Por TIAGO NOGARA*
O cerco ao porto de Chancay revela menos uma disputa entre potências e mais a tentativa de impedir que a América Latina escolha seus próprios caminhos de desenvolvimento
1.
No dia 12 de fevereiro, o Bureau of Western Hemisphere Affairs do Departamento de Estado dos Estados Unidos afirmou nas redes sociais estar “preocupado com relatos recentes de que o Peru poderia estar impotente para supervisionar Chancay, um de seus maiores portos, que está sob jurisdição de proprietários chineses predatórios”, acrescentando: “apoiamos o direito soberano do Peru de supervisionar infraestrutura crítica em seu próprio território; que isto sirva de alerta para a região e o mundo: dinheiro chinês barato custa soberania.”
Essa declaração representa mais um passo na escalada de ataques promovidos pela Casa Branca contra a cooperação entre os países da América Latina e do Caribe e a China.
Logo após a inauguração do porto, em 2024, Mauricio Claver-Carone, então assessor da equipe de transição de Donald Trump, propôs a imposição de tarifas de até 60% sobre produtos chineses que chegassem aos Estados Unidos por meio de Chancay. Nos últimos anos, tornaram-se frequentes as declarações de comandantes do Comando Sul e de altos funcionários americanos que apresentam obras de infraestrutura e a presença de empresas chinesas na América Latina como supostamente prejudiciais à soberania e à segurança hemisférica.
Nesse contexto, tais declarações contribuem para a criação de um ambiente político e jurídico propício à imposição de obstáculos à plena utilização do porto ou à atuação das empresas chinesas envolvidas, seja por meio de pressões diplomáticas, operações extralegais ou do uso do lawfare. Paralelamente, os Estados Unidos têm impulsionado um amplo esforço de cooperação e investimento em outros portos peruanos, buscando fortalecer infraestruturas alternativas e contrabalançar a crescente presença chinesa no país.
Essa ofensiva contra o porto de Chancay ocorre em meio à intensificação de esforços coordenados dos Estados Unidos para reduzir a presença econômica chinesa em pontos estratégicos do hemisfério, particularmente no entorno do Canal do Panamá. Desde o início de seu segundo mandato, Donald Trump passou a enquadrar as operações portuárias vinculadas à China, especialmente nos portos de Balboa e Cristobal, como uma ameaça à segurança nacional americana, pressionando o Panamá a se retirar da Belt and Road Initiative e forçando a empresa sediada em Hong Kong CK Hutchison a negociar a venda de sua participação na Panamá Ports Company a um consórcio liderado pelos Estados Unidos.
No entanto, quando a estatal chinesa COSCO buscou garantir participação e poder de veto na operação, a estratégia evoluiu para um novo patamar: sob forte pressão americana, autoridades panamenhas iniciaram procedimentos judiciais perante a Suprema Corte para revogar integralmente a concessão portuária, em um movimento amplamente interpretado como destinado a impedir que a China mantenha qualquer presença na infraestrutura estratégica do canal, independentemente do formato jurídico ou societário.
2.
Desde o início do novo governo de Donald Trump, os Estados Unidos têm conduzido uma ofensiva mais ampla contra governos progressistas latino-americanos, ao mesmo tempo em que tornam explícita sua estratégia de conter e reduzir a presença econômica chinesa no hemisfério. Se as declarações e ações de autoridades americanas já indicavam essa orientação, as diretrizes estabelecidas nas recentemente publicadas National Security Strategy (NSS) e National Defense Strategy (NDS) consolidaram essa linha como eixo estruturante da política externa e de defesa americana.
A recente invasão da Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro representam a face mais agressiva dessa estratégia, que tem em seu centro a utilização de elementos de chantagem e desestabilização. No mesmo sentido, o recrudescimento do bloqueio contra Cuba e as medidas destinadas a asfixiar economicamente a ilha, restringindo seu acesso a fontes energéticas, configuram ações criminosas que impactam diretamente as condições de vida de milhões de pessoas.
