Do IHU, 8 de janeiro 2026
Por Javier Biosca Azcoiti e Camilo Sánchez, publicada por El Diario, 07-01-2025.
O candidato da esquerda na Colômbia para suceder o presidente Gustavo Petro denuncia a agressão ilegal dos EUA à Venezuela e alerta para o perigo do trumpismo: “Quando o nazismo surgiu, ninguém acreditava que seria o que foi. As piores coisas acontecem com a incredulidade das pessoas, precisamente porque são muito graves.”
Iván Cepeda, candidato da esquerda governista e líder nas pesquisas para as eleições presidenciais de maio na Colômbia, é um político de temperamento sereno e fala pausada. No Congresso — onde ocupou uma cadeira por quatro vezes consecutivas —, liderou a defesa das vítimas das violações ocorridas durante o conflito armado no país latino-americano. Considerado por alguns analistas como o interlocutor ideal para reunir as dispersas bases eleitorais do progressismo, este bogotano de 63 anos venceu as primárias da coalizão Pacto Histórico para receber o bastão do atual presidente, Gustavo Petro.
No momento, ele anunciou que, devido aos níveis de polarização na disputa, não comparecerá a debates. No entanto, atendeu ao elDiario.es em Madri, onde fez uma escala para apresentar sua candidatura e denunciar a agressão ilegal dos EUA à Venezuela, apesar de seu governo não ter reconhecido os resultados oficiais das eleições presidenciais de 2024 que deram a vitória a Nicolás Maduro. “A Colômbia não é uma colônia nem um protetorado dos EUA”, dizia claramente na entrevista coletiva anterior à entrevista. “Fazemos um chamado de alerta de que os EUA estão tentando influenciar nossas eleições. Buscam influenciar a opinião pública rotulando nosso presidente como narcotraficante.”
Cepeda Castro acredita que a Europa e a América Latina vivem um momento decisivo em que é necessário estar consciente do perigo que Trump representa. “Quando o nazismo surgiu, ninguém acreditava que seria o que foi. As piores coisas acontecem com a incredulidade das pessoas precisamente porque são muito graves.”
A entrevista é de Javier Biosca Azcoiti e Camilo Sánchez, publicada por El Diario, 07-01-2025.
Eis a entrevista.
Uma primeira pergunta inevitável: qual é a sua análise da agressão estadunidense à Venezuela e sua interpretação da visão trumpista na política externa para a América Latina?
É muito importante entender o que estamos enfrentando. Um problema não pode ser abordado se não houver uma compreensão clara de qual dimensão ele tem, quão profundo é e quais são suas consequências. Dessa perspectiva, não é correto entender cada um dos fatos e eventos que viemos constatando ao longo deste segundo período de Donald Trump como se fossem fatos simplesmente desconexos, que provêm de estados de espírito ou que são simplesmente o resultado de uma política desordenada e caótica. Trump não é um homem desequilibrado e lunático, mas sim a expressão de uma realidade política.
Estamos falando de uma estratégia. Felizmente, já a temos escrita para que possamos tirar as conclusões necessárias. Essa estratégia tem uma característica muito clara: é a entronização de um modelo totalitário, eu diria neofascista, de compreensão do hemisfério ocidental, entre outras coisas.
Quando assumi esta responsabilidade — porque eu era relutante em ser candidato presidencial —, tive que me sentar para pensar no que isso significa. Ou seja, pensando inclusive nos cenários mais catastróficos que podem vir de uma intervenção militar ou de uma ação interna de golpe de Estado.
Acredita que um retorno tão grosseiro ao expansionismo ou imperialismo estadunidense pode ter algum efeito, não mais na esquerda, mas naqueles setores que não são tão ideologizados?
Quando o nazismo surgiu, ninguém acreditava que seria o que foi. As piores coisas acontecem com a incredulidade das pessoas precisamente porque são tão graves. Então, eu espero que se entenda que não são palavras, não são declarações e não são reações anímicas. É uma política que está em execução e todos devem entendê-lo, não apenas a esquerda nem os setores com um mínimo sentido de dignidade nacional. Esse caminho leva ao desastre — desastre econômico, político e social —, portanto é nosso dever nos opormos a isso.
Vimos de um período de fortes tensões entre a Colômbia e os Estados Unidos após anos de uma aliança que parecia inquebrável. Como o senhor abordará essa relação com Washington e a Casa Branca caso essa política externa continue?
Se eu chegar a ser chefe de Estado, meu primeiro dever é cumprir a Constituição, e nossa Constituição é muito clara: a Colômbia é uma nação soberana. Farei respeitar sua soberania. A Colômbia é uma nação que é a favor da integração latino-americana, que obedece ao princípio de respeito pela soberania de outros povos e, é claro, que cultiva relações de cooperação, de bom entendimento e de colaboração entre as nações. Agora, esses são os princípios, mas teremos que ver as realidades com as quais nos depararemos. Se houver uma tentativa de intervenção militar na Colômbia, terei que tomar as decisões correspondentes a essas circunstâncias.
