Da memória indígena exterminada ao progresso que desumaniza, Manaus encarna o ciclo perene da colonização — onde cada riqueza semeia nova ruína
1.
No século XVII, na confluência dos rios Negro e Solimões, Portugal ergueu o Forte do Rio Negro. Os insubmissos nativos Manáos, que habitavam a região, foram completamente exterminados e o herói Ajuricaba, capturado e acorrentado, teria se atirado às águas do Amazonas para evitar o seu destino nas mãos dos portugueses.
Na passagem dos séculos XIX para o XX, a borracha, que arregimentou um exército de trabalhadores mal pagos e escravizados por endividamentos fraudulentos, alimentou a riqueza das nações e transformou Manaus em um centro urbano aristocrático em plena selva tropical.
Werner Herzog, ao filmar Fitzcarraldo entre 1979 e 1982, reproduziu fiel e efetivamente a selvageria do europeu colonizador frente às populações indígenas, os desastres e o desmatamento na Amazônia, em meio ao delírio mágico e à arrogância propiciados pelo dinheiro desta empreitada selvagem e internacionalmente premiada.
Até o final da Segunda Guerra Mundial, a ocupação do Brasil e o genocídio dos povos nativos ficaram praticamente restritos à sua faixa litorânea. Mas, nos anos 1950, com a internacionalização do capital produtivo, o país resolveu ocupar o Centro-Oeste e a Bacia Amazônica. Construíram Brasília, um museu modernista a céu aberto; e, a seguir, abriram a estrada Brasília-Belém e a Transamazônica da Ditadura Militar, que representou um novo golpe contra os indígenas do Brasil.
A Zona Franca de Manaus foi regulamentada em 1967, com o objetivo de industrializar a Amazônia. Nos anos 1970, a cidade atraía levas de turistas brasileiros em busca de eletrônicos baratos. Cinemas foram transformados em estabelecimentos comerciais, mas o irreverente Márcio Souza conseguiu reunir heroicos artistas, músicos e poetas da região em defesa da cultura da capital amazonense.
Em 1976 Márcio Souza publicou o cinematográfico Galvez, Imperador do Acre, que escandalizou a elite local mas se transformou num clássico da literatura amazonense. Galvez foi escrito em três dimensões – do autor, do narrador e do protagonista. Em 2025, o manauara Milton Hatoum, autor, entre outros livros, de Dois irmãos, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras.
Manaus ocupa menos de 1% da área total do Estado do Amazonas, mas seus 2,3 milhões de habitantes representam mais da metade de sua população. Itacoatiara, Manacapuru – ambos da Região Metropolitana de Manaus – e Parintins têm 100 mil habitantes; nenhum outro município do Estado atinge este número.
A capital recebeu o nome do povo nativo exterminado, Ajuricaba é amplamente homenageado e o passado escravocrata colonial e do Brasil monárquico, bem como a exploração dos seringueiros durante o Ciclo de Ouro da Borracha, são lamentados como socialmente injustos. No entanto, a cidade faz vista grossa, parece não se dar conta das atuais condições de sua predominante população empobrecida, com adolescentes desdentados e jovens adultos alimentando sonhos de enriquecimento fácil no garimpo ilícito.
2.
Manaus enfrenta sérios problemas de infraestrutura urbana. Centenas de casarões, palacetes e edificações monumentais, construídos durante a opulência da “Paris dos trópicos”, sobrevivem carcomidos e fantasmagóricos. A região central do porto, do mercado e da feira coberta, que cheira a urina, vive em meio a montanhas de lixo, que o ávido bando de urubus necrófagos que rondam o local em voo raso não dá conta de recolher – tudo isto em vivo contraste com a suntuosa beleza do monumental Rio Negro.
Ribeirinhos, engrossados por alegres imigrantes venezuelanos e haitianos, são atraídos pelo lixo descartado das camadas ricas da cidade. Alguns se aventuram para o “sul maravilha”, mas voltam por conta das baixas temperaturas (um dos músicos que cercavam Márcio Souza nos anos 1970, rindo, contava que esteve em São Paulo, mas voltou correndo depois que, assustado, se deparou por acaso com o tamanho minguado de sua genitália).