Cabe destacar que, com o apoio político e diplomático da Casa Branca, o recente ciclo eleitoral latino-americano foi marcado pela ascensão de forças conservadoras que, em maior ou menor medida, adotam posições alinhadas ao discurso anti-China promovido por Washington. As derrotas de forças progressistas no Equador e em Honduras — ambas sob denúncias de fraude eleitoral —, na Bolívia — onde o lawfare impediu a candidatura de Evo Morales — e no Chile ilustram essa tendência.
Ainda assim, isso não significa uma vitória plena da estratégia americana, uma vez que interesses econômicos concretos limitam a adesão irrestrita à agenda anti-China. Mesmo governos ideologicamente alinhados com Donald Trump, como os de Javier Milei, Daniel Noboa e Nayib Bukele, têm mantido ou, em certos casos, aprofundado relações econômicas com Pequim, reconhecendo a centralidade da China como parceira confiável e fundamental nos campos comercial e de investimento.
Apesar das imensas dificuldades atravessadas por Cuba, Venezuela e Nicarágua, sob sanções, chantagens e agressões de todo tipo, seus governos seguem de pé e contam com o respaldo de amplos segmentos de suas respectivas sociedades, com forte ancoragem nos movimentos sociais comprometidos com a defesa dos processos revolucionários. Se, por um lado, a operação que resultou no sequestro de Nicolás Maduro foi comemorada por Washington como uma vitória irreversível, a realidade demonstra com clareza que os chavistas mantêm plena hegemonia no país, com respaldo de uma população que vai aos milhares às ruas defender o legado da revolução bolivariana, ao passo que a oposição de direita caiu em total descrédito, inclusive perante a própria Casa Branca – como evidencia o recente isolamento de Maria Corina Machado das conversações bilaterais entre os países.
3.
A opção americana passou a ser negociar a inserção de suas empresas na economia venezuelana e, em particular, no setor petrolífero, às custas das fatias de mercado da chamada boliburguesía (como indica a priorização de Alex Saab como alvo da ofensiva americana) e do próprio Estado venezuelano, como se observa nos rumos da indústria petroleira, em tratativas conduzidas diretamente com o governo chavista.
Isso evidencia não apenas a fortaleza e resiliência da popularidade do governo junto a expressivos setores populares, mas também o receio americano diante dos possíveis desdobramentos de um cenário que poderia vir a se tornar o seu “novo Vietnã”, ou, mais precisamente, seu “Vietnã latino-americano”.
Na Colômbia e no Brasil, Gustavo Petro e Lula demonstram força diante das tentativas de desestabilização às quais foram submetidos ao longo de seus governos, mantendo boas perspectivas para os vindouros processos eleitorais deste ano. No caso de Lula, o fracasso das sucessivas ondas de ataques da extrema-direita – desde o 8 de janeiro de 2023, na tentativa de golpe de Estado; passando pelos conflitos com Elon Musk e o X; até o fracassado “tarifaço” de Donald Trump – contribuiu para seu fortalecimento político e para a elevação de sua popularidade e desempenho nas pesquisas eleitorais.
Nesse sentido, não é por acaso que, na contramão da “ofensiva generalizada” de períodos anteriores, a Casa Branca tem, em certos casos, matizado seus cálculos e buscado até mesmo um modus vivendi com governos progressistas em determinadas situações. Ainda assim, isso responde muito mais às derrotas conjunturais e ao fracasso de suas ofensivas em cenários específicos do que a uma mudança estrutural de orientação. Diante do quadro geral da América Latina, é razoável supor que os próximos processos eleitorais nesses dois países serão marcados por elevado grau de instabilidade e tensões.
A grande ironia desse cenário reside no fato de que, no centro das justificativas americanas, está a suposta necessidade de afastar a influência alegadamente nociva de potências “não-hemisféricas”, em particular da China, sob o pretexto de defender a soberania e a segurança regional. No entanto, não é a China que impõe aos países latino-americanos acordos de cooperação econômica ou vínculos políticos: tais relações são estabelecidas soberanamente por ambas as partes e não se dirigem contra terceiros nem excluem a cooperação com outros países.
