Por LUIZ MARQUES*
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| Imagem: Phil Hearing |
Ao trocar a hegemonia moral pela força bruta, os EUA não revelam poder, mas desespero: seu ato de pilhagem é a confissão cínica de que já não conseguem liderar, só podem saquear
1.
Ao desrespeitar os organismos multilaterais e as leis que regulam as relações entre as nações, os Estados Unidos já não disfarçam que o imperialismo sempre teve por base a força das armas, uma tradição que remonta a uma lição maquiaveliana – o “Príncipe” deve preferir ser temido e não amado. A cooperação com a ONU, Unesco, Clube de Paris e assim por diante serviu de fachada enquanto perdurou a Guerra Fria. Havia que defender a “sociedade aberta” em contraposição à “cortina de ferro”.
Após a autodissolução da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), que os trotskistas não consideravam socialistas ou soviéticas, instala-se o poder unipolar no mundo. Se antes os EUA exerciam uma hegemonia moral, cultural, econômica e comercial, para além de militar, a partir daí as coisas mudam.
O desleixo no redimensionamento interno dos efeitos do processo de desindustrialização ocidental, em busca de mão de obra barata, afugentou empresas e empregos. A opção imediatista para maximizar a mais-valia dos trabalhadores ajudou no salto que tornou a China um player vencedor.
A emblemática articulação para a criação do BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China), em 2006, que culmina na primeira cúpula oficial em 2009, e a inclusão da África do Sul em 2011 no BRICS, aciona o sinal amarelo. Os EUA passam a perder mercados. O que não se resolve por decreto ou tarifaços. Um parque industrial gera um habitus para o labor que não se transplanta, de repente, para outra geografia. Demora para ser reconstituído.
Em 2024 e 2025, o grupo alternativo ao Fórum Econômico Mundial, de Davos, se expande com a entrada do Egito, Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Indonésia e outros parceiros. De maneira que, hoje, a multipolaridade de poder é uma realidade concreta. O BRICS possui até um banco para que seus membros não necessitem recorrer, nas crises periódicas do capitalismo, ao Fundo Monetário Internacional (FMI) ou ao Banco Mundial com suas contrapartidas de austeridade fiscal.
O BRICS cresceu. Representa quase metade da população humana (3,9 bilhões de habitantes) e em torno de 40% do PIB mundial, o equivalente a US$ 31 trilhões. Tem um peso incontornável no tabuleiro das disputas geopolíticas. Para tristeza do modelo decadente, é a pedra no caminho das caducas ambições imperialistas. Vive sua fase terminal com aparelhos, resta-lhe o aparato bélico.
2.
O sequestro do presidente da Venezuela Nicolás Maduro, o bombardeio de surpresa em um país soberano sem prévia declaração de guerra e sem a devida aprovação do Congresso não é um sinal de vigor, senão de desespero. O imperialismo decidiu contrariar os versos do poeta nascido no Missouri, e encerrar seu ciclo com explosões, não com suspiros.
Deputados democratas já pedem o impeachment do autocrata Donald Trump, pela barbeiragem típica de um ditador em um regime de exceção. Inconcebível em um Estado de direito democrático que se pretenda um paradigma de democracia para os dois hemisférios, na Idade Contemporânea. Neste sentido, a grande nação também foi sequestrada na fatídica madrugada de 3 de janeiro de 2026. Seus sonhos e ilusões que pareciam sólidos desmancharam no ar caribenho.
O grande país perdeu o moral, a alma e a máscara. Agiu como o Japão ao atacar a base naval de Pearl Harbor, que marcou o início da participação dos EUA no conflito contra as Potências do Eixo. Para analistas, este foi o erro trágico da tríade liderada pela Alemanha. No cômputo final, tombaram 20 milhões de russos, 8 milhões de alemães, 6 milhões de judeus, 3 milhões de japoneses, e 500 mil italianos, o mesmo contingente de norte-americanos.
As manifestações de protesto contra a ação neocolonialista nas principais cidades do mapa-múndi, incluindo Caracas e Nova York, em breve dirão se o erro trouxe uma farsa ou outra tragédia. Há indícios de que a soberba japonesa, reatualizada na arrogância norte-americana faz, de novo, do suposto herói o vilão de um filme de quinta categoria.
Difícil imaginar que o século XXI aceite regredir ao estado de natureza hobbesiano. Se o fizer, o mal será multiplicado graças aos avanços tecnológicos para a produção em larga escala da destruição. A humanidade se especializou na produção não presencial da morte.
3.
A extrema direita latino-americana de modo explícito apoia a ação militar, ilegal e imoral. A mídia corporativa com um pouco mais de recato enfatiza o caráter autoritário, quiçá totalitário, do Palácio de Miraflores, a censura à imprensa, a prisão de opositores, a escassez de mercadorias, o desemprego, a inflação, etc. Comentários que, sob muitos aspectos, poderiam ser sem exagero dirigidos à Casa Branca, em Washington.
Donald Trump desdenha o cuidado com o planeta, nega a existência do Antropoceno e a crise climática, tanto que não compareceu à COP-30, em Belém. Não contente, joga no lixo o direito internacional e as mediações para garantir a possibilidade de uma paz global. Ao contrário, provoca outros conflitos armados, já são sete ou oito no curto mandato, dando continuidade ao esporte predileto de seus pares nativos desde 1945. Vale a lei do mais forte de quem reúne mais bombas nucleares estocadas no porão. O governante ruivo merecia o Prêmio Nobel, mas da Beligerância e da Litigância de Má Fé.
Na entrevista coletiva comemorativa, o número de citações em que o mentor político do sequestro usou o termo “petróleo” (dezessete vezes) foi uma confissão cínica – deixou evidente a intenção – mais do que hipócrita porque não ocultou o verdadeiro motivo. Sobre a “democracia”, um silêncio obsequioso. Não era momento para demagogia. O ato em nome das grandes petroleiras do Norte merece total repúdio e transforma as american elites em reles ladrões de combustível fóssil. É o que é a Doutrina Monroe aplicada no momento.
Neste cenário tenebroso, em que o país vizinho está sob um monumental cerco belicista, há que se defender as prerrogativas que protegem o princípio da autodeterminação de cada nação para evitar a disseminação do retrocesso civilizacional, com “a guerra de todos contra todos”. Se os valores da Revolução Bolivariana se desgastaram no decorrer do governo de Nicolás Maduro e a oposição não é confiável, urge uma repactuação da sociedade civil na Venezuela. Avalizada por uma transição democrática, efetivada com ampla participação social.
O governo de Donald Trump não pode recuperar a hegemonia perdida pelos EUA. A marcha da história para fundar uma nova ordem internacional alicerçada em bases morais, jurídicas e políticas não vai parar por sua vontade. Uma comunidade de povos com respeito mútuo entre os participantes é a utopia concreta para o futuro imediato.
Nosso dever é estimular um “levante de consciências”, para usar a expressão de Gerhard Ritter, autor do livro Xeque-mate ao ditador, no qual investiga as condições em que se forma a resistência alemã sob o nazifascismo. A alusão não é gratuita. Os nossos são igualmente tempos sombrios. Faz escuro sim, porém seguimos em frente.
*Luiz Marques é professor de ciência política na UFRGS. Foi secretário estadual de cultura do Rio Grande do Sul no governo Olívio Dutra.

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