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Se armar para salvar o capitalismo financeiro!

Do A Terra É Redonda, 13 de janeiro 2026
Por MAURIZIO LAZZARATO*


Imagem: Marek Studzinski

O rearmamento europeu não é um projeto de defesa, mas um mecanismo financeiro desesperado: a criação de uma nova bolha de capitais para salvar um sistema que só conhece a reprodução através da guerra e da destruição

“Por maior que seja uma nação, se ela ama a guerra, ela perecerá; por mais pacífico que seja o mundo, se ele esquece a guerra, ele estará em perigo” (Wu Zi, antigo tratado militar chinês).

“Quando falamos de sistema de guerra, referimo-nos a um sistema tal qual aquele que está em vigor e que supõe que a guerra, mesmo se ela seja somente planejada e não combatida, é o fundamento e o ápice da ordem política; quer dizer, das relações entre os povos e entre os homens. Um sistema onde a guerra não é mais um evento, mas uma instituição, não uma crise, mais uma função, não uma ruptura, mas uma pedra angular do sistema, uma guerra sempre depreciada e exorcizada, mas nunca abandonada come uma possibilidade real” (Claudio Napoleoni).

A ascensão de Donald Trump é apocalíptica, no sentido original do termo: desvelamento. Sua agitação convulsiva tem o mérito de mostrar a natureza do capitalismo. Isto é, a ligação – habitualmente velada pela democracia, pelos direitos humanos, pelos valores e pela civilização ocidental – entre a guerra, a política e o lucro, entre o capital e o Estado.

A mesma hipocrisia está no coração da narrativa construída para legitimar 840 bilhões de euros para o rearmamento que a União Europeia impôs a seus estados membros como recurso para o estado de exceção. Se armar não significa, como diz Mario Draghi, defender “os valores que fundaram nossa sociedade europeia” e que “garantiram durante décadas aos seus cidadãos a paz, a solidariedade e, com nosso aliado americano, a segurança, a soberania e a independência”, mas, sim, salvar o capitalismo financeiro.

Não é nem mesmo necessário grandes discursos e análises documentadas para mascarar a indigência dessas narrativas. Bastou um novo massacre de 400 civis palestinos para colocar em evidência a conversa fiada indecente sobre a unidade e a supremacia moral e cultural do Ocidente.

Donald Trump não é um pacifista. Ele apenas reconhece o defeito estratégico da OTAN na guerra da Ucrânia, enquanto as elites europeias rejeitam essa evidência. Para elas, a paz significaria o retorno ao estado catastrófico em que reduziram suas nações. Para elas, a guerra deve continuar, pois, como para os democratas e para o Estado profundo estadunidense, esse é o meio de sair da crise que começou em 2008 – assim como foi no caso da grande primeira crise de 1929.

Donald Trump pensa poder resolver a questão dando prioridade à economia, mas sem renunciar à violência, à chantagem, à intimidação, à guerra. É muito provável que nenhum deles tenha sucesso, já que ambas têm um enorme problema: o capitalismo, em sua forma financeira, está em crise profunda, e é precisamente de seu centro, os EUA, que chegam os sinais “dramáticos” para as elites que nos governam. Em vez de convergir em direção aos EUA, os capitais fogem em direção à Europa, o que é uma grande novidade e um sintoma de grandes rupturas imprevisíveis que correm o risco de ser catastróficas.

O capitalismo financeiro não produz bens, mas bolhas que inflam todos os EUA e estouram em detrimento do resto do mundo, revelando-se armas de destruição em massa. O setor financeiro estadunidense aspira o valor (capital) do mundo inteiro, investindo-o em uma bolha que cedo ou tarde estourará, obrigando as nações do planeta à austeridade e ao sacrifício para pagar seus fracassos: primeiro a bolha da internet, depois a bolha dos subprimes, que provocou uma das maiores crises financeiras da história do capitalismo, abrindo a porta à guerra. Tentaram também a bolha do capitalismo verde, que nunca decolou, e, enfim e incomparavelmente maior, a bolha das empresas de alta tecnologia.

