Por LUIS FELIPE MIGUEL*
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A lucidez política exige rejeitar as fábulas maniqueístas: é possível condenar a agressão imperial sem endeusar regimes autoritários, pois a história real raramente oferece heróis
1.
Dois traços marcantes de todos nós, humanos, são criar narrativas e tomar lado, separando os bons dos maus. Pode ser que venha de fábrica, como parece que é a tendência de ver rostos humanos em quaisquer objetos remotamente assemelhados. Ou talvez seja efeito de nossa socialização primária – os contos de fada, quem sabe?
Mas o fato é que, diante de uma tevê ligada em uma sala de espera, passando uma partida de futebol entre duas equipes desconhecidas, bastam poucos minutos para que nossa simpatia se incline para um dos lados. E que, com qualquer fragmento de informação, logo acionamos nosso repertório de explicações padronizadas e escolhemos aquela que julgamos mais adequada, para operar com ela ao menos de forma provisória.
Podemos pensar também no Horse Race Test, um “jogo” que fez sucesso no Twitter no ano passado. Avatares toscos de cavalos vagavam aleatoriamente até encontrarem cenouras, o que não impediu de surgirem fãs apaixonados de alguns dos competidores e elaboradas teorias conspiratórias sobre por que o cavalo ciano sempre perdia. O perfil do Horse Race Test tem hoje mais de 160 mil seguidores.
No caso, agora, da Venezuela, temos os dois problemas. Por um lado, há uma série de pontas soltas, de fatos aparentemente pouco compreensíveis e contraditórios entre si. É meio que inevitável que qualquer um que tente compreender a situação embarque em algum tipo de especulação. Mas é importante diferenciar claramente o que é fato razoavelmente confirmado, o que é hipótese a ser validada e o que é especulação, ainda que bem fundada.
Ao mesmo tempo, nossa tendência de tomar lados faz com que seja grande a tentação de estabelecer um vilão e um mocinho. Para que esta narrativa seja coerente, no entanto, é preciso de muita seletividade quanto às informações que serão levadas em conta.
À direita vê Nicolás Maduro como um ditador cuja queda precisa ser comemorada. Donald Trump, naturalmente, ocupa o lugar de herói: é aquele que, motivado por ideais nobres, foi capaz de derrotar o malvado e levá-lo para que receba a justa punição.
2.
Isso só faz sentido se é menosprezada toda a ideia de direito internacional e de soberania das nações – o que é feito, em geral, de forma implícita. É preciso também ignorar deliberadamente que o próprio Donald Trump, em seu discurso autolaudatório depois do sequestro do presidente venezuelano, falou sem parar de petróleo mas se esqueceu de mencionar a democracia.
Políticos bolsonaristas não disfarçaram a esperança de que os Estados Unidos dessem uma forcinha para tirar Lula da presidência, com ou sem eleições no final deste ano. Não vou dizer que tiraram a máscara porque faz tempo que já não usam nenhuma: estão poucos se lixando para a soberania nacional ou para a democracia. Mas relatos com esse teor vieram também de analistas da imprensa, que, ao menos pretensamente, deveriam prezar pela qualidade mínima daquilo que apresentam.
Temos desde a sempre folclórica Natália Beauty, afirmando que o destino de Nicolás Maduro é um alerta para governantes que não apoiam o “empreendedorismo”, até Joel Pinheiro da Fonseca, que gosta de pensar que está em outro patamar, colocando uma ressalva aqui, outra ali, mas, no geral, saudando a promessa de renascimento de uma democracia venezuelana.
São relatos, também, que creditam toda a calamidade humanitária na Venezuela de hoje às taras do próprio regime, ignorando o papel exercido pelo boicote dos Estados Unidos e de seus aliados internos, Mas, à esquerda, se vê o oposto. Não faltam comentaristas que tecem loas ao regime de Nicolás Maduro que – dizem eles – só não era o paraíso na Terra por causa do imperialismo ianque.