Manaus, o Estado e toda a Amazônia vivem mergulhados em problemas ambientais. Como costuma dizer Leonardo Boff, não é uma mera questão de meio ambiente, é uma questão de ambiente por inteiro, que inclui a espécie humana. Questões como proteção aos povos indígenas, extrema pobreza e desigualdade social, desmatamento, agropecuária predatória, extração de minérios, garimpo ilegal, poluição dos rios etc. estão na ordem do dia e o progresso (econômico) só tem agravado os problemas.
Esperamos que o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA possa ajudar na implementação de programas sustentáveis na região e que os governos manifestem vontade política e se ocupem em preservar a floresta e garantir o bem estar de sua população.
Eric Hobsbawm nos ensinou que, antes da Revolução industrial, o nível de riqueza entre as nações não era muito diferenciado; André Gunder Frank nos ensinou que nenhum país poderia se definir como subdesenvolvido antes de entrar em contato com outro país definido como desenvolvido; e Franz Fanon nos ensinou que a pior forma de colonialismo é aquela que coloniza a mente do colonizado, isto é, o contamina a ponto dele incorporar os valores do astuto e dissimulado colonizador que se coloca na posição de padrão (referência) e considera o crédulo e inocente colonizado como inferior. “Andam nus, sem coberta alguma, não estimam cobrir nem mostrar as suas vergonhas, e estão acerca disso com tanta inocência como em mostrar o rosto.” Poderíamos acrescentar à carta de Pero Vaz de Caminha que os europeus não tinham inocência sequer em seus rostos.
3.
Relatórios das diversas agências da Organização das Nações Unidas elencam os países de acordo com o padrão ocidental dominante e medem a distância de cada nação a este padrão, que seria a meta dos colonizados, o seu desejo de consumo. Em Manaus, quando falei isso para um amigo que havia sido meu aluno 30 anos antes, ele disse, “os colonizados substituem o valor de uso pelo valor de troca”. É isso mesmo que eu estou querendo dizer, as mentes colonizadas absorvem o conceito de equivalente geral e passam a guiar a sua vida pelo dindim e pelo consumo alienante.
Outro dia ouvi um jovem influenciador justificando a importância de possuir um tênis de marca ($$$) para a autoestima dos colonizados. Eu diria que o tênis de marca só reforça a autoestima do colonizador, porque, como diz a canção do amazonense Zeca Torres, Porto de lenha, tu nunca serás Liverpool. Em Manaus, o antropólogo Yupuri, tukano do Alto Rio Negro, está empenhado em resistir à colonização e preservar a cultura dos povos indígenas. Juntos com Ailton Krenak, vamos construir um futuro ancestral.
Quando publiquei o artigo Bogotá, me surpreendeu o interesse despertado pela culinária e pelos frutos da Colômbia. Então vamos lá promover alguns sabores da Amazônia. Além dos best sellers castanha e açaí e do perfumado cupuaçu, não deixe de experimentar, entre outros, o abiu, bacuri, buriti, camu-camu, guaraná, ingá, jenipapo, patauá, pupunha, taperebá, tucumã e uxi.
Um cruzeiro pelos rios? No perímetro urbano de Manaus, no Porto do Ceasa (acessível por ônibus local) apanhe a embarcação com destino a Careiro e cruze o encontro das águas escuras do Rio Negro e barrentas do Solimões, que insistem em correr lado a lado, sem se misturar – duração do passeio, duas horas (mais do que bom para um cruzeiro); valor do investimento, zero (por balsa). O melhor do passeio é que você vai poder interagir com autênticos manauaras, além de imigrantes venezuelanos e haitianos.
O município Careiro da Várzea, com seus 20 mil habitantes, destaca-se pelos cuidados com o trabalho, a educação e a saúde de sua população. A rústica Manacapuru, com seus 100 mil habitantes, que fica à margem do Solimões, a 100 km da Capital do Estado, e é acessível por terra, barco ou lancha (rápida), também não apresenta o grau de pobreza e estratificação social presentes nesta Manáos que sobrevive em deplorável abandono, maltratada e desumanizada, nas palavras de Milton Hatoum, cercada pela floresta, mas ironicamente desprovida de árvores e vegetação.
*Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de 1968, sonhos e pesadelos. [https://amzn.to/4pdWVen]

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