4.
Enquanto os Estados Unidos mantêm há décadas o bloqueio econômico criminoso contra Cuba, recentemente intensificado, a China se antecipou em fornecer ao país e ao seu povo apoio inabalável, enviando 60 mil toneladas de arroz e US$ 80 milhões em ajuda emergencial, um gesto significativo de solidariedade destinado a mitigar a escassez de alimentos provocada pela crise energética.
Da mesma forma, enquanto a Venezuela é há anos asfixiada por centenas das mais diversas e ilegais sanções, a China consolidou-se, com ampla margem, como seu principal parceiro comercial, fornecendo cooperação em diversas áreas e concedendo empréstimos em larga escala, sem impor pressões ou condicionalidades políticas.
A China não estabelece restrições ao aprofundamento de vínculos com governos independentemente de sua orientação ideológica, como demonstra sua busca por manter estabilidade nas relações inclusive com países latino-americanos governados por lideranças conservadores.
Quem, de fato, tem exercido violações de soberanias nacionais, promovido ações extralegais, imposto pressões diplomáticas e sanções e adotado estratégias de asfixiamento e retaliação contra governos de orientação distinta são os próprios Estados Unidos. Nesse contexto, torna-se no mínimo irônico – para não dizer trágico – o conjunto de narrativas que acusam obras de infraestrutura e a presença de empresas chinesas na região de suposto “uso dual” ou de objetivos geopolíticos voltados à violação da soberania nacional.
Ainda mais problemática é a narrativa, amplamente difundida na grande mídia e em certos círculos acadêmicos, que enquadra esse processo como uma simples “disputa geopolítica” entre “grandes potências” na América Latina, uma interpretação profundamente desconectada da realidade.
O que se observa, em essência, é a persistência do hegemonismo imperialista dos Estados Unidos, voltado não apenas a conter a presença econômica chinesa, mas, sobretudo, a limitar a autonomia dos povos latino-americanos na definição de seus próprios destinos e na busca por alternativas que lhes permitam alcançar o desenvolvimento econômico e social de que tanto necessitam.
Nessa caminhada, a China não é uma “ameaça”, mas uma parceira que, na condição de país em desenvolvimento, tem um amplo lastro histórico de enfrentamento às injustiças e assimetrias da ordem internacional regida pelos interesses financeiros de um punhado das elites norte-atlânticas.
No histórico das relações entre os Estados Unidos e os países da América Latina e do Caribe, o direcionamento de esforços contra a parceria destes com a China insere-se em uma longa tradição de sabotagem a projetos de cooperação com terceiros, conduzida em nome dos interesses imperiais.
Na década de 1970, os ianques foram incapazes de tolerar nem sequer o acordo nuclear entre dois de seus principais aliados ocidentais: a criminosa ditadura militar brasileira e o governo da República Federal da Alemanha. Sob forte pressão americana, o acordo foi progressivamente esvaziado, com bloqueios à transferência de tecnologia estratégica e a imposição de restrições financeiras e políticas que impediram sua plena execução e obstaculizaram os objetivos de desenvolvimento brasileiros à época.
O “corolário Trump” da Doutrina Monroe não é, portanto, mais do que a atualização das diretrizes que há tempos são exercidas pelos Estados Unidos no contexto hemisférico: América para os americanos, mas só para os que se submeterem aos interesses da plutocracia estadunidense. Chineses e latino-americanos não constituem polos de um suposto triângulo de “disputa geopolítica”, mas sim alvos indiscriminados daqueles que pretendem perpetuar as assimetrias e preservar uma ordem internacional pautada pelo hegemonismo e unilateralismo das potências imperialistas.
Ao aderirem à cruzada anti-China, parte das burguesias latino-americanas não fazem mais do que atentar contra os próprios interesses e soberania de seus povos, em nome de causas que não são nem nunca serão suas, e que estão fadadas a, cedo ou mais tarde, serem derrotadas pela luta inabalável em prol da construção de uma comunidade de futuro comum para a humanidade.
