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A Escola de Campinas

Do A Terra É Redonda, 9 de fevereiro 2026
Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*


A abordagem heterodoxa da Escola de Campinas, com seu projeto desenvolvimentista e crítico à financeirização, enfrenta a hostilidade do mercado e da mídia neoliberal

1.
Quais são as características de economistas heterodoxos ou social-desenvolvimentistas com pós-graduação no Instituto de Economia da Unicamp, pelas quais são discriminados pela imprensa neoliberal do jornalismo econômico brasileiro? Por quais razões os operadores do mercado financeiro os atacam quando alguém deles é indicado para um cargo de diretor do Banco Central do Brasil?

As respostas a essas questões discriminatórias devem ser apresentadas em duas partes: (i) características intelectuais e programáticas desse grupo; (ii) razão dos ataques – ideológicos, epistemológicos e político-institucionais.

O Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas é um centro acadêmico com tradição em abordagens heterodoxas em economia. Isso não significa um “grupo monolítico”, mas uma orientação plural dentro da heterodoxia – com ênfases em especificidade da economia brasileira dentro da tradição cepalina latino-americana, abordagem estruturalista, economia política marxista, economia pós-keynesiana crítica, economia comportamental, economia institucionalista, economia evolucionária, econofísica, etc.

Adota como temas de pesquisa a desigualdade, as instituições brasileiras e o desenvolvimento socioeconômico brasileiro. Algumas características analíticas e programáticas, claramente, distinguem esse grupo da maioria dos cursos ortodoxos com o neoliberal tecnicismo dominante.

Primeiro é o enfoque sistêmico e histórico. A economia (atividade) não é vista como um conjunto de agentes egoístas em equilíbrio estático, mas como processo dinâmico, histórico e estrutural, no qual instituições, estruturas produtivas e assimetrias de poder importam.

Criticam, em consequência, modelos econômicos puros com abstração das relações sociais concretas e da evolução institucional das economias. São derivados do método dedutivo-racional de pensamento econômico a partir da economia norte-americana hegemônica inclusive em colonizar “corações e mentes” ortodoxas.

A Escola de Campinas é crítica ao paradigma neoclássico e suas restrições. Seus adeptos, inclusive espalhados em diversos outros centros de pensamento heterodoxo, questionam a ideia de mercados tenderem à eficiência e preços serem sempre “sinais perfeitos” para alocação de capital. Criticam seus três pilares básicos: premissa da racionalidade dos agentes econômicos, individualismo metodológico e informações perfeitas para o equilíbrio geral.

2.
Economistas formados na Unicamp reconhecem falhas de mercado relevantes, mas também falhas de Estado e a necessidade de instituições públicas ativas para promover desenvolvimento econômico e social.

Defendem o papel ativo do Estado como formulador de políticas industriais, de inovação, de crédito, de mudança estrutural produtiva e de redução de desigualdades. Isso inclui políticas fiscais, regulatórias e de fomento sem ilusão de serem politicamente “neutras” e necessariamente ortodoxas. Por exemplo, as atuações do Estado e de seus bancos públicos devem ser contracíclicas em recessões.

Fazem uma integração da perspectiva social e distributiva. O crescimento econômico não é um fim em si mesmo, mas meio para elevar bem-estar, reduzir desigualdades e promover inclusão social. Isso contrasta com leituras ortodoxas por apenas priorizarem agregados macroeconômicos (PIB, inflação, dívida pública), descolados de distribuição de renda e geração de empregos.

No Instituto de Economia da Unicamp, mantém-se a tradição de escolas latino-americanas (CEPAL, estruturalismo, Teoria da Dependência etc.), mas a supera, inclusive por isso tem o reconhecimento de sua importância registrada por renomados economistas estrangeiros. São inúmeros visitantes com formação marxista/keynesiana e outras consideradas heterodoxas, todos defensores da centralidade da estrutura produtiva, para gerar renda para a população mais pobre, combater desigualdades e defender a interdependência global com o multilateralismo.

Essa perspectiva com a análise de condições concretas de países semiperiféricos se contrapõe às leituras universalizantes de mercados perfeitos, doutrinadas nos Estados Unidos. A Escola de Campinas faz uma abordagem holista da complexidade sistêmica.

Segue uma metodologia plural e interdisciplinar. Ao invés de restrição metodológica ao dedutivo-racional com livre-mercado, para a pretensa obtenção de equilíbrio geral, na Unicamp se usa o método histórico-indutivo e se valoriza abordagens qualitativas e quantitativas de séries históricas e interpretação crítica de dados com análise institucionalista.

