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O hiperimperialismo hiperveloz

Do Brasil de Fato, 19 de janeiro 2026
Por Vijay Prashad

Vijay Prashad é historiador e jornalista indiano. Diretor geral do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

A política externa de Trump marca uma nova era para o imperialismo| Crédito: Official White House Photo / Daniel Torok

O conceito de hiperimperialismo é central para o nosso trabalho. O que estamos vendo agora é um hiperimperialismo em ritmo acelerado

O bombardeio estadunidense à Venezuela e o sequestro de seu presidente e primeira-dama evidenciaram o atual estágio hiperimperialista da ordem mundial. Embora um novo clima tenha surgido no Sul Global, ele ainda não representa um entrave concreto para o Ocidente como um todo.

Queridas amigas e amigos,

Saudações do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.


Em 2024, nosso instituto publicou dois textos importantes: o estudo Hiperimperialismo: uma novo estágio decadente e perigoso e o dossiê n. 72, A agitação da ordem global. Em conjunto, eles oferecem cinco observações principais:O imperialismo liderado pelos EUA entrou em uma nova fase, mais agressiva, que denominamos hiperimperialismo. Desde a Segunda Guerra Mundial, a ordem global tem sido marcada pela dominância dos EUA, visível em sua rede de mais de 900 bases militares estrangeiras; no conceito de “Otan Global” e no uso de ataques militares EUA-Otan para resolver disputas políticas fora do Atlântico Norte; e em formas híbridas de projeção de poder, incluindo medidas coercitivas unilaterais, guerra da informação, novas formas de vigilância e o uso de guerras jurídicas (lawfare) para deslegitimar a dissidência. Argumentamos que esse hiperimperialismo é impulsionado pelo declínio econômico e político relativo do Norte Global.

Os EUA permanecem como a principal potência hegemônica dentro de um bloco imperial unificado que descrevemos como Norte Global. Em vez de uma rivalidade multipolar e interimperialista entre as potências ocidentais, argumentamos que os EUA dominam um bloco Otan+, integrado militar, política e economicamente, que subordina outras potências ocidentais. Esse bloco busca conter o que considera desafios — como a
ascensão da China — ao seu controle sobre o Sul Global.
O bloco hiperimperialista visa manter seu controle neocolonial sobre o Sul Global e assegurar o domínio estratégico sobre as potências emergentes na Eurásia (China e Rússia). Por meio do bloco Otan+ e de seu controle sobre importantes instituições financeiras, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), os EUA buscam reprimir a soberania nacional e resistir a qualquer contestação aos seus interesses — como demonstrado na guerra na Ucrânia e no genocídio em Gaza. Observamos isso também na retirada dos EUA de quaisquer acordos multilaterais que limitem seu poder, incluindo tratados fundamentais de controle de armas, como o Tratado de Mísseis Antibalísticos (2002) e o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (2019), bem como a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (2026).

Para o bloco Otan+, a ascensão da China e a
mudança do centro da economia mundial do Atlântico Norte para a Ásia precisam ser revertidas. Nossa pesquisa destaca como o Sul Global — liderado pela China e outras economias emergentes — ultrapassou o Norte Global em Produto Interno Bruto (PIB) em termos de paridade do poder de compra (PPC) e, portanto, representa uma ameaça concreta à hegemonia econômica ocidental. Demonstramos que o controle sobre matérias-primas, ciência, tecnologia e finanças está sendo contestado por essas potências emergentes. Isso provocou uma resposta estratégica do bloco Otan+. Enquanto o Sul Global busca priorizar a paz e o desenvolvimento, o Norte Global almeja impor a guerra ao mundo.

A atual fase do imperialismo intensifica a possibilidade de conflitos e representa um perigo para a estabilidade global. Com a erosão do poder econômico e político dos EUA, a força militar e os métodos híbridos tornaram-se essenciais para Washington, na tentativa de manter sua influência global. Isso aumenta o risco de violência e confrontos generalizados que comprometem a possibilidade de paz mundial,
aceleram a catástrofe climática e ameaçam a soberania dos povos do Sul Global.

O conceito de hiperimperialismo é central para o nosso trabalho. O que estamos vendo agora é um hiperimperialismo em ritmo acelerado.




Simeon Benedict Sesay (Serra Leoa), Obras de crianças combatentes, 2000.

O ataque dos EUA à Venezuela em 3 de janeiro de 2026 ocorreu no mesmo dia em que aviões franceses e britânicos bombardearam uma instalação subterrânea nas montanhas perto de Palmira (Síria) e apenas algumas semanas depois de os EUA terem bombardeado vilarejos no estado nigeriano de Sokoto. Nenhum desses ataques — todos realizados sob o pretexto de combater alguma forma de “terrorismo” — teve autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas, o que os torna violações do direito internacional. Esses são exemplos do perigo e da decadência desse hiperimperialismo sulfuroso. Nada mais são do que exemplos do bloco Otan+ demonstrando seu poder sobre o Sul Global por meio de ações militares letais para as quais não há defesa.

Os gastos militares globais anuais atingiram 2,7 trilhões de dólares em 2024, com projeções de que poderá chegar a um valor entre 4,7 trilhões e 6,6 trilhões de dólares até 2035 — quase cinco vezes maior que o nível do final da Guerra Fria e duas vezes e meia o valor gasto em 2024. O mesmo relatório estima que seriam necessários entre 2,3 trilhões e 2,8 trilhões de dólares ao longo de dez anos para erradicar a pobreza extrema globalmente. Mais de 80% desses gastos militares são realizados por países da Otan+, sendo os Estados Unidos, de longe, o país que mais gasta com defesa no mundo. Não se gasta tanto em armas de destruição sem ter a capacidade de destruir o mundo. Nenhum outro país se compara à capacidade dos países do bloco Otan+ de intimidar pela força armada.



Kirubel Melke (Etiópia), A estante de livros 2, 2019.

O segundo conceito-chave que o nosso instituto desenvolveu nos últimos anos é o de novo clima no Sul Global. Argumentamos que, devido ao reequilíbrio econômico do último período, abriu-se espaço para que os países da África e da Ásia — em particular — reafirmem a sua soberania após várias décadas de sufocamento. Vimos isso, por exemplo, na região do Sahel, com a criação da Aliança dos Estados do Sahel (AES) por Burkina Faso, Mali e Níger; na reação de vários países a iniciativa da África do Sul no Tribunal Internacional de Justiça contra o genocídio perpetrado por Israel; e na tentativa de países da Indonésia à República Democrática do Congo de agregar valor às suas matérias-primas em vez de as exportar sem processá-las. Esses exemplos mostram como os países do Sul Global, liderados pela China, começaram a testar a sua capacidade de se afirmar contra a autoridade da Otan+ em várias instituições. Mas a palavra-chave aqui para nós é “clima”: uma nova sensibilidade que está sendo testada, mas que ainda não constitui um desafio concreto ao Ocidente.


Obie Platon (Romênia), Guerra contemporânea, 2015.

Poucas horas antes do ataque à Venezuela, o presidente Maduro se reuniu com Qiu Xiaoqi, enviado especial da China para a América Latina, em Caracas. Eles discutiram o terceiro Documento de Política sobre a América Latina, da China, (publicado em 10 de dezembro de 2025), no qual o governo chinês afirmou: “Como país em desenvolvimento e membro do Sul Global, a China sempre se solidarizou, em todos os momentos, com o Sul Global, incluindo a América Latina e o Caribe”. Revisaram os 600 projetos de desenvolvimento conjunto entre a China e a Venezuela e os cerca de 70 bilhões de dólares em investimentos chineses na Venezuela. Maduro e Qiu conversaram e tiraram fotos que foram amplamente divulgadas nas redes sociais e transmitidas pela televisão venezuelana. Qiu então deixou a reunião com o embaixador chinês na Venezuela, Lan Hu, e os diretores do Departamento para a América Latina e o Caribe do Ministério das Relações Exteriores, Liu Bo e Wang Hao. Poucas horas depois, Caracas foi bombardeada.

Logo após o ataque, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China declarou: “Tais atos hegemônicos dos EUA violam gravemente o direito internacional e a soberania venezuelana, além de ameaçarem a paz e a segurança na América Latina e no Caribe. A China se opõe firmemente a isso”. Além disso, pouco pôde ser feito. A China não possui capacidade para reverter a selvageria do hiperimperialismo estadunidense por meio da força militar. China e Rússia têm considerável capacidade militar, incluindo armas nucleares, mas não possuem a presença militar global dos Estados Unidos — cujo gasto militar é mais que o dobro do gasto militar desses dois países juntos — e, portanto, são principalmente potências defensivas (ou seja, capazes principalmente de defender suas fronteiras).

Esses eventos recentes são um sinal da fragilidade do novo clima no Sul Global atualmente, mas não de seu desaparecimento. Em todo o Sul Global, as condenações à violação da Carta da ONU pelos EUA foram numerosas e rápidas. O novo clima permanece, mas tem suas limitações.

O terceiro conceito-chave que nosso instituto desenvolveu é o de extrema direita de tipo especial. Essa extrema direita entrou rapidamente nos corredores do governo na maioria dos continentes, e com ainda maior rapidez na América Latina e Caribe. Argumentamos que ela surgiu por vários motivos, incluindo:O fracasso da social-democracia em resolver as profundas crises de desemprego, anomia social e criminalidade devido ao seu compromisso com a prudência fiscal imposta pelo FMI e sua austeridade cruel.
O colapso dos preços das commodities, o que permitiu às forças social-democratas surfar uma “onda rosa” baseada na redistribuição do aumento da renda nacional e em políticas modestas de bem-estar social direcionada aos problemas mais urgentes enfrentados pela população, incluindo a fome e a pobreza. Parte da animosidade da extrema-direita tem sido direcionada a esses esquemas de redistribuição de renda, que ela alega serem injustos para a classe média.

O fracasso dos social-democratas — ou mesmo da esquerda —, quando chegam ao poder local, em lidar com o aumento da criminalidade, em parte associada ao tráfico de drogas, que assola os bairros da classe trabalhadora em todo o hemisfério ocidental.

A instrumentalização do discurso da corrupção pela extrema-direita de um tipo especial para deslegitimar sistematicamente figuras políticas de centro-esquerda e social-democratas. Esse sistema de guerra jurídica (lawfare) criou uma antipolítica altamente moralizada que eleva um desejo autoritário por ordem e justiça punitiva sem qualquer reforma estrutural.

O surgimento de uma política do medo em resposta a uma crise civilizacional fabricada, exemplificada pelo espectro da “ideologia de gênero”, pela representação racializada de jovens negros em centros urbanos como uma ameaça (de modo que a violência policial contra eles passou a ser tratada como normal e esperada), pelas reivindicações territoriais dos povos indígenas e pelas demandas ambientalistas. A extrema-direita de um tipo especial capturou a imaginação de uma parcela suficiente da população em torno da defesa de suas tradições e da necessidade de restaurar seu modo de vida, como se fossem as feministas e os comunistas que tivessem corroído a sociedade e não a destruição neoliberal.

A injeção de enormes quantias de dinheiro do Norte Global no Sul Global por meio de plataformas transnacionais de direita (como o Foro Madrid, na Espanha) para alimentar redes evangélicas e novos ecossistemas digitais de desinformação.

A interferência direta dos EUA no Sul Global por meio de seu domínio sobre instituições financeiras como o FMI e o Banco Mundial, e de sistemas financeiros globais como o SWIFT e a força militar e intimidação direta.

A extrema-direita de um tipo especial na América Latina e no Caribe foi o antídoto imperial ao retorno das ideias de soberania articuladas por Simón Bolívar e adotadas por Hugo Chávez, que encontraram expressão na onda rosa. À medida que a onda rosa recuava, uma onda de raiva surgia: passamos de líderes como Chávez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia) e Néstor Kirchner (Argentina) para Jair Bolsonaro (Brasil), Javier Milei (Argentina), Daniel Noboa (Equador), José Antonio Kast (Chile) e Nayib Bukele (El Salvador).



Pech Song (Camboja), 7 Makara Maha Jog Jay (7 de janeiro, Dia da Vitória), 1980–1985.

O quarto conceito-chave desenvolvido pelo nosso instituto, que nos ajuda a moldar o nosso pensamento, é o futuro – não apenas como socialismo, o objetivo, mas como esperança, a sensibilidade para esse futuro: a ideia de que não devemos permitir que o nosso pensamento seja limitado por um presente eterno e sombrio, mas sim orientá-lo para as possibilidades inerentes à nossa história e às nossas lutas por um mundo melhor. A extrema-direita de um tipo especial finge, por meio da teologia da prosperidade, representar o futuro, quando na realidade oferece apenas um presente de permanente austeridade e guerra e retrata a esquerda como o passado. Nada poderia estar mais longe da verdade. O nosso dossiê n. 100, que sairá em maio de 2026, explora esse conceito. Aguardamos com expectativa a oportunidade de compartilhá-lo.

Como Kwame Nkrumah costumava dizer, “sempre adiante, nunca para trás”.

Cordialmente,

Vijay

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Editado por: Nathallia Fonseca

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