*Tiago Nogara é professor da Universidade de Nankai.
1.
No dia 12 de fevereiro, o Bureau of Western Hemisphere Affairs do Departamento de Estado dos Estados Unidos afirmou nas redes sociais estar “preocupado com relatos recentes de que o Peru poderia estar impotente para supervisionar Chancay, um de seus maiores portos, que está sob jurisdição de proprietários chineses predatórios”, acrescentando: “apoiamos o direito soberano do Peru de supervisionar infraestrutura crítica em seu próprio território; que isto sirva de alerta para a região e o mundo: dinheiro chinês barato custa soberania.”
Essa declaração representa mais um passo na escalada de ataques promovidos pela Casa Branca contra a cooperação entre os países da América Latina e do Caribe e a China.
Logo após a inauguração do porto, em 2024, Mauricio Claver-Carone, então assessor da equipe de transição de Donald Trump, propôs a imposição de tarifas de até 60% sobre produtos chineses que chegassem aos Estados Unidos por meio de Chancay. Nos últimos anos, tornaram-se frequentes as declarações de comandantes do Comando Sul e de altos funcionários americanos que apresentam obras de infraestrutura e a presença de empresas chinesas na América Latina como supostamente prejudiciais à soberania e à segurança hemisférica.
Nesse contexto, tais declarações contribuem para a criação de um ambiente político e jurídico propício à imposição de obstáculos à plena utilização do porto ou à atuação das empresas chinesas envolvidas, seja por meio de pressões diplomáticas, operações extralegais ou do uso do lawfare. Paralelamente, os Estados Unidos têm impulsionado um amplo esforço de cooperação e investimento em outros portos peruanos, buscando fortalecer infraestruturas alternativas e contrabalançar a crescente presença chinesa no país.
Essa ofensiva contra o porto de Chancay ocorre em meio à intensificação de esforços coordenados dos Estados Unidos para reduzir a presença econômica chinesa em pontos estratégicos do hemisfério, particularmente no entorno do Canal do Panamá. Desde o início de seu segundo mandato, Donald Trump passou a enquadrar as operações portuárias vinculadas à China, especialmente nos portos de Balboa e Cristobal, como uma ameaça à segurança nacional americana, pressionando o Panamá a se retirar da Belt and Road Initiative e forçando a empresa sediada em Hong Kong CK Hutchison a negociar a venda de sua participação na Panamá Ports Company a um consórcio liderado pelos Estados Unidos.
No entanto, quando a estatal chinesa COSCO buscou garantir participação e poder de veto na operação, a estratégia evoluiu para um novo patamar: sob forte pressão americana, autoridades panamenhas iniciaram procedimentos judiciais perante a Suprema Corte para revogar integralmente a concessão portuária, em um movimento amplamente interpretado como destinado a impedir que a China mantenha qualquer presença na infraestrutura estratégica do canal, independentemente do formato jurídico ou societário.
2.
Desde o início do novo governo de Donald Trump, os Estados Unidos têm conduzido uma ofensiva mais ampla contra governos progressistas latino-americanos, ao mesmo tempo em que tornam explícita sua estratégia de conter e reduzir a presença econômica chinesa no hemisfério. Se as declarações e ações de autoridades americanas já indicavam essa orientação, as diretrizes estabelecidas nas recentemente publicadas National Security Strategy (NSS) e National Defense Strategy (NDS) consolidaram essa linha como eixo estruturante da política externa e de defesa americana.
A recente invasão da Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro representam a face mais agressiva dessa estratégia, que tem em seu centro a utilização de elementos de chantagem e desestabilização. No mesmo sentido, o recrudescimento do bloqueio contra Cuba e as medidas destinadas a asfixiar economicamente a ilha, restringindo seu acesso a fontes energéticas, configuram ações criminosas que impactam diretamente as condições de vida de milhões de pessoas.
