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Água: o enganoso mito da Escassez

Diante do risco de crise hídrica em SP, diretor da Sabesp alega que empresa “não fabrica” o líquido. Por que a frase é apenas uma meia verdade? O que ela tenta esconder sobre as responsabilidades da companhia, abandonada no pós-privatização pela busca do lucro máximo?


De Outras Palavras, 20 de fevereiro 2026
Por Hugo Oliveira


Foto: Agência Brasil

Recentemente, uma declaração do diretor regional da Sabesp, Marco Barros, ecoou como um lembrete incômodo da visão limitada que ainda domina o setor de saneamento: “Nós não fabricamos a água, a gente trata a água”. À primeira vista, a frase parece um raciocínio lógico inquestionável — afinal, a ciência ainda não sintetiza H²O em escala industrial. No entanto, sob a ótica da gestão pública e ambiental, essa afirmação é uma perigosa meia-verdade que mascara a omissão institucional frente à segurança hídrica.

Se é verdade que não “fabricamos” moléculas, é igualmente verdade que uma concessionária moderna tem o dever de “produzir” disponibilidade hídrica. Isso se faz com infraestrutura verde. Quando uma empresa negligencia o reflorestamento de nascentes e a recuperação de matas ciliares, ela está, por omissão, destruindo sua própria matéria-prima.

As florestas funcionam como a “linha de montagem” da água: elas garantem a infiltração da chuva no solo, alimentam os lençóis freáticos e mantêm a vazão dos rios em períodos de seca. Sem o verde, a chuva que cai sobre o Sistema Cantareira escorre rapidamente, carregando sedimentos que assoreiam os reservatórios e elevam os custos de tratamento. Dizer que “dependemos das chuvas” sem investir na capacidade do solo de retê-las é como um administrador de estoque que culpa a fábrica pela falta de produtos, enquanto deixa as portas do armazém escancaradas para o desperdício.

O Ralo da Privatização

A falha na “fabricação” de água torna-se ainda mais grave quando olhamos para as redes de distribuição. A eficiência é a forma mais barata e rápida de gerar água nova no sistema. Contudo, o que se observa na era da gestão privada da Sabesp é uma contradição alarmante entre lucros recordes e indicadores operacionais decadentes.

Dados recentes apontam que, no primeiro ano após a desestatização, a retirada de água dos reservatórios aumentou cerca de 10% (de 66 m³/s para 72 m³/s), um salto que não encontra justificativa no crescimento populacional ou na expansão da rede. O que esses números sugerem é um aumento drástico nas perdas físicas. Enquanto a companhia celebrou um lucro líquido de R$ 1,96 bilhão apenas no segundo trimestre de 2025, quase um terço de toda a água tratada (cerca de 29,4%) se perde em vazamentos antes de chegar ao consumidor.

Essa ineficiência tem raízes claras. A substituição de quadros técnicos experientes por mão de obra terceirizada e menos remunerada — uma estratégia comum para inflar dividendos a curto prazo — resulta em uma resposta lenta a rompimentos de adutoras e manutenções preventivas falhas.
A responsabilidade além do lucro

Uma concessionária de saneamento não pode se comportar como uma mera revendedora de um recurso finito. Ela deve ser a guardiã do ciclo hidrológico. Isso exige:

Investimento em Natureza: Reflorestar nascentes não é “custo ambiental”, é investimento em produção de água.

Blindagem Sanitária: Evitar a contaminação dos mananciais para que o tratamento seja uma etapa de segurança, não um milagre químico sobre água morta.

Zelo Operacional: É eticamente inaceitável pedir economia ao cidadão enquanto a empresa permite que bilhões de litros escorram pelo asfalto devido à falta de manutenção.

A água não cai do céu apenas como chuva; ela emerge da terra que é bem cuidada e chega às torneiras através de canos que não vazam. Enquanto a gestão focar apenas no balanço financeiro e na “dança da chuva”, continuaremos reféns de crises que poderiam ser evitadas. A Sabesp pode não fabricar a água, mas tem total responsabilidade sobre o fato de ela estar desaparecendo.

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