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O ditador (preferido) da rede Globo

Do A Terra É Redonda, 08 de janeiro 2026
Por ROSÂNGELA RIBEIRO GIL*


Na TV, a palavra “ditador” é arma ideológica: serve ao poder que a paga, encobre as tiranias reais e sequestra a soberania das narrativas

1.
Em tempos obscuros como os atuais, precisamos redobrar a atenção sobre o que vemos, ouvimos e lemos; e que pretensamente nos dizem ser a verdade dos fatos.

A hegemonia política das classes dominantes, conforme formulação de Gramsci, não se sustenta apenas pelo uso da força, mas pelo convencimento ao disseminar valores, ideias e narrativas. Este último aparato encontra forte sustentação no poderio comunicacional monopolizado por grandes grupos econômicos. Nada é por acaso, nenhuma palavra é usada num discurso jornalístico sem medidas e desmedidas ideológicas. É o que se percebe, cotidianamente, na circulação massiva, por exemplo, no “jornalismo profissional” do Grupo Globo, mais especificamente da TV Globo (e adjacências, como a GloboNews).

Como aparato ideológico privado, a mídia corporativa se constitui num centro de difusão e repetição de narrativas e discursos com o intuito de construir ou produzir consensos e sentidos. “Arsenal” (des)informativo que reúne “a naturalização, inversão, justificativa e ocultamento integrantes da ideologia, a que se referiam Marx e Engels […]onde a realidade é apreendida tal como se apresenta fenomenologicamente, com amplo apoio e respaldo dos intelectuais dominantes, que dia após dia trabalham na construção da opinião pública que lhes convém” (Andrade; Motta, 2022, p. 52).

O dia 3 de janeiro de 2026 foi pródigo nessa construção (ou consolidação) hegemônica: pela força e pelo discurso cultural. Além da força militar dos Estados Unidos tomando de assalto a soberania da Venezuela e sequestrando seu presidente Nicolás Maduro, e sua esposa, a advogada Cilia Flores, a parte do convencimento ideológico ficou explícita na cobertura “jornalística” do Jornal Nacional.[i] Em pelo menos seis vezes, o JN referiu-se a Nicolás Maduro como ditador ou ex-ditador.

Já o ataque ilegal de Donald Trump foi adjetivado como “ofensiva militar inédita”. Reproduziu-se o discurso, provavelmente norte-americano, de que a Delta Force sequestradora e violadora de soberanias e de presidentes, é a tropa de elite das Armadas estadunidenses no combate ao tráfico de drogas. Também sem meias palavras, usou e abusou da definição trumpista sobre a Venezuela e Nicolás Maduro, “narcoterrorismo” e “narcoterrorista”.

2.
A história da República Bolivariana da Venezuela, desde Hugo Chávez até Nicolás Maduro, foi descrita pelo apresentador César Tralli, pontuando suas palavras com leves “soquinhos” na bancada, como “de autoritarismo, corrupção, crise na economia e violação dos direitos humanos”. Na mesma toada, ao reescrever a trajetória política de Nicolás Maduro, conforme seus interesses ideológicos, o Jornal Nacional fez questão de ressaltar que o presidente sequetrado pelos EUA começou como “líder sindical”.

Ao longo da edição, as palavras foram favoráveis ao ataque de Donald Trump e negativas ao presidente sequestrado: “Os EUA derrubam Nicolás Maduro”; “…a madrugada de ataques avança no esconderijo do ditador”; “soldados de elite capturam”; “levado para Nova Yorque onde será julgado”; “a história da América Latina registrou hoje um capítulo inédito: os EUA depuseram Nicolás Maduro do poder”; “Trump acompanhou ao vivo a operação militar na Venezuela”; “empresas americanas vão financiar a reconstrução do país”; “agora [Nicolás Maduro] está sob custódia da justiça americana”.

A partir de 20 minutos da matéria, o telejornal apresentará especialistas em relações internacionais para comentar o ataque ao país da América do Sul, entre esses, Regiane Bressan (USP), Carolina Pavese (sem ligação com instituições), Leonardo Trevisan (ESPM) – o único a falar em “sequestro” –, Demétrio Magnoli (comentarista da GloboNews) – que usará a expressão “extração de Nicolás Maduro” – e Vinícius Rodrigues Vieira e Oliver Stuenkel (ambos da FGV-SP). Na edição, a voz dessas autoridades aparece fragmentada (ou editada), curta e sem a profundidade que a situação merecia.