Este tipo de ilusão é mais grave quando ocorre à esquerda, porque a esquerda deveria se basear – como dizia Vladímir Lênin – na “análise concreta da situação concreta”.
O processo político venezuelano, desde a chegada de Hugo Chávez ao poder, é complexo. Não há dúvida de que houve um esforço de afirmação da soberania nacional que atingiu os interesses estadunidenses e levou a uma reação feroz do imperialismo ianque. Mas não há dúvida também que o propalado socialismo sempre foi muito mais uma figura de retórica do que qualquer outra coisa. Basta assinalar que, ao fim da primeira década do século XXI, isto é, após também dez anos de governo bolivariano, o setor privado ampliara sua participação na economia venezuelana, o capital se apropriava de uma parcela maior da riqueza nacional e a taxa de exploração do trabalho crescera.
Também é verdade que o regime perdeu legitimidade ao longo dos anos, o que tanto estimulou quanto foi resultado de uma escalada autoritária, acentuada fortemente nos anos de Maduro no poder. As suspeitas de que as últimas eleições presidenciais foram fraudadas são, para dizer o mínimo, bastante verossímeis. Desde o começo, porém, iniciativas de participação política popular eram combinadas com forte centralização do poder, personalismo exacerbado e militarização do aparelho estatal.
3.
A Venezuela serviu de espantalho para a direita latino-americana, sendo usada para desviar a atenção dos graves problemas de outros países do subcontinente, governados pela direita e submissos aos Estados Unidos. Mas isso não nega a gravidade dos problemas da própria Venezuela.
Deve ser possível denunciar a agressão estadunidense, a motivação imperialista que a animou e a ilegalidade do sequestro de Maduro sem negar o autoritarismo de sua presidência e o caráter duvidoso de sua eleição. Assim, aliás, como deve ser possível denunciar a invasão russa à Ucrânia sem fazer de Volodymyr Zelensky um herói ou da OTAN uma empreitada do bem. Ou denunciar o genocídio em Gaza e a inadmissível ocupação colonial israelense sobre o território do povo palestino, do rio ao mar, sem esquecer que o Hamas é um grupo fundamentalista.
Tudo isso é necessário para ver o mundo clareza – e para saber como intervir mesmo.
O entendimento da natureza do governo de Nicolás Maduro também é necessário para tentar compreender o desenrolar dos acontecimentos. É constrangedor ver um jornalista como Breno Altman – um sujeito capaz, sem dúvida, mas preso em sua persona de stalinista impenitente e porta-voz brasileiro do regime venezuelano – vituperando contra quem sugere que possa ter havido um acordo entre a presidente interina, Delcy Rodríguez, e Donald Trump.
Segundo ele, pensar nessa hipótese seria como uma traição, destinada a “desmobilizar a resistência”.
Aliás, Breno Altman sempre propagandeou que o grande diferencial da Venezuela era a “mobilização popular”. Até ficou famosa a resposta da ex-presidente Dilma Rousseff, questionada por ele e explicando que quem garantia o regime não era a mobilização popular, mas as forças armadas. E agora, quando a reação popular à agressão imperialista se mostra quase inexistente, revelando o desânimo e o desencanto dos setores que no passado foram base do chavismo, ele tem pouco a falar.
4.
Não pode ser “traição” encarar a realidade. Regimes fechados costumam ter sua cúpula dividida em camarilhas imersas em disputas internas. Processos inicialmente revolucionários em decrepitude fomentam o oportunismo. Muitos relatos sobre a Venezuela, inclusive de antigos apoiadores de Hugo Chávez, dão conta de ambos os fenômenos.
São suposições, claro, mas a hipótese de colaboração interna é a que melhor explica a surpreendente ausência de baixas estadunidenses na operação de sequestro de Nicolás Maduro. Não pode ser descartada por dogmatismo.