O senhor recebeu por parte do governo Trump algum ataque ou teme ser atacado durante a campanha, tal como foi o atual presidente, Gustavo Petro?
Com o secretário [de Estado, Marco Rubio], já houve episódios, especialmente quando se desenvolveu o processo judicial contra Álvaro Uribe Vélez. Um processo no qual eu tive o papel de vítima, e o presidente Trump e o secretário Rubio fizeram declarações claramente intervencionistas a favor do ex-presidente, contra a Justiça e classificando esse julgamento como uma espécie de atentado ou armação judicial contra ele [Cepeda iniciou uma ação contra Uribe, que foi condenado em primeira instância, posteriormente absolvido e agora o caso enfrenta seu último recurso].
É curioso como a extrema-direita, que faz uma defesa tão firme da soberania das nações, está agora aplaudindo, de certa forma, uma intervenção ilegal em outro país. O que o senhor pensa disso e como a oposição na Colômbia tem se posicionado?
Temos ouvido vozes tentando propiciar uma intervenção na Colômbia, começando pela do próprio ex-presidente Álvaro Uribe, que nesta mesma quarta-feira disse que é necessária uma mudança de governo o mais rápido possível. Ou seja, não através das eleições.
O governo de Petro não reconheceu os resultados oficiais de 2024 que deram a vitória a Maduro na Venezuela. Como o senhor abordaria essa relação bilateral e a crise política e humanitária na Venezuela?
Neste momento, se é a isso que nos referimos, é preciso buscar uma solução incruenta, política e diplomática. Essa tem sido a convicção do meu governo. Foram feitos esforços múltiplos nesse sentido para encontrar um diálogo entre a oposição e o governo, ou o que se chama de chavismo. Creio que meu governo deve dar continuidade a esses esforços, certamente.
Mas até agora não tiveram resultados.
Sim, é verdade, mas nessas questões de diálogos — e quem diz isso é uma pessoa que esteve 15 anos sentada em mesas de negociação —, é preciso ser perseverante.
Como o senhor responderia diante de uma ingerência estadunidense nas eleições da Colômbia claramente contra a sua candidatura?
Pois através, obviamente, de reações políticas. E uma reflexão sobre isso: é muito equivocada a ideia de que agredir minha candidatura, como tem feito a extrema-direita colombiana, conseguirá enfraquecê-la. Pelo contrário, o que tenho visto é que aumenta o nível de simpatia e o fortalecimento. As mentiras, as manipulações, as distorções de quem somos e do que queremos fazer tornam-se muito evidentes. Tentar me apresentar como uma espécie de porta-voz das organizações armadas é um gravíssimo equívoco, e os setores de extrema-direita já perceberam isso.
Teme que a Colômbia pudesse ser o próximo objetivo dos Estados Unidos caso o resultado eleitoral não fosse favorável para o governo Trump?
Na medida em que isso afeta meu povo e afetará a região, certamente. Mas mais do que temor, minha posição é totalmente firme: faremos todo o necessário para evitá-lo e buscaremos todas as alianças e processos políticos que o evitem. Mas obviamente, quando assumi esta responsabilidade — porque eu era relutante em ser candidato presidencial e foi um processo no qual recebi solicitações e exigências dos movimentos sociais com os quais tenho uma relação muito estreita, quase orgânica —, tive que me sentar para pensar no que isso significa. Ou seja, pensando inclusive nos cenários mais catastróficos que podem vir de uma intervenção militar ou de uma ação interna de golpe de Estado.
Como caracterizaria o tipo de esquerda que representa para dar contexto a um analista europeu?
Nossa história é a de uma série de correntes políticas que foram se identificando em torno de propósitos muito claros. Queremos fazer da Colômbia, hoje por hoje, uma nação realmente democrática, pacífica e em paz; uma nação que tenha a condição de ser uma nação equitativa e que tenha a possibilidade de desenvolver ao máximo nosso potencial.
Isso se expressa na ideia de que podemos ser uma potência mundial agroalimentar. Somos uma esquerda que está claramente identificada com as transformações sociais, com a equidade social, com ser cada vez uma nação mais democrática e também uma nação mais próspera. Obviamente, no sentido em que tudo isso coincide com um humanismo e com um respeito pela natureza.
O senhor disse que terá uma linha de continuidade com o atual presidente. Qual é o legado desta presidência em termos sociais? O que pode destacar?