Cabe destacar que, com o apoio político e diplomático da Casa Branca, o recente ciclo eleitoral latino-americano foi marcado pela ascensão de forças conservadoras que, em maior ou menor medida, adotam posições alinhadas ao discurso anti-China promovido por Washington. As derrotas de forças progressistas no Equador e em Honduras — ambas sob denúncias de fraude eleitoral —, na Bolívia — onde o lawfare impediu a candidatura de Evo Morales — e no Chile ilustram essa tendência.
Ainda assim, isso não significa uma vitória plena da estratégia americana, uma vez que interesses econômicos concretos limitam a adesão irrestrita à agenda anti-China. Mesmo governos ideologicamente alinhados com Donald Trump, como os de Javier Milei, Daniel Noboa e Nayib Bukele, têm mantido ou, em certos casos, aprofundado relações econômicas com Pequim, reconhecendo a centralidade da China como parceira confiável e fundamental nos campos comercial e de investimento.
Apesar das imensas dificuldades atravessadas por Cuba, Venezuela e Nicarágua, sob sanções, chantagens e agressões de todo tipo, seus governos seguem de pé e contam com o respaldo de amplos segmentos de suas respectivas sociedades, com forte ancoragem nos movimentos sociais comprometidos com a defesa dos processos revolucionários. Se, por um lado, a operação que resultou no sequestro de Nicolás Maduro foi comemorada por Washington como uma vitória irreversível, a realidade demonstra com clareza que os chavistas mantêm plena hegemonia no país, com respaldo de uma população que vai aos milhares às ruas defender o legado da revolução bolivariana, ao passo que a oposição de direita caiu em total descrédito, inclusive perante a própria Casa Branca – como evidencia o recente isolamento de Maria Corina Machado das conversações bilaterais entre os países.
3.
A opção americana passou a ser negociar a inserção de suas empresas na economia venezuelana e, em particular, no setor petrolífero, às custas das fatias de mercado da chamada boliburguesía (como indica a priorização de Alex Saab como alvo da ofensiva americana) e do próprio Estado venezuelano, como se observa nos rumos da indústria petroleira, em tratativas conduzidas diretamente com o governo chavista.
Isso evidencia não apenas a fortaleza e resiliência da popularidade do governo junto a expressivos setores populares, mas também o receio americano diante dos possíveis desdobramentos de um cenário que poderia vir a se tornar o seu “novo Vietnã”, ou, mais precisamente, seu “Vietnã latino-americano”.
Na Colômbia e no Brasil, Gustavo Petro e Lula demonstram força diante das tentativas de desestabilização às quais foram submetidos ao longo de seus governos, mantendo boas perspectivas para os vindouros processos eleitorais deste ano. No caso de Lula, o fracasso das sucessivas ondas de ataques da extrema-direita – desde o 8 de janeiro de 2023, na tentativa de golpe de Estado; passando pelos conflitos com Elon Musk e o X; até o fracassado “tarifaço” de Donald Trump – contribuiu para seu fortalecimento político e para a elevação de sua popularidade e desempenho nas pesquisas eleitorais.
Nesse sentido, não é por acaso que, na contramão da “ofensiva generalizada” de períodos anteriores, a Casa Branca tem, em certos casos, matizado seus cálculos e buscado até mesmo um modus vivendi com governos progressistas em determinadas situações. Ainda assim, isso responde muito mais às derrotas conjunturais e ao fracasso de suas ofensivas em cenários específicos do que a uma mudança estrutural de orientação. Diante do quadro geral da América Latina, é razoável supor que os próximos processos eleitorais nesses dois países serão marcados por elevado grau de instabilidade e tensões.
A grande ironia desse cenário reside no fato de que, no centro das justificativas americanas, está a suposta necessidade de afastar a influência alegadamente nociva de potências “não-hemisféricas”, em particular da China, sob o pretexto de defender a soberania e a segurança regional. No entanto, não é a China que impõe aos países latino-americanos acordos de cooperação econômica ou vínculos políticos: tais relações são estabelecidas soberanamente por ambas as partes e não se dirigem contra terceiros nem excluem a cooperação com outros países.
4.