Para colmatar as brechas dos desastres da dívida privada descarregadas sobre as dívidas públicas, o Federal Reserve e o Banco europeu inundaram os mercados de uma liquidez que, ao invés de “escorrer” para a economia real, serviram para alimentar a bolha das altas tecnologias e o desenvolvimento dos fundos de investimento, conhecidos pelo nome de “Big Three”: Vanguard, BlackRock e State Street (o maior monopólio da história do capitalismo, gerindo 50 000 trilhões de dólares, acionista principal de todas as mais importantes sociedades cotadas na bolsa). Hoje essa bolha também está em vias de murchar.

Se dividirmos por dois a capitalização total da bolsa de Wall Street, estaremos ainda longe do valor real das empresas de alta tecnologia, cujas ações foram inflacionadas por esses mesmos fundos, para manter os dividendos elevados para seus “investidores” (os Democratas também contavam substituir o welfare pelo “financiamento para todos”, como eles tinham delirado outrora com o “casa para todo os estadunidenses”).

Hoje, o festim atinge seu fim. A bolha atingiu seu limite e as ações despencam com um risco real de desmoronamento. Se adicionarmos a isso a incerteza que a política de Donald Trump, representante de um setor financeiro que não é aquele dos fundos de investimento, introduz em um sistema que estes últimos haviam conseguido estabilizar com a ajuda dos Democratas, compreendemos os receios dos “mercados”. O capitalismo ocidental precisa de uma nova bolha, pois ele só conhece a reprodução do idêntico (a tentativa trumpista de reconstruir a indústria manufatureira nos EUA está destinada a um fracasso certo).

A identidade perfeita da “produção” e da destruição

A Europa, que já gasta mais de 60% do valor total das despesas de armamento da Rússia (a OTAN representa 55% das despesas de armamento no mundo, e a Rússia, 5%), deliberou por um grande plano de investimento de 800 bilhões de euros para aumentar ainda mais as despesas militares.

A guerra e a Europa, onde ainda estão ativas as redes políticas e econômicas, os centros de poder que se referem à estratégia representada por Joe Biden, derrotado na última eleição presidencial, são a ocasião para construir uma bolha baseada no armamento, isso para poder compensar as dificuldades crescentes dos “mercados” estadunidenses. Desde dezembro, as ações das empresas de armamento já foram objeto de especulação, indo de alta em alta e desempenhando o papel de ativo de proteção para os capitais que julgam a situação estadunidense muito arriscada.

No coração desta operação estão os fundos de investimento, que são também dos maiores acionistas das grandes empresas de armamento. Eles detêm participações importantes na Boeing, Lockheed Martin e RTX, onde influenciam a gestão e as estratégias. Na Europa, eles estão igualmente presentes no complexo militar-industrial: Rheinmetall, uma empresa alemã que produz os tanques Leopard e cujo curso da ação aumentou 100% no decurso dos últimos meses, conta entre os seus principais acionistas com a Blackrock, a Société Générale, Vanguard etc…

Maior fabricante de munições da Europa, a Rheinmetall ultrapassou o maior construtor automobilístico do continente, a Volkswagen, em termos de capitalização, último sinal do apetite crescente dos investidores pelas ações ligadas à defesa.

A União europeia quer coletar e direcionar a poupança continental para o armamento, com consequências catastróficas para o proletariado e uma nova divisão da própria União. A corrida armamentista não poderá funcionar como um “keynesianismo de guerra”, uma vez que o investimento em armas intervém em uma economia financeirizada e não mais industrial. Construída com dinheiro público, ela beneficiará uma pequena minoria particular, agravando as condições de vida da grande maioria da população.

A bolha do armamento só poderá produzir os mesmos efeitos que a bolha da alta tecnologia estadunidense. Depois de 2008, as somas de dinheiro capturadas para ser investidas na bolha high-tech nunca “escorreram” para o proletariado estadunidense. Ao contrário, elas produziram uma desindustrialização crescente, empregos desqualificados e precários, baixos salários, uma miséria endêmica, a destruição do pouco de welfare herdado do New Deal e a privatização de todos os serviços. É isso que a bolha financeira europeia produzirá na Europa.

