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Florestan Fernandes, professor (2), por Walnice Nogueira Galvão

Florestan dedicou sua vida a várias lutas, entre elas a antirracista e a luta por ensino público, laico e gratuito.


Do GGN, 26 de janeiro 2026
Por Walnice Nogueira Galvão




Florestan Fernandes - Reprodução

Resumo da notícia ​


Florestan Fernandes participou da pesquisa de Roger Bastide sobre racismo no Brasil, desmistificando a democracia racial.
Em 1955, publicaram estudo que evidenciou a exclusão racial no país, com Florestan defendendo a tese em 1964.
Na educação, Florestan combateu a privatização, liderando a Campanha em Defesa da Escola Pública e criticando a Lei de Diretrizes e Bases.


ANTIRRACISMO

Nem é preciso enfatizar a importância dessa causa: vejam-se as tentativas incessantes, e presentes neste momento, de desmoralizar as cotas, de contestá-las, de acabar com elas, enfim.

O combate ao racismo começou desde a época em que, ainda assistente de Sociologia, Florestan foi assessor de Roger Bastide na grande pesquisa de campo sobre “O negro no Brasil”. Esse professor francês da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras fez sua tese de doutoramento sobre um tema abridor de caminhos: As religiões africanas no Brasil – Contribuição a uma sociologia da interpenetração de civilizações, defendida na França. Ademais, ele traduziu Casa grande & Senzala, de Gilberto Freyre, para o francês, deflagrando a repercussão internacional dessa obra logo após a tradução para o inglês.

A época era de rescaldo da Segunda Guerra Mundial, em que o racismo nazista tivera tão grande parte, a tal ponto que foi então que se forjou a palavra “genocídio”. E por isso a recém-criada Unesco estava tendo essa iniciativa de pesquisar o racismo. A Unesco encomendou a pesquisa a Roger Bastide, para que a executasse no Brasil. A escolha do Brasil se deve ao fato de que, aparentemente, o racismo aqui não era tão extremado quanto nos Estados Unidos e na África do Sul, entre outros países que poderiam servir de “modelo negativo”. O professor francês associou à pesquisa Florestan, então jovem assistente. Vários alunos também participaram da pesquisa, que se estendeu ao Brasil todo. Entre eles Fernando Henrique Cardoso e Otavio Ianni, que depois teriam ilustres carreiras. A grande originalidade era que, enquanto até então só se estudava a escravidão, a proposta inovadora era estudar o negro “hoje”, depois da Abolição, não mais escravo.

A pesquisa de campo, seguida pelo tratamento dos dados obtidos, levou vários anos. Mas finalmente os resultados foram apresentados no livro Relações raciais entre negros e brancos no Brasil (1955), livro assinado pelos dois, Roger Bastide e Florestan. Trata-se de uma primeira e científica demolição do que desde então passou a se chamar de “mito da democracia racial” no Brasil.

Florestan continuaria a trabalhar no tema, que elegeria para sua tese de cátedra 10 anos depois, intitulada: A integração do negro na sociedade de classes (1964). Para que o título não desnorteie o leitor e ele seja levado a crer que o negro está integrado, Florestan sustenta que se trata de uma “integração excludente”.

Muitos seriam os cursos de que seus alunos se beneficiariam, nesse campo. E Florestan ficou conhecido, ganhando ampla penetração nos vários movimentos sociais e associações de autodefesa com que os negros combatiam o racismo. Ele passou a ser visto como um aliado e um companheiro na luta – o que de fato nunca desmentiu.

EDUCAÇÃO

A outra causa em que os alunos percebiam que ele se destacava, era a da educação.

Foi na Campanha em Defesa da Escola Pública que Florestan adquiriu dimensão nacional e chamou a atenção de outros alunos, afora os seus. Não esquecer que a UNE (União Nacional dos Estudantes) foi peça importante na campanha. O lema da Campanha foi, e é até hoje: “Por um ensino público, laico e gratuito”.

À época deu-se a primeira investida de privatizaçãodo ensino. O Parlamento, após longas polêmicas e controvérsias, acabou aprovando a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, capitaneada pelo deputado Carlos Lacerda, um agitador de direita que se tornou notório pela demagogia. Essa lei não só dava toda a força ao ensino privado em todos os níveis, como ainda dispunha que recursos materiais em verbas e em equipamentos fossem entregues a ele, tudo financiado por dinheiro público. Ou seja, destinava verbas públicas ao ensino privado.

Florestan desdobrou-se contra a aprovação da Lei, afinal uma causa perdida. Especialistas em educação, como Anísio Teixeira, Darci Ribeiro e Paulo Freire estavam na linha de frente da Campanha em Defesa da Escola Pública. Florestan ficou muito conhecido Brasil afora porque fez discursos e participou de comícios por toda parte. Além disso, seus discursos eram reproduzidos pela mídia e ele mesmo escrevia candentes artigos.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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Walnice Nogueira Galvão

Professora Emérita da FFLCH-USP

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