Há um conjunto de conquistas que são o resultado do cumprimento do nosso programa. A reforma agrária teve como resultado que, pela primeira vez na Colômbia, foram entregues ou aspira-se entregar 700 mil hectares porque já estão em poder do Estado. Também houve uma reforma trabalhista, uma reforma tributária com o respeito ao princípio constitucional da progressividade nos impostos e uma reforma da previdência. As políticas públicas têm sido claramente sociais, como por exemplo o aumento considerável do salário mínimo, que na última decisão do governo cresceu 23%, ou seja, uma alta histórica. Poderia enunciar outras, mas é nesse terreno em que nosso governo teve um signo distintivo evidente em relação a outros.
Muitas vezes a política de "Paz Total" do presidente Gustavo Petro, de negociar paralelamente com todos os grupos armados, foi qualificada como um fracasso. Qual é a sua análise a respeito?
O que acontece é que na Colômbia temos um conflito armado que foi sofrendo mutações ao longo do tempo. Teve um retrocesso importante com o acordo de paz de 2016 e teve processos de diálogo que foram se desenvolvendo neste tempo. Mas esses processos enfrentam realidades que também são muito graves: uma delas é que o narcotráfico se globalizou como economia; ou seja, o que vimos neste quarto de século é a emergência de um narcotráfico que tem hoje múltiplos mercados internacionais. Já não são apenas os Estados Unidos ou a Europa. Também estamos diante de uma economia ilegal muito forte de exploração de ouro, porque o ouro foi se tornando, aos poucos, praticamente o fundamento da divisa internacional, substituindo o dólar.
Todas essas mudanças têm um impacto territorial onde o conflito armado está em sua situação mais álgida precisamente pela emergência dessas economias ou seu fortalecimento. Transnacionalizaram-se não apenas os mercados, mas também as redes criminosas. Da Patagônia ao Alasca, hoje temos muito mais organizações, redes e exércitos envolvidos nas economias ilícitas, e isso impactou severamente a Colômbia.
Nesse sentido, o fato de o conflito armado e a violência terem se recrudescido em certos lugares do país não se deve ao fracasso de uma mesa de diálogo. Tal explicação seria superficial. Estamos diante de uma realidade distinta. Precisamos assumir que somente a transformação econômica dos territórios pode dar lugar a uma política de paz ou de segurança bem-sucedida.
Propõe alguma mudança notável em relação ao atual mandato presidencial de Gustavo Petro?
Mais do que continuismo, diria que proponho uma clara linha de aprofundamento das mudanças sociais. Há uma ênfase muito importante. Comecei falando em minha campanha de uma revolução ética. O que entendo por isso? Entendo que na Colômbia e no mundo há um estado de degradação moral evidente.
Uma das piores sequelas do neoliberalismo como modelo é que ele considerou o ser humano e seus direitos como uma mercadoria e dentro de uma lógica econômica. Isso tem uma consequência grave que em meu país está aguçada pelo efeito de uma violência muito prolongada: o ser humano acaba se desumanizando. Esse estado de prostração e degradação moral leva a assumir de uma maneira banal o mal, como já disse Hannah Arendt. Precisamos de um despertar da consciência, e o despertar da consciência pode ocorrer se entendermos que é necessário sair desse estado de tolerância e insensibilidade moral. Isso se consegue, por exemplo, ouvindo as vítimas da violência, resgatando a memória do que foram as sociedades e ouvindo a verdade.
Parte dessa degradação moral é a corrupção. Ter transformado o Estado em objeto de privatização provocou que qualquer ente privado pudesse dispor do bem público, e isso estimulou que o Estado se tornasse simplesmente um espólio. Na Colômbia não temos corrupção, temos a megacorrupção. Temos a tomada do Estado pela corrupção em todos os ramos do poder público, em todos os níveis, do Governo às prefeituras. Devemos produzir, como parte dessa revolução ética, uma rebelião cidadã contra a corrupção. E aí haverá uma ênfase diferente.
Na relação bilateral com os Estados Unidos, Gustavo Petro adotou um estilo mais de confronto com Donald Trump do que outros líderes da região. Qual será o seu estilo?
Minha postura e conduta política não são fixadas tentando me diferenciar do presidente. Sou uma pessoa que se orienta pelo respeito na política. Respeitar a todos, começando pelos adversários. Portanto, da minha parte não haverá nenhum tipo de dinâmica de insulto, palavras destemperadas ou concursos de quem diz a pior coisa do outro. Mas sou uma pessoa que fixa posições claras e argumentadas; posições que, uma vez assumidas, transformo também em norma. Ou seja, se eu tomo a decisão de ser candidato presidencial é porque vou fazer cumprir a Constituição e, a partir dessa perspectiva, vamos assumir todas as decisões, sendo, é claro, muito respeitoso nas formas, mas muito claro no fundo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário