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Xadrez do Master, a maior crise institucional da história do mercado, por Luís Nassif

Percebendo a criação do esquema Ponzi, o Banco Central limitou a captação do Master a 100% do CDI, o que paralisou o crescimento do banco


Do GGN, 11 de janeiro 2026
Por Luis Nassif


Resumo da notícia ​

Duas “notícias de fatos”​ foram protocoladas pelo Banco Central junto ao Ministério Público Federal em relação ao caso Banco Master.

A primeira foi protocolada formalmente no meio de 2025, referente a crimes ocorridos entre final de 2024 e início de 2025. A segunda foi protocolada em novembro de 2025, sobre crimes de 2023 a 2024.

Nos próximos dias, haverá novas notícias de fato, já em andamento.

O mapeamento do esquema Master identificou os seguintes movimentos:

1. O Esquema de Sangria (2023-2024)

O banco utilizou uma triangulação para desviar aproximadamente R$ 11,5 bilhões:

O que o Master fazia emprestar dinheiro para uma empresa, 500 milhões de reais. Essa empresa aplicava os 500 milhões de reais em um fundo da REAG. Na verdade, pagava 10 milhões de IOF e aplicava o restante no fundo.

Quando olhava-se para o balanço da empresa, estava aparentemente correto. Ela tinha 500 milhões de dívida e 500 milhões em investimento, em ativos.

Mas quando o dinheiro entrava no fundo da REAG, saía do controle do BC e passava a depender da fiscalização da CVM. O BC não tinha como enxergar o que havia no fundo. E o fundo usava o dinheiro para comprar ativos sem valor real (como “cártulas do BESC”) por preços exorbitantes. Por exemplo, o fundo comprava por R$ 500 milhões algo que valia R$ 10 milhões.

O BC identificou seis fundos administrados pela REAG (Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Olaf 95, Maia 95 e Anna) com patrimônio total de R$ 102,4 bilhões, suspeitos de participarem de um esquema de lavagem de aproximadamente R$ 11,5 bilhões.

O vendedor do ativo (um laranja) ficava com o lucro, que circulava por outros fundos até chegar aos beneficiários finais.

Ia pingando de fundo em fundo, parando sempre nos mesmos fundos dos mesmos laranjas. Esse esquema sangrou o Master em 11,5 bilhões entre 2023 e 2024.

2. A Pirâmide de Liquidez (Esquema Ponzi)

A lógica bancária consiste em captar depósitos a um determinado custo e emprestar a um custo maior, embutindo o spread do banco.

Para manter o fluxo de caixa enquanto o dinheiro era desviado:O banco oferecia carências longas (3 a 5 anos) nos empréstimos para adiar a percepção de inadimplência.
Captava novos investimentos via CDB para pagar os investidores antigos, caracterizando uma pirâmide financeira. Chegou a oferecer CDBs por 140% do CDI. Seria praticamente impossível encontrar tomador de empréstimo disposto a pagar 150% ou 160% do CDI.
Veio a crise de 2024, a credibilidade caiu, a captação secou e o banco perdeu a capacidade de pagar os vencimentos.

3. A Fraude da “Tirreno” e o BRB (Final de 2024-2025)

Desesperado por liquidez, o banco tentou uma “transfusão de sangue”:

Usou a a empresa Tirreno (gerida por um ex-funcionário) para simular a venda de uma carteira de crédito de R$ 6 bilhões ao Master. O Master não pagava a Tirreno, criando apenas um registro contábil. A Tirreno “vendia”, o Master reconhecia, mas não pagava. Criava ativo fictício, que só existia contabilmente.

Análise do Banco Central de 30 CPFs aleatórios dessa carteira revelou que nenhuma das operações de crédito existiu – não houve movimentação financeira correspondente.

Em seguida, o Master revendeu essa mesma carteira ao BRB por R$ 12 bilhões, manipulando a taxa de juros (de 4% para 2% ao mês) para dobrar o valor nominal do ativo. (Aqui entra um toque de matemática financeira que deixarei para explicar em outra oportunidade).

Na sequência, houve a proposta para o BRB comprar o Master. O objetivo era fundir os balanços para esconder a fraude e usar a capacidade de captação do BRB (banco público) para continuar o esquema. A bomba explodiria algum tempo depois nas costas dos contribuintes.

No início de 2025, reduziu de 140% para cerca de 110-114% em alguns prazos após anúncio de aquisição pelo BRB.

4. Intervenção e Colapso

Percebendo a criação do esquema Ponzi, o Banco Central limitou a captação do Master a 100% do CDI, o que paralisou o crescimento do banco (em 2025, captou apenas R$ 90 milhões contra um passivo bilionário).

Desde abril de 2025, o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) passou a pagar os CDBs vencidos do Master através de uma linha emergencial.

O controlador teve que vender ativos pessoais (Hotéis Fasano, aviões, lanchas) para tentar aportar capital, até que tentou usar dinheiro dos fundos administrados por laranjas, o que foi barrado pelo BC.

O banco foi liquidado quando não tinha caixa para pagar nem 15% dos vencimentos da semana.

5. O Componente Político e Institucional

Trata-se de uma crise institucional sem precedentes.

Usa-se a expressão “to be, to fail” para caracterizar instituições muito grandes, cuja quebra pode significar um risco sistêmico. No BC a expressão utilizada é “too big to fail da corrupção”. O banco não era um risco para o sistema financeiro (apenas 0,5% dos ativos), mas um risco sistêmico para as instituições, pois teria “comprado” influência no Senado, Câmara, TCU e agências de risco.

Essa foi a razão do BC ter demorado para agir, segundo se alega internamente.

A liquidação gerou uma crise institucional sem precedentes, com o STF, TCU e Congresso questionando simultaneamente decisões técnicas do Banco Central.

Há controvérsias sobre a cronologia – documentos mostram negociações prolongadas entre BC, Master e BRB, com o BC impondo condições crescentemente restritivas antes de vetar a operação em setembro de 2025. A alegação era que a rede de influência do Master não permitiria nenhum passo em falso.

Questiona-se como agências como a Fitch elevaram a nota do banco e como uma Big Four (KPMG/PwC) auditou os balanços sem apontar as fraudes.

Do lado dos advogados do Master, provavelmente a linha de argumentação será a de que fio a interrupção da venda de ativos dos fundos que levou à queda da instituição.

Há muito jogo pela frente. Mas o caso Master entrará pela história como o capítulo maior da degradação institucional do país.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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