malefícios à saúde, como o desenvolvimento de doenças crônicas e o aumento da probabilidade de alguns tipos de câncer, especialmente cânceres do sangue e do sistema nervoso. Não existe uma relação imediata de causa e efeito, mas sim uma associação crescente com a exposição contínua.
Às vezes as pessoas têm a sensação de que qualquer contato com o glifosato já representa uma condenação à doença. É assim que funciona?
Não exatamente. Não é o consumo pontual de um alimento contaminado que vai gerar uma doença grave no dia seguinte. O problema é a exposição constante, diária, ao longo dos anos. Esse contato repetido aumenta os riscos para a saúde e pode, sim, contribuir para o desenvolvimento de doenças mais sérias com o passar do tempo.
Na terceira fase da pesquisa “Tem Veneno Nesse Pacote”, o Idec identificou glifosato em 31 dos 75 ultraprocessados analisados. Esse número chama atenção?
Chama muita atenção. Em nenhuma das edições da pesquisa menos da metade dos produtos testados apresentou ausência de glifosato. Ele aparece com muita frequência, porque está presente nas matérias-primas dos ultraprocessados, como trigo e milho. Ao longo do processo industrial, o resíduo não desaparece. Ele persiste no produto final, no ambiente e, consequentemente, no nosso organismo.
Entre os produtos analisados estão pães, biscoitos, bolachas recheadas, embutidos e salgadinhos. O que esse dado revela?
Revela que os ultraprocessados não são mais seguros do ponto de vista da contaminação por agrotóxicos. Existe a ideia de que o problema está apenas no campo, mas isso não é verdade. Esses resíduos chegam até a mesa do consumidor urbano e passam a fazer parte da alimentação cotidiana, quase como um tempero invisível.
Diante desse cenário, o Idec entrou com um pedido formal junto à Anvisa. O que exatamente está sendo solicitado?
Estamos pedindo a reavaliação imediata do glifosato. Ou seja, que a Anvisa volte a analisar se a substância deve continuar autorizada no Brasil. Um dos estudos mais importantes usados para justificar a permanência do glifosato no mercado foi considerado fraudulento, o que muda o conjunto de evidências científicas disponíveis.
Existe alguma resposta da Anvisa até agora?
Ainda não. Esse tipo de processo costuma ser longo, tanto pelo tempo técnico de análise quanto pelas pressões econômicas envolvidas. Estamos falando de um dos agrotóxicos mais utilizados no país, com interesses muito poderosos por trás.
As empresas citadas no estudo demonstraram preocupação com os resultados?
Todas as empresas são notificadas após a divulgação dos resultados e sempre respondem. Algumas buscam entender melhor a cadeia produtiva, outras apresentam seus programas de controle de qualidade. Mas todas afirmam que não cometem nenhuma ilegalidade e, de fato, não cometem, porque não existe hoje um limite legal estabelecido para resíduos de agrotóxicos em ultraprocessados.
Isso revela um problema anterior à fiscalização, que é a ausência de lei?
Exatamente. Falta regulamentação. Sem limites definidos, não há como caracterizar uma infração. Isso mostra a urgência de aprimorar a legislação brasileira, que hoje é muito permissiva, inclusive quando comparada a outros países.
O Brasil adota padrões diferentes dos internacionais?
Sim. Um exemplo claro é o glifosato na água. Na União Europeia, o limite permitido é de 0,1 micrograma por litro. No Brasil, esse limite chega a 500 microgramas por litro. É uma diferença enorme, fruto de uma regulamentação mais frouxa.
Para finalizar, que orientações práticas você daria para quem vai ao mercado?
Não é preciso ter medo dos alimentos in natura, como frutas, verduras e legumes. Sempre que possível, vale priorizar feiras e produtores locais. No caso dos industrializados, é fundamental ler os rótulos, especialmente a lista de ingredientes. Quanto menor e mais compreensível essa lista, melhor. E, claro, reduzir o consumo de ultraprocessados sempre que possível.
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Conversa Bem Viver
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Editado por: Luís Indriunas


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