A financeirização conduzirá não somente à destruição completa do Estado de bem-estar social e à privatização definitiva dos serviços, mas também à fragmentação política do que resta da União europeia. As dívidas, contraídas por cada Estado separadamente, deverão ser reembolsadas e haverá enormes diferenças entre os Estados europeus quanto à sua capacidade de honrá-las.

O verdadeiro perigo não são os russos, mas os alemães, com seus 500 bilhões para o rearmamento e outros 500 bilhões para as infraestruturas e para os financiamentos decisivos na construção da bolha. A última vez que eles se rearmaram, combinaram as catástrofes mundiais (25 milhões de mortes somente na Rússia soviética, a solução final etc.). A célebre frase de Maruriac foi: “Eu gosto tanto da Alemanha que fico contente que tenham duas”.

Esperando os desenvolvimentos ulteriores do nacionalismo e da extrema direita, já em 21%, que o “Deutschland ist zurück” [A Alemanha está de volta] não deixará de produzir, a Alemanha imporá aos outros países europeus sua hegemonia imperialista habitual. Os alemães abandonarão rapidamente o credo ordo-liberal que não tinha base econômica, mas política, para abraçar de corpo e alma a financeirização anglo-estadunidense, e com o mesmo objetivo: dominar e explorar a Europa. O Financial Times fala de uma decisão tomada por Friedrich Merz, o homem da Blackrock, e Kukies, o ministro do Tesouro vindo de Goldman Sachs, com o aval dos partidos de “esquerda” SPD e Die Linke, que, como seus predecessores em 1914, assumem uma vez mais a responsabilidade das carnificinas por vir.

De tudo isso, que por enquanto permanece um projeto, somente o financiamento alemão parece crível. Quanto aos outros estados, veremos quem terá coragem de reduzir ainda mais radicalmente as pensões, a saúde, a educação etc. por uma ameaça fantasiosa.

Se o imperialismo interior alemão precedente estava fundado sob a austeridade, o mercantilismo das exportações, o congelamento dos salários e a destruição do Estado de bem-estar social, o atual, por sua vez, será fundado sob a gestão de uma economia de guerra europeia hierarquizada segundo os diferenciais de taxas de interesse a serem pagos para reembolsar a dívida contraída.

Os países já fortemente endividados (Itália, França etc.) deverão encontrar quem comprará suas obrigações emitidas para reembolsar suas dívidas, em um “mercado” europeu cada vez mais competitivo. Os investidores terão interesse em comprar as obrigações alemãs, as obrigações emitidas pelas empresas de armamento sob as quais a especulação em alta atuará, e os títulos da dívida pública europeia, certamente mais seguras e mais rentáveis que as obrigações de países superendividados.

O famoso “spread” desempenhará ainda seu papel como em 2011. Os bilhões necessários para pagar os mercados não estarão disponíveis para o Estado de bem-estar social. O objetivo estratégico de todos os governos e oligarquias nos últimos cinquenta anos, qual seja, a destruição das despesas sociais para a reprodução do proletariado e sua privatização, será alcançado.

27 egoísmos[i] nacionais se enfrentarão sem desafio, porque a história, onde “somos os únicos a saber o que é”, nos colocou contra a parede, tornados inúteis e insignificantes depois de séculos de colonialismo, de guerras e de genocídios.

A corrida armamentista é acompanhada de uma justificativa repetida – “estamos em guerra” contra todos (Rússia, China, Coréia do Norte, Iran, BRICS) – que não pode ser abandonada e que corre o risco de se concretizar, porque essa quantidade delirante de armas deve, de todo modo, “ser consumida”.[ii]

A lição de Rosa Luxemburgo, Kalecki, Baran e Sweezy

Somente quem não está bem informado pode se espantar com o que se passa. Tudo está no caminho de se repetir, mas no cenário de um capitalismo financeiro, e não mais industrial como era no século XX.

