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Trump, urso ou touro?

Não é urso nem touro. É o gatilho. E, enquanto permanecer no cargo, continuará usando a política externa como instrumento de manipulação



Criação ChatGPT

Do GGN, 27 de janeiro 2026
Por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva


Resumo da notícia ​

O mercado a descoberto permite lucrar na alta e na queda; operadores grandes manipulam reversões sem liquidar posições.
Trump usa ameaças para provocar volatilidade; recua conforme reação dos mercados e pressão de seus financiadores.
Sua política externa funciona como instrumento especulativo global, calibrado pela oscilação dos índices financeiros.

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O mercado a descoberto permite que um mesmo operador lucre tanto na queda quanto na alta de um ativo. O urso vende quantidades crescentes de um ativo, que ele não tem, a descoberto para provocar e acelerar a desvalorização. Isso acontece porque ele tem credibilidade na praça e ninguém exige a entrega imediata do ativo. Quando a queda perde força, ele compra tudo na bacia das almas e entrega aos compradores. Isso se chama “liquidar a posição”. No instante seguinte, torna-se touro. Compra também a descoberto, agora para provocar e sustentar a alta, e vende quando o preço der sinais de exaustão. Só então liquida a posição. Como urso, ele ganhou porque vendeu na alta e comprou na baixa; como touro, porque comprou na baixa e vendeu na alta. Operadores menores precisam liquidar posições entre um movimento e outro, mas um big dealer tem crédito suficiente para atuar simultaneamente nas duas pontas, manipulando pontos de reversão sem a necessidade de liquidação intermediária. Assim, o mesmo agente provoca a queda, provoca a alta e ganha nas duas direções. Se um agente privado consegue balançar o mercado, imagine o que um país é capaz de fazer na figura de seu presidente, construindo factoides com dimensões mundiais.

Essa lógica orienta, desde os anos 1990, os ataques especulativos que Ivã Sant’Ana descreve em Armadilha para M’Kamba. George Soros tornou-se símbolo desse período após enfrentar o Banco da Inglaterra em 1992, mas aquela operação é apenas a mais conhecida entre muitas. Em seu escritório em Nova York, equipes inteiras arquitetavam ataques coordenados contra moedas vulneráveis. Entre os operadores estava o economista brasileiro Armínio Fraga, empregado direto de Soros. Atuam no México, no episódio que o mundo batizou de efeito-tequila, na Argentina, na Coreia do Sul e no Brasil. Soros não precisava adivinhar nada: bastava verificar o nível de reservas. Reservas baixas convidam ao ataque; reservas altas desencorajam riscos. No Brasil, a ofensiva perdeu força porque, desde o Plano Real, a taxa de juros permanece tão elevada que torna inviável sustentar grandes posições vendidas.

Esse pano de fundo é fundamental para compreender o comportamento de Donald Trump na política externa. Ele não precisa de operadores para provocar volatilidade. Basta uma frase. Muito antes de chegar à política, construiu um personagem baseado na intimidação. No programa O Aprendiz, que esteve no ar durante anos, sua figura pública se moldava no gesto brusco e teatral de demitir. Essa persona o acompanha até hoje e orienta a maneira como ele se apresenta ao mundo. Ele nunca vendeu moderação, nunca prometeu prudência. Prometeu exatamente o contrário.

Apesar disso, Trump afirmou à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que recua “por consciência” quando uma crise internacional ameaça sair de controle. A afirmação não dialoga com sua trajetória. O que se observa, olhando para os fatos, é que os recuos seguem outra lógica: a reação imediata dos mercados financeiros. Quando Trump ameaça a China, a Bolsa de Nova York cai. Os ursos entram em ação. Quando a queda atinge o ponto crítico e ameaça os interesses daqueles que financiam sua permanência no cargo, Trump recua. Quando o recuo estimula a entrada dos touros, ele volta a adotar o discurso de força.

O mesmo padrão se repete quando insinua que os Estados Unidos poderiam tomar a Groenlândia à força. A bravata derruba os índices. O silêncio posterior os levanta. E esse movimento não é exceção, mas rotina. Trump continua a operar dessa maneira: ameaça, observa a reação da bolsa, recua ou avança conforme a oscilação dos índices e a pressão de seus financiadores. É um ciclo que se repete quase mecanicamente.

Trump equilibra duas máscaras. A pública, destinada ao eleitorado, pede agressividade contínua, a figura do homem imprevisível, quase caricatural, à imagem do pirata da perna de pau, do olho de vidro, da cara de mau[1]. A máscara real, voltada aos financiadores, exige recuos imediatos sempre que o mercado dá sinais de prejuízo. Seus limites não são diplomáticos nem institucionais. São financeiros. Ele continua recorrendo ao mesmo procedimento porque continua dependente do mesmo grupo de sustentação econômica.

É nesse ponto que a comparação com os ataques especulativos se torna inevitável. Assim como Soros verificava reservas antes de atacar, Trump verifica a curva do S&P 500 antes de avançar ou recuar. Soros atuava contra bancos centrais vulneráveis. Trump atua contra o mundo inteiro, com um microfone que produz volatilidade global instantânea. Não é urso nem touro. É o gatilho. E, enquanto permanecer no cargo, continuará usando a política externa como instrumento de manipulação de expectativas e como meio de satisfazer quem financia sua permanência no poder.

Essa é a chave que Jeffrey Sachs revela: a corrupção do governo Trump não está na exceção, mas no método. Não está no gesto individual, mas na estrutura. Trump não recua porque pensa nas consequências. Recuar é parte do espetáculo, calibrado pelos mercados. Avançar também. Ele transforma o planeta em cenário e usa o cargo para reproduzir, em escala global, o mesmo mecanismo especulativo que Soros e seus operadores empregaram nos anos 1990. Trump reproduz em escala épica o que Bolsonaro fazia de dentro do cercadinho.

[1] Marchinha de Carlos Alberto Ferreira Braga, também conhecido como Braguinha ou João de Barro, para o carnaval de 1947.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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