Enquanto os Estados Unidos mantêm há décadas o bloqueio econômico criminoso contra Cuba, recentemente intensificado, a China se antecipou em fornecer ao país e ao seu povo apoio inabalável, enviando 60 mil toneladas de arroz e US$ 80 milhões em ajuda emergencial, um gesto significativo de solidariedade destinado a mitigar a escassez de alimentos provocada pela crise energética.
Da mesma forma, enquanto a Venezuela é há anos asfixiada por centenas das mais diversas e ilegais sanções, a China consolidou-se, com ampla margem, como seu principal parceiro comercial, fornecendo cooperação em diversas áreas e concedendo empréstimos em larga escala, sem impor pressões ou condicionalidades políticas.
A China não estabelece restrições ao aprofundamento de vínculos com governos independentemente de sua orientação ideológica, como demonstra sua busca por manter estabilidade nas relações inclusive com países latino-americanos governados por lideranças conservadores.
Quem, de fato, tem exercido violações de soberanias nacionais, promovido ações extralegais, imposto pressões diplomáticas e sanções e adotado estratégias de asfixiamento e retaliação contra governos de orientação distinta são os próprios Estados Unidos. Nesse contexto, torna-se no mínimo irônico – para não dizer trágico – o conjunto de narrativas que acusam obras de infraestrutura e a presença de empresas chinesas na região de suposto “uso dual” ou de objetivos geopolíticos voltados à violação da soberania nacional.
Ainda mais problemática é a narrativa, amplamente difundida na grande mídia e em certos círculos acadêmicos, que enquadra esse processo como uma simples “disputa geopolítica” entre “grandes potências” na América Latina, uma interpretação profundamente desconectada da realidade.
O que se observa, em essência, é a persistência do hegemonismo imperialista dos Estados Unidos, voltado não apenas a conter a presença econômica chinesa, mas, sobretudo, a limitar a autonomia dos povos latino-americanos na definição de seus próprios destinos e na busca por alternativas que lhes permitam alcançar o desenvolvimento econômico e social de que tanto necessitam.
Nessa caminhada, a China não é uma “ameaça”, mas uma parceira que, na condição de país em desenvolvimento, tem um amplo lastro histórico de enfrentamento às injustiças e assimetrias da ordem internacional regida pelos interesses financeiros de um punhado das elites norte-atlânticas.
No histórico das relações entre os Estados Unidos e os países da América Latina e do Caribe, o direcionamento de esforços contra a parceria destes com a China insere-se em uma longa tradição de sabotagem a projetos de cooperação com terceiros, conduzida em nome dos interesses imperiais.
Na década de 1970, os ianques foram incapazes de tolerar nem sequer o acordo nuclear entre dois de seus principais aliados ocidentais: a criminosa ditadura militar brasileira e o governo da República Federal da Alemanha. Sob forte pressão americana, o acordo foi progressivamente esvaziado, com bloqueios à transferência de tecnologia estratégica e a imposição de restrições financeiras e políticas que impediram sua plena execução e obstaculizaram os objetivos de desenvolvimento brasileiros à época.
O “corolário Trump” da Doutrina Monroe não é, portanto, mais do que a atualização das diretrizes que há tempos são exercidas pelos Estados Unidos no contexto hemisférico: América para os americanos, mas só para os que se submeterem aos interesses da plutocracia estadunidense. Chineses e latino-americanos não constituem polos de um suposto triângulo de “disputa geopolítica”, mas sim alvos indiscriminados daqueles que pretendem perpetuar as assimetrias e preservar uma ordem internacional pautada pelo hegemonismo e unilateralismo das potências imperialistas.
Ao aderirem à cruzada anti-China, parte das burguesias latino-americanas não fazem mais do que atentar contra os próprios interesses e soberania de seus povos, em nome de causas que não são nem nunca serão suas, e que estão fadadas a, cedo ou mais tarde, serem derrotadas pela luta inabalável em prol da construção de uma comunidade de futuro comum para a humanidade.
*Tiago Nogara é professor da Universidade de Nankai.
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