A guerra e o armamento estão no coração da economia e da política desde que o capitalismo se tornou imperialista. Eles estão, também, no coração do processo de reprodução do capital e do proletariado, concorrendo ferozmente um contra o outro. Reconstituamos rapidamente o quadro teórico fornecido por Rosa Luxemburgo, Kalecki, Baran e Sweezy, solidamente ancorado, contrariamente às inúteis teorias críticas contemporâneas, sobre as categorias do imperialismo, do monopólio e da guerra, que nos oferecem uma imagem da situação contemporânea.

Comecemos pela crise de 1929, que encontra sua origem na Primeira Guerra Mundial e a tentativa de saída ativando as despesas públicas através da intervenção do Estado. Segundo Baran e Sweezy, o inconveniente das despesas públicas nos anos 1930 era seu volume, incapaz de neutralizar as forças depressivas da economia privada.

“Considerado como uma operação de salvamento da economia americana de forma geral, o New Deal foi, assim, um flagrante fracasso. Mesmo Galbraith, o profeta da posteridade sem compromissos de guerra, reconheceu que no curso dos anos 1930-1940, a ‘grande crise’ nunca terminou”.

Somente com a Segunda Guerra mundial que ela teve fim: “Depois veio a guerra, e com a guerra veio a salvação […] as despesas militares fizeram o que as despesas sociais não haviam conseguido”, uma vez que as despesas públicas passaram de 17,5 bilhões de dólares para 103,1 bilhões de dólares.

Baran e Sweezy mostram que as despesas públicas não deram os mesmos resultados que as despesas militares, pois elas estavam limitadas por um problema político que é sempre de atualidade. Por que o New Deal e suas despesas não atingiram um objetivo que “estava à mão, como a guerra provou em seguida”? Porque, sob a natureza e a composição das despesas públicas, isto é, sob a reprodução do sistema e do proletariado, a luta de classes seria desencadeada.

“Dada a estrutura do poder do capitalismo monopolista estadunidense, o aumento das despesas civis havia quase atingido seus limites extremos. As forças que se opunham a uma nova expansão eram muito poderosas para serem vencidas”.

As despesas sociais concorreram ou prejudicaram as empresas e oligarquias, privando-as de seu poder econômico e político. “Como os interesses privados controlam o poder político, os limites das despesas públicas foram fixados de maneira rígida, sem se preocupar com as necessidades sociais, mesmo que estas sejam flagrantes”. E seus limites se aplicariam igualmente às despesas, à saúde e à educação que, à época, contrariamente ao que é hoje, não estavam diretamente competindo com os interesses privados das oligarquias.

A corrida armamentista permite aumentar as despesas públicas do Estado, sem que isso se traduza em um aumento dos salários e do consumo do proletariado. Como o dinheiro público pode ser gasto para evitar a depressão econômica que o monopólio provoca, evitando o fortalecimento do proletariado? “Através de armamentos, de mais armamentos, cada vez mais armamentos”.

Michal Kalecki, trabalhando sob o mesmo período, mas na Alemanha nazista, elucida outros aspectos do problema. Contra todo economicismo, que sempre ameaça a compreensão do capitalismo pelas teorias críticas, mesmo marxistas, ele destaca a natureza política do ciclo do capital: “A disciplina nas fábricas e a estabilidade política são mais importantes para os capitalistas que os lucros correntes”.

O ciclo político do capital, que não pode mais ser garantido pela intervenção do Estado, deve recorrer às despesas de armamento e ao fascismo. Para Michal Kalecki, o problema político se manifesta igualmente na “orientação e objetivos das despesas públicas”. A aversão pela “subvenção do consumo de massa” é motivada pela destruição “do fundamento da ética capitalista do ‘tu ganharás teu pão com o suor de tua testa’ (a menos que tu vivas dos rendimentos do capital)”.