O fato é que Donald Trump fez todas as suas bravatas, mas descartou impor um oposicionista como chefe da Venezuela e aceitou Delcy Rodríguez como presidente do país. E ela, por sua vez, continua com a retórica de que Nicolás Maduro deve ser libertado, mas ao mesmo tempo anuncia que deseja uma relação “equilibrada e respeitosa” com Washington. Donald Trump anunciou que 50 milhões de barris de petróleo venezuelano que seriam destinados à China agora serão dos Estados Unidos. Os chineses deram mostras que acreditaram.
Mas, claro, não falta gente que prefere acreditar nas fake news triunfalistas de algum Pepe Le Gambá, falando sobre como os EUA chegaram ao fundo do poço.
Só o desenrolar dos acontecimentos vai trazer luz, mas, no momento, é razoável imaginar que os dois lados veem como possível tentar um acordo – e os termos dele, não é preciso ser muito perspicaz para imaginar, incluiriam a permanência da camarilha dirigente venezuelana no poder, de um lado, e tratamento mais camarada para as petroleiras estadunidenses, do outro.
Em vez de mandar tropas para controlar o país, com resultado provavelmente desastroso, ou tentar empossar uma María Corina da vida, que não controlaria os militares e geraria uma crise permanente, faz sentido que Donald Trump consiga um arranjo com o governo atual. É o caminho mais rápido para a “estabilização”, até porque, sem o apoio dos EUA, a oposição de direita ao regime vai à míngua.
É razoável, eu escrevi – não é certo. Mas se trata realmente disso: reconhecer a incerteza, pensar em cenários prováveis sabendo que não estão definidos, usar a navalha de Ockham, resistir à tentação de acreditar em narrativas mirabolantes apenas porque aquecem nosso coração.
E lembrar sempre que embora claramente exista um vilão, não há mocinho nessa história.
*Luis Felipe Miguel é professor titular de Ciência Política na Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Democracia na periferia capitalista: impasses do Brasil (Autêntica) [https://amzn.to/45NRwS2].
Publicado originalmente nas redes sociais do autor.
1.
Dois traços marcantes de todos nós, humanos, são criar narrativas e tomar lado, separando os bons dos maus. Pode ser que venha de fábrica, como parece que é a tendência de ver rostos humanos em quaisquer objetos remotamente assemelhados. Ou talvez seja efeito de nossa socialização primária – os contos de fada, quem sabe?
Mas o fato é que, diante de uma tevê ligada em uma sala de espera, passando uma partida de futebol entre duas equipes desconhecidas, bastam poucos minutos para que nossa simpatia se incline para um dos lados. E que, com qualquer fragmento de informação, logo acionamos nosso repertório de explicações padronizadas e escolhemos aquela que julgamos mais adequada, para operar com ela ao menos de forma provisória.
Podemos pensar também no Horse Race Test, um “jogo” que fez sucesso no Twitter no ano passado. Avatares toscos de cavalos vagavam aleatoriamente até encontrarem cenouras, o que não impediu de surgirem fãs apaixonados de alguns dos competidores e elaboradas teorias conspiratórias sobre por que o cavalo ciano sempre perdia. O perfil do Horse Race Test tem hoje mais de 160 mil seguidores.
No caso, agora, da Venezuela, temos os dois problemas. Por um lado, há uma série de pontas soltas, de fatos aparentemente pouco compreensíveis e contraditórios entre si. É meio que inevitável que qualquer um que tente compreender a situação embarque em algum tipo de especulação. Mas é importante diferenciar claramente o que é fato razoavelmente confirmado, o que é hipótese a ser validada e o que é especulação, ainda que bem fundada.
Ao mesmo tempo, nossa tendência de tomar lados faz com que seja grande a tentação de estabelecer um vilão e um mocinho. Para que esta narrativa seja coerente, no entanto, é preciso de muita seletividade quanto às informações que serão levadas em conta.
À direita vê Nicolás Maduro como um ditador cuja queda precisa ser comemorada. Donald Trump, naturalmente, ocupa o lugar de herói: é aquele que, motivado por ideais nobres, foi capaz de derrotar o malvado e levá-lo para que receba a justa punição.
2.
Isso só faz sentido se é menosprezada toda a ideia de direito internacional e de soberania das nações – o que é feito, em geral, de forma implícita. É preciso também ignorar deliberadamente que o próprio Donald Trump, em seu discurso autolaudatório depois do sequestro do presidente venezuelano, falou sem parar de petróleo mas se esqueceu de mencionar a democracia.
Políticos bolsonaristas não disfarçaram a esperança de que os Estados Unidos dessem uma forcinha para tirar Lula da presidência, com ou sem eleições no final deste ano. Não vou dizer que tiraram a máscara porque faz tempo que já não usam nenhuma: estão poucos se lixando para a soberania nacional ou para a democracia. Mas relatos com esse teor vieram também de analistas da imprensa, que, ao menos pretensamente, deveriam prezar pela qualidade mínima daquilo que apresentam.
Temos desde a sempre folclórica Natália Beauty, afirmando que o destino de Nicolás Maduro é um alerta para governantes que não apoiam o “empreendedorismo”, até Joel Pinheiro da Fonseca, que gosta de pensar que está em outro patamar, colocando uma ressalva aqui, outra ali, mas, no geral, saudando a promessa de renascimento de uma democracia venezuelana.
São relatos, também, que creditam toda a calamidade humanitária na Venezuela de hoje às taras do próprio regime, ignorando o papel exercido pelo boicote dos Estados Unidos e de seus aliados internos, Mas, à esquerda, se vê o oposto. Não faltam comentaristas que tecem loas ao regime de Nicolás Maduro que – dizem eles – só não era o paraíso na Terra por causa do imperialismo ianque.
Este tipo de ilusão é mais grave quando ocorre à esquerda, porque a esquerda deveria se basear – como dizia Vladímir Lênin – na “análise concreta da situação concreta”.
O processo político venezuelano, desde a chegada de Hugo Chávez ao poder, é complexo. Não há dúvida de que houve um esforço de afirmação da soberania nacional que atingiu os interesses estadunidenses e levou a uma reação feroz do imperialismo ianque. Mas não há dúvida também que o propalado socialismo sempre foi muito mais uma figura de retórica do que qualquer outra coisa. Basta assinalar que, ao fim da primeira década do século XXI, isto é, após também dez anos de governo bolivariano, o setor privado ampliara sua participação na economia venezuelana, o capital se apropriava de uma parcela maior da riqueza nacional e a taxa de exploração do trabalho crescera.
Também é verdade que o regime perdeu legitimidade ao longo dos anos, o que tanto estimulou quanto foi resultado de uma escalada autoritária, acentuada fortemente nos anos de Maduro no poder. As suspeitas de que as últimas eleições presidenciais foram fraudadas são, para dizer o mínimo, bastante verossímeis. Desde o começo, porém, iniciativas de participação política popular eram combinadas com forte centralização do poder, personalismo exacerbado e militarização do aparelho estatal.
3.
A Venezuela serviu de espantalho para a direita latino-americana, sendo usada para desviar a atenção dos graves problemas de outros países do subcontinente, governados pela direita e submissos aos Estados Unidos. Mas isso não nega a gravidade dos problemas da própria Venezuela.
Deve ser possível denunciar a agressão estadunidense, a motivação imperialista que a animou e a ilegalidade do sequestro de Maduro sem negar o autoritarismo de sua presidência e o caráter duvidoso de sua eleição. Assim, aliás, como deve ser possível denunciar a invasão russa à Ucrânia sem fazer de Volodymyr Zelensky um herói ou da OTAN uma empreitada do bem. Ou denunciar o genocídio em Gaza e a inadmissível ocupação colonial israelense sobre