O noticiário do JN cumpre, naquela momento, a missão de normatizar o que está fora de ordem, o caos e a violência. O telejornal da TV Globo mornaliza Donald Trump e suas ações tiranas contra o mundo – seja impondo sanções comerciais ou jogando bomba ou ameaçando países que não lhe entregarem o que ele quer – riquezas naturais, entre essas petróleo e terras raras. E tudo o que significar dinheiro e lucro para ele e seus aliados do mundo empresarial e financista.

Se o telejornal – assim como outros telejornais, como os da Record e do SBT no dia 3 de janeiro de 2026 – insiste em chamar Nicolás Maduro de ditador; por outro lado, sem qualquer ponta de constrangimento, seus repórteres e apresentadores enchem a boca para soletrar pre-si-den-te Donald Trump.

3.
Durante os primeiros momentos do governo Donald Trump, iniciado em janeiro de 2025, nos Estados Unidos, observou-se uma série de ações direcionadas contra instituições de direito, ciência, imigrantes e universidades, geralmente voltadas a grupos que se opõem ao seu posicionamento político. Entre essas medidas, destacam-se tentativas de enfraquecimento da credibilidade de órgãos judiciais e de investigação, cortes de financiamento e restrições à pesquisa científica, especialmente em áreas como meio ambiente e mudança climática.

Além disso, Donald Trump implementou políticas rigorosas contra imigrantes, como restrições à entrada de estrangeiros provenientes de determinados países e endurecimento dos processos de deportação.

Universidades também foram alvo de críticas e de mudanças regulatórias, principalmente no que diz respeito à autonomia acadêmica e ao financiamento para pesquisas que não estivessem alinhadas com as prioridades de Donald Trump. Essas ações refletem uma postura de confronto com instituições que tradicionalmente desempenham papel de contraponto ao poder executivo nos Estados Unidos.

Em 18 de novembro de 2025, Donald Trump recebeu o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, na Casa Branca. Durante o encontro, Donald Trump destacou positivamente o histórico do líder saudita em direitos humanos, mesmo sob acusações de que ele teria ordenado o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi,[ii] em 2018.

E, no primeiro governo (2017-2021), Donald Trump foi acusado de diversos atos considerados antidemocráticos por especialistas e observadores internacionais. Entre eles, destaca-se a tentativa de contestar o resultado das eleições presidenciais de 2020, promovendo alegações infundadas de fraude eleitoral e pressionando autoridades para reverter a vitória de seu adversário.

Além disso, seu discurso frequentemente atacava a imprensa e instituições democráticas, minando a confiança pública nesses órgãos. O episódio do ataque ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, também é citado como resultado de sua retórica e ações, sendo visto como uma ameaça direta ao processo democrático dos Estados Unidos.

Donald Trump foi processado em Nova York por falsificar registros comerciais para ocultar qualquer um de três outros crimes: a contribuição ilegal de campanha de Cohen, violações de leis tributárias e/ou o suposto envolvimento de Donald Trump em uma conspiração para influenciar ilegalmente a eleição presidencial de 2016. E tem, ainda, o escândalo sexual envolvendo o empresário Jeffrey Epstein, criminoso sexual condenado, cuja morte por suicídio gerou grande investigação sobre as pessoas influentes com quem ele mantinha relações, como Donald Trump.

Com tal ficha corrida, o Jornal Nacional já não pode chamar Donald Trump de ditador? Nem de tirano, Globo?

4.
Falam muito na necessidade do letramento digital, melhor seria falar em letramento cultural para compreender a circulação das informações da tele-visão-capitalista. O jornalismo cantado em verso e prosa como o mais profissional, o mais correto, o que faz a ponte entre o fato e as pessoas, não é nada disso. Ele não é o mais profissional, nem o mais correto e destrói pontes entre fatos e pessoas.

A informação midiatizada reconstrói a realidade com fins evidentes de formar a percepção da sociedade sobre determinado fato, política ou ação: “O universo da informação midiática é efetivamente um universo construído. Não é, como se diz às vezes, o reflexo do que acontece no espaço público, mas sim o resultado de uma construção. O acontecimento jamais é transmitido no seu estado bruto, pois, antes de ser transmitido, ele se torna objeto de racionalizações: pelos critérios de seleção dos fatos e dos atores, pela maneira de encerrá-los em categorias de entendimento, pelos modos de visibilidade escolhidos. Assim, a instância midiática impõe ao cidadão uma visão de mundo previamente articulada, sendo que tal visão é apresentada como se fosse a visão natural do mundo” (Charaudeau, 2019, p. 151).