Como garantir que as despesas do Estado não se transformem em aumento de emprego, do consumo e dos salários, e, assim, em força política do proletariado? O inconveniente para as oligarquias é superado com o fascismo, pois a máquina de Estado está sob o controle do grande capital e da direção fascista, com “a concentração de despesas do Estado no armamento”, enquanto que “a disciplina da fábrica e a estabilidade política estão asseguradas pela dissolução dos sindicatos e pelos campos de concentração. A pressão política substitui a pressão econômica do desemprego”. Daí o imenso sucesso dos nazistas junto à maioria dos liberais tanto britânicos quanto estadunidenses.

A guerra e as despesas com armamento estão no coração da política estadunidense, mesmo após o fim da Segunda Guerra mundial, pois uma estrutura política sem força armada, quer dizer, sem o monopólio do seu exercício, é inconcebível. O volume do aparelho militar de uma nação depende de sua posição na hierarquia mundial de exportação. “As nações mais importantes terão sempre necessidades mais importantes, e a extensão de suas necessidades (em forças armadas) irá variar conforme se desenrolará ou não entre eles uma luta acirrada pelo primeiro lugar”.

As despesas militares continuaram a crescer, portanto, no centro do imperialismo: “Claro, a maior parte da expansão das despesas públicas esteve ligada ao setor militar, que passou de menos de 1% para mais de 10% do PIB e que representou cerca de dois terços do aumento total das despesas públicas desde 1920. Essa absorção massiva do excedente nos preparativos limitados foi o fator central da história estadunidense no pós-guerra”.

Michal Kalecki sublinha que em 1966, “mais da metade do crescimento da receita nacional provém do crescimento das despesas militares”.

Ora, após a guerra, o capitalismo não podia mais contar com o fascismo para controlar as despesas sociais. O economista polonês, “aluno” de Rosa Luxemburgo, assinalou: “Uma das funções fundamentais do hitlerismo foi superar a aversão do grande capital por uma política anticonjuntural em grande escala. A grande burguesia tinha dado seu consentimento com o abandono do laisser-faire e com o crescimento radical do papel do Estado na economia nacional, com a condição de que o aparelho de Estado estivesse sob o controle direto de sua aliança com a direção fascista”, e que a destinação e o conteúdo das despesas públicas fossem determinados pelo armamento.

Nos Trinta Gloriosos, sem que o fascismo assegurasse a orientação das despesas públicas, os Estados e os capitalistas fizeram concessões que são, de toda maneira, compatíveis com os lucros, alcançando taxas de crescimento desconhecidas até então. Mas mesmo esse compromisso foi demais, pois, apesar dos lucros importantes, “os trabalhadores tornam-se, então, ‘recalcitrantes’, e os ‘capitães da indústria’ estão preocupados em lhes ‘dar uma lição’”.

A contrarrevolução, que se desenvolveu a partir do final dos anos 1960, tinha como centro de destruição as despesas sociais e a vontade feroz de orientar as despesas públicas na direção dos únicos e exclusivos interesses das oligarquias. O problema, desde a República de Weimar, nunca foi uma intervenção genérica do Estado na economia, mas o fato de que o Estado tinha sido investido pela luta de classes e que tinha sido forçado a ceder às exigências das lutas das trabalhadoras e proletárias.

Nos tempos “tranquilos” da Guerra Fria, sem a ajuda do fascismo, a explosão das despesas militares precisou de uma legitimação, assegurada por uma propaganda capaz de evocar continuamente a ameaça de uma guerra iminente, de um inimigo à porta prestes a destruir os valores ocidentais: “Os criadores oficiais e não oficiais da opinião pública têm a resposta sempre pronta: os USA devem defender o mundo livre contra a ameaça de uma agressão soviética (ou chinesa)”.

Michal Kalecki, no mesmo período, precisa: “Os jornais, o cinema, as estações de rádio e de televisão trabalhando sob a égide da classe dirigente criam uma atmosfera que favorece a militarização da economia”.