Em suma, trata-se de uma abordagem questionadora dos pressupostos ideológicos e técnicos centrais do mainstream de raiz neoclássica e seus derivados, seja o monetarismo, seja o novoclassicismo. Reivindica a centralidade das estruturas sociais e de poder na análise econômica – e não se restringe ao plano abstrato de economia pura. Baixamos o nível de abstração para economia aplicada no sentido de instruir a tomada das melhores decisões práticas, tanto em política econômica, quanto em decisões financeiras individuais.

3.
Por tudo isso, fica claro porque a imprensa econômica neoliberal e operadores do mercado financeiro criticam ou atacam esse perfil profissional adequado ao Brasil – e não doutrinado nos Estados Unidos.

A imprensa econômica de orientação neoliberal, por exemplo, colunistas exclusivos de um debate plural, e praticamente todas as seções de Economia na grande (sic) imprensa brasileira (além de portais financeiros) adotam, descaradamente, somente as derivações dos citados pressupostos neoclássicos. Defendem mercado competitivo ótimo, política monetária com “juros nas alturas” como necessária para “confiança de O Mercado”, Estado mínimo indiferente à população pobre ser o ideologicamente desejável.

Em conflito de paradigma econômico, economistas heterodoxos desafiam essas premissas. Isso cria um terreno de disputa epistemológica e valorativa: não é mera diferença técnica, mas diferença de visão sobre o papel do Estado, prioridades sociais e interpretação de evidências.

Tanto a linguagem quanto a narrativa são divergentes. A imprensa neoliberal tende a traduzir debates econômicos em termos de “confiança dos mercados”, “risco Brasil”, “rating”, “regras fiscais rígidas”, “expectativas desancoradas” etc.

Economistas heterodoxos criticam conceitos como “confiança dos investidores”, quando usados como fetiche heurístico, sem nenhuma crítica às relações de poder subjacentes. Dão maior peso ao nível da taxa de emprego, crescimento da renda e ampliação das capacidades produtivas. Isso não se encaixa bem em narrativas dominantes porque veem mercados financeiros como árbitros neutros da política econômica.

Consideram uma ameaça percebida às “regras do jogo” preferidas do capital financeiro. Operadores financeiros e colunistas próximos da “ideologia da Faria Lima” temem duas coisas quando alguém com perfil heterodoxo é indicado a cargos como diretor do Banco Central.

Primeiro, receiam a política monetária perder o foco exclusivo no controle da inflação. Muitos heterodoxos defendem visão mais ampla da estabilidade econômica, incluindo emprego e crescimento, e criticam o dogma de metas rígidas de inflação com juros altos como único instrumento. Mercado financeiro vê juros altos como premissa central de rentabilidade de títulos e custo de oportunidade.

4.
Segundo, têm pavor de o Banco Central atuar de forma menos “independente” no sentido neoliberal. Para muitos operadores, a “independência”, na prática, alinhada com metas de inflação irrealista e alta taxa de juros, é um pilar de previsibilidade de mercados, isto é, ganho fácil de renda passiva. Uma visão mais democraticamente responsável e integrada com outras metas de desenvolvimento pode ser vista como risco de “politização” ou de gestão menos ortodoxa.

Daí o uso de termos pejorativos como arma retórica. A imprensa neoliberal frequentemente traduz diferenças de visão em adjetivos negativos: “intervencionista” é equivalente a desorganizado/ineficiente; “heterodoxo” é sinônimo de não ortodoxo, imprevisível ou arriscado; “populista” é carregado de conotação de demagogia política em favor dos mais pobres. Isso molda a percepção pública e política, favorecendo uma agenda pró-mercado financista.

Portanto, são usuais as reações negativas dos agentes financeiros no mercado, quando algum nome com esse perfil é cogitado para o Banco Central ou Ministério da Fazenda. Os operadores financeiros podem reagir com vendas de ativos, aumento de volatilidade ou apostas em juros mais altos no curto prazo, não necessariamente por convicção técnica, mas por avaliação de risco maior segundo a mentalidade de mercado. Usam a mídia como canal para expressar desconfiança e influenciar formuladores de política e opinião pública.

Resumo Sintetizado

DimensãoEconomia Heterodoxa
IE-UNICAMP
Pressupostos Neoliberais / Market Friendly
Papel do EstadoAtivo, estruturante, distributivoReduzido, regulador mínimo
Política monetáriaMultiobjetivos: inflação, emprego, crescimentoFoco exclusivo na inflação
MercadoImperfeições e poderMercado como ótimo
DesenvolvimentoEstrutural, históricoAjuste via preços/mercados
NarrativaInclusão social, contingência histórica“Confiança dos mercados”
Enfim, as críticas da imprensa neoliberal e os ataques de operadores financeiros decorrem dessa incompatibilidade de pressupostos, interesses e narrativas – e não são apenas resultantes de divergências técnicas superficiais. Tenha dó!

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dKtBb

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