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Israel, o Mossad e a guerra de independência da Argélia, por Mohammed Hadjab

Relatos apontam que o Mossad teria participado de operações subversivas e de sabotagem contra os nacionalistas argelinos.


Do Rebelión, 10 de janeiro 202
Por Mohammed Hadjab: Observatorio de Geopolitica


Resumo da notícia ​


A guerra da Argélia (1954-62) foi luta anticolonial contra França, com envolvimento geopolítico global e potências ocidentais.
Mossad atuou clandestinamente na Argélia, auxiliando França contra FLN, com operações e troca de informações entre serviços.
Israel alinhou-se a interesses coloniais ocidentais, combatendo movimentos anticoloniais para proteger sua segurança regional.

A guerra de independência da Argélia (1954–1962) foi, antes de tudo, uma luta anticolonial de grande envergadura, conduzida pela Frente de Libertação Nacional (FLN) contra o Império colonial francês. Essa guerra não pode ser reduzida a um simples confronto franco-argelino: ela se insere em um contexto geopolítico global no qual as potências ocidentais, seus serviços de inteligência e seus aliados buscaram preservar seus interesses estratégicos frente aos movimentos de libertação nacional.

Entre esses atores, o Estado de Israel — recém-criado em 1948 no rastro do colonialismo ocidental — não hesitou em se alinhar, nos bastidores, aos interesses franceses, considerados essenciais para sua própria segurança regional e para o equilíbrio das alianças internacionais. Essa posição não pode ser dissociada da matriz colonial ocidental da qual Israel é produto e que ele sistematicamente defendeu — inclusive por meio de ações de inteligência e de influência destinadas a conter os movimentos anticoloniais e progressistas no mundo árabe, muito antes de essas lógicas se cristalizarem plenamente na questão palestina.

Testemunhos e relatos ligados aos serviços israelenses

Segundo relatos retomados pela imprensa argelina nacional e por historiadores engajados, agentes do Mossad teriam sido desdobrados clandestinamente na Argélia durante a guerra de independência.

Esses relatos — em particular os difundidos em torno de um ex-agente israelense, Avraham Barzilai — mencionam sua presença em Constantine, nos anos 1950, sob a cobertura de professor de hebraico, com a missão de organizar células supostamente destinadas a combater o ALN e a rastrear militantes do FLN. Afirma-se ainda que essas células teriam servido para fornecer informações e coordenar certas ações com o exército francês, e que o Mossad teria participado de operações subversivas e de sabotagem contra os nacionalistas argelinos.

Outras fontes evocam reuniões regulares entre responsáveis dos serviços de inteligência franceses e israelenses, nas quais informações sobre os deslocamentos do FLN, o apoio egípcio aos independentistas e outros dados sensíveis teriam sido trocadas. Essas cooperações se inseriam numa lógica de apoio mútuo aos interesses dos dois Estados frente ao que percebiam como ameaças estratégicas na região mediterrânea.

Algumas publicações argelinas sustentam inclusive que operações de contrainsurgência e grupos de milícias judaicas argelinas locais teriam sido enquadrados ou assessorados por serviços israelenses em cooperação com as autoridades coloniais francesas, com o objetivo explícito de enfraquecer o FLN e suas redes.

Um ato estrutural do colonialismo ocidental

O que vincula essas intervenções a uma lógica colonial mais ampla é a forma como os serviços israelenses optaram por se alinhar às potências europeias para conter um movimento de libertação nacional. Esse comportamento se inscreve numa cultura política herdada do sionismo de Estado, que tendia a enxergar as revoluções anticoloniais como ameaças à ordem internacional considerada vital para a segurança de Israel. Nessa perspectiva, a defesa dos interesses do imperialismo ocidental e o combate ao FLN convergiam.

Embora os arquivos permaneçam em grande parte fechados, esses elementos — ainda que objeto de controvérsia — indicam que o Mossad, longe de ser alheio às dinâmicas coloniais da época, participou de uma rede de intervenções clandestinas que visavam preservar a ordem colonial na região.

Da Argélia à Palestina: continuidade e lógica

A implicação do Mossad nesse conflito se inscreve em uma lógica geopolítica mais ampla: a de um Estado que, sendo ele próprio produto da colonização europeia, busca defender e prolongar os interesses de seus padrinhos ocidentais, ao mesmo tempo em que procura neutralizar os movimentos de emancipação anticolonial considerados ameaçadores — inclusive em seu próprio entorno regional.

No caso argelino, essa política subterrânea ao lado da França revela uma continuidade histórica: o Estado israelense jamais hesitou em mobilizar seus meios de inteligência e de operações especiais para proteger o que entende como seus interesses estratégicos, seja no combate ao FLN nos anos 1950-1960, seja posteriormente na repressão aos movimentos palestinos.

Mohammed Hadjab, analista em geopolítica e Relações Internacionais

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