As despesas em armamento não têm somente uma função econômica, mas também uma função de produção de subjetividades assujeitadas. Exaltando a subordinação e o comando, a guerra “contribui para a criação de uma mentalidade conservadora”.

“Enquanto as despesas públicas massivas em favor da educação e da proteção social tendem a minar a posição privilegiada da oligarquia, as despesas militares fazem o contrário. A militarização favorece todas as forças reacionárias, […] um respeito irrefletido e de submissão à autoridade é determinada; uma conduta de conformidade e de submissão é ensinada e imposta; e a opinião contrária é considerada como antipatriótica, vista como uma traição”.

O capitalismo produz um capitalista que, precisamente em razão da forma política de seu ciclo, é um semeador da morte e da destruição, em vez de um promotor do progresso. Richard B. Russell, senador conservador do Sul dos EUA nos anos 1960, citado por Baran e Sweezy, diz: “há alguma coisa nos preparativos de destruição que incita os homens a gastar dinheiro mais inconsideradamente do que se fosse destinado a fins construtivos. Eu não sei por que isso se produz, mas nos cerca de trinta anos em que ocupei um assento no Senado, eu me dei conta de que comprando armas para matar, destruir, riscar cidades da face da terra e eliminar grandes sistemas de transporte, há alguma coisa que faz com que os homens não calculem as despesas cuidadosamente como fazem quando se trata de pensar uma moradia decente e de cuidados à saúde dos seres humano”.

A reprodução do capital e do proletariado politizou-se através das revoluções do século XX. A luta de classes engendrou igualmente uma oposição radical entre a reprodução da vida e a reprodução de sua destruição, que não fez mais do que se aprofundar desde os anos 1930.

Como funciona o capitalismo

A guerra e o armamento, praticamente excluídos de todas as teorias críticas do capitalismo, funcionam como os discriminantes nas análises do capital e do Estado.

É muito difícil definir o capitalismo como um “modo de produção”, como o fez Marx, porque a economia, a guerra, a política, o Estado, a tecnologia são elementos estritamente ligados e inseparáveis. A “crítica da economia” não é suficiente para produzir uma teoria revolucionária. Desde o advento do imperialismo, uma mudança radical no funcionamento do capitalismo e do Estado se produz, colocando em evidência – por Rosa Luxemburgo – por que a acumulação tem dois aspectos.

O primeiro “concerne à produção da mais-valia – na fábrica, na mina, na exploração agrícola – e a circulação de mercadorias no mercado. Visto por este ângulo, a acumulação é um processo econômico cuja fase mais importante é uma transação entre o capitalista e o assalariado”. O segundo aspecto tem por teatro o mundo inteiro, uma dimensão mundial irredutível ao conceito de “mercado” e suas leis econômicas.

“Aqui, os métodos empregados são a política colonial, o sistema de empréstimos internacionais, a política de esferas de interesse, a guerra. A violência, a trapaça, a opressão, a predação se desenvolvem abertamente, sem máscara, e sendo difícil de reconhecer as leis estritas do processo econômico no emaranhamento da violência econômica e da brutalidade política”.

A guerra não é uma continuação da política, mas sempre coexistiu com ela, como mostra o funcionamento do mercado mundial. Onde a guerra, a fraude e a predação coexistem com a economia, a lei do valor jamais funcionou verdadeiramente. O mercado mundial é muito diferente daquele esboçado por Marx. Suas considerações parecem não mais se aplicar, ou melhor, devem ser precisadas: não é senão no mercado mundial que o dinheiro e o trabalho tornam-se adequados ao seu conceito, fazendo frutificar sua abstração e sua universalidade.

Pelo contrário, constatamos que a moeda, a forma mais abstrata e a mais universal do capital, é sempre a moeda de um Estado. O dólar é a moeda do EUA e só reina enquanto tal. A abstração da moeda e sua universalidade (e seus automatismos) são apropriadas por uma “força subjetiva” e são geridas segundo uma estratégia que não está contida na moeda.

Mesmo o setor financeiro, como a tecnologia, parece ser o objeto de uma apropriação pelas forças subjetivas “nacionais”, muito pouco universais. Sob o mercado mundial, mesmo o trabalho abstrato não triunfa enquanto tal, mas encontra outras formas radicalmente diferentes de trabalho (trabalho servil, trabalho escravo etc.) e o faz objeto de estratégias.

A ação de Donald Trump, tendo feito cair o véu hipócrita do capitalismo democrático, nos revela o segredo da economia: ela não pode funcionar senão a partir de uma divisão internacional da produção e da reprodução definida imposta politicamente, isto é, pelo uso da força, o que implica também a guerra.

A vontade de explorar e dominar, gerindo simultaneamente as relações políticas, econômicas e militares, constrói uma totalidade que não pode nunca se fechar sob si mesma, mas permanece sempre aberta, cindida pelos conflitos, as guerras, as predações. Nessa totalidade fragmentada, todas as relações de força convergem e se governam elas mesmas.

Donald Trump intervém no uso das palavras, mas também nas teorias de gênero, ao mesmo tempo em que gostaria de impor um novo posicionamento mundial, tanto político quanto econômico, dos EUA. Do micro ao macro, uma ação política dos movimentos contemporâneos está longe sequer de ser pensada.[iii]

A construção da bolha financeira, processo que podemos seguir passo a passo, se desenrola da mesma maneira. Os atores implicados em sua produção são numerosos: a União europeia, os Estados que devem endividar-se, o Banco europeu de investimento, os partidos políticos, as mídias e a opinião pública, os grandes fundos de investimentos (todos estadunidenses) que organizam o transporte dos capitais de uma bolsa à outra, as grandes empresas.

Somente após o veredito de confronto/cooperação entre os centros de poder é que a bolha econômica e seus automatismos poderão funcionar. Há toda uma ideologia do automatismo a ser desmontada. O “piloto automático”, principalmente a nível financeiro, não existe e não funciona senão após ter sido politicamente colocado em ordem. Ele não existiu nos anos 1930 porque foi decidido politicamente; ele funciona desde o final dos anos 1970, por uma vontade política explícita.

Essa multiplicidade de atores que se agitam há meses está soldada por uma estratégia. Há, então, um elemento subjetivo que intervém de maneira fundamental. Na verdade, há dois. Do ponto de vista capitalista, há uma luta feroz entre o “fator subjetivo” de Donald Trump e o “fator subjetivo” das elites que foram derrotadas na eleição presidencial, mas que ainda tem forte presença nos centros de poder dos EUA e da Europa.

Mas, para que o capitalismo funcione, é preciso também ter em conta um fator: o do proletariado subjetivo. Ele desempenha um papel decisivo, porque ou se tornará o portador pacífico do novo processo de produção/reprodução do capital, ou terá que rejeitá-lo e destruí-lo. Dada a incapacidade do proletariado contemporâneo, o mais débil, o mais desorientado, o menos autônomo e independente da história do capitalismo, a primeira opção parece a mais provável.

Mas se ele não conseguir opor sua própria estratégia às inovações estratégicas permanentes do inimigo, capazes de se renovar sem cessar, cairemos em uma assimetria de relações de força que nos trará de volta a um tempo anterior ao da Revolução francesa, em um “antigo regime” simultaneamente novo e já visto.

*Maurizio Lazzarato, sociólogo e filósofo, é professor na Université Paris VIII – Vincennes – Saint-Denis. Autor, entre outros livros, de O governo das desigualdades: crítica da insegurança neoliberal (edUFSCar). [https://amzn.to/3LgKDUK]

Tradução: Lucas Donhauser & Danichi Hausen Mizoguchi.

Publicado originalmente em Lundimatin #498.

Notas dos tradutores

[i] Referência direta aos 27 países que compõem a União europeia.

[ii] “Consommée” também tem o sentido de consumada.

[iii] A questão em torno da ação política dos movimentos contemporâneos a que se refere Lazzarato, alusão direta ao proletariado, será esclarecida no último parágrafo do texto.

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