O Jornal Nacional está na vida de milhões de pessoas, de segunda-feira a sábado, no chamado horário nobre, por volta das 20h30, há quase sessenta anos[iii] – “Gerações de brasileiras e brasileiros conviveram com, praticamente, os mesmos veículos de comunicação ao longo da vida” (Martins, 2020, p. 61). Período em que o Brasil e o mundo atravessaram diversas crises políticas, econômicas e sociais e o Jornal Nacional apresentou a versão dos fatos ocorridos. A criação da figura de isenção no imaginário público está presente há 56 anos e ainda é o maior instrumento de informação da sociedade brasileira.

“A televisão é um meio de comunicação, informação e propaganda presente e ativo no cotidiano de uns e outros, indivíduos e coletividades, em todo o mundo. Registra e interpreta, seleciona e enfatiza, esquece e sataniza o que poderia ser a realidade e o imaginário” (IANNI, 2000, p.149).

O discurso da imparcialidade, isenção e pluralidade entra todos os dias nas residências de milhões de pessoas e é reforçado e renovado também em discursos autorreferenciais, como, por exemplo, em programa de auditório dominical, também de grande audiência, na mesma emissora de televisão, com a presença de jornalistas da emissora[iv] para destacar o profissionalismo, a ética e o caráter deles – a voz escolhida, além de colegas de trabalho, é a de amigos, mas principalmente a de familiares.

A hegemonia da informação constituída ideologicamente se torna mais efetiva quanto menos visíveis são suas estruturas e mecanismos de produção. É como se a notícia que vai ao ar dependesse apenas do caráter das pessoas, e não dos interesses de classe dos donos das empresas de comunicação.

O acesso à informação plural e de qualidade é condição necessária para o exercício da cidadania nos termos de compreensão dos assuntos afetos à vida social e à vitalidade democrática. Quando a população está exposta majoritariamente a conteúdos provenientes de poucos grupos, corre-se o risco de formação de opinião pública enviesada, com menor capacidade de crítica e discernimento. O cenário é propício à produção ou fabricação de consensos orientada pelos interesses das classes dominantes.

No meio do caminho não tinha uma pedra, mas notícias que definem uns de ditadores e outros de presidente. A notícia veiculada ontem compromete (ou mata) a verdade hoje (“A pedra jogada ontem matou o passarinho hoje”).

A imprensa encarcerada nas mãos dos conglomerados midiáticos está sempre à espreita e preparada para dar o bote quando o tema significar contrariedade aos seus interesses econômicos e de classe. Os conglomerados midiáticos, como o Grupo Globo, nunca estarão ao nosso lado em defesa de “um outro mundo é possível”.

*Rosângela Ribeiro Gil, jornalista, é mestre em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp.

Referências

ANDRADE, Maria Carolina; MOTTA, Vânia Cardoso. A mídia e a produção do consenso em torno das políticas educacionais: o caso do Novo Ensino Médio. In: Revista de Políticas Públicas, v. 26, n. 1, p. 46–61, 18 Ago 2022. Disponível em: https://periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/rppublica/article/view/19554/11201.

CHARAUDEAU, Patrick. Discurso das mídias. São Paulo: Contexto, 2019.

IANNI, Octavio. Enigmas da modernidade-mundo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

MARTINS, Helena. Comunicações em tempos de crise: economia e política. São Paulo: Expressão Popular, Fundação Rosa Luxemburgo, 2020.

Notas

[i] Disponível em: https://globoplay.globo.com/v/14226143/?s=0s.

[ii] Renomado jornalista saudita e colunista do Washington Post, reconhecido por suas críticas ao governo da Arábia Saudita, em especial ao príncipe herdeiro Mohammed bin Salman. Em 2 de outubro de 2018, Khashoggi foi assassinado dentro do consulado saudita em Istambul, na Turquia, enquanto buscava documentos para seu casamento, fato que resultou em grande repercussão internacional. De acordo com a inteligência dos Estados Unidos, o crime, que envolveu seu esquartejamento por agentes sauditas, teria sido autorizado pelo príncipe herdeiro, embora o governo saudita negue participação direta no caso.

[iii] Hoje, o telejornal pode ser visto pela plataforma Globoplay e em qualquer dispositivo móvel com acesso a internet.

[iv] Num dos programas, a jornalista Renata Lo Prete, da bancada de outro telejornal da casa, o Jornal da Globo, foi homenageada no programa pelos filhos, amigos e pelo “colega” de jornalismo, William Bonner, que, repetimos, é o editor-chefe e apresentador do Jornal Nacional. As qualidades destacadas misturarão vida pessoal e profissional, compondo perfil ético, honesto, leal e de extremo preparo intelectual. Programa Domingão com Huck exibido em 4 de junho de 2023. Participação de Renato Lo Prete no quadro “Dança dos famosos 2023”. Disponível em: https://globoplay.globo.com/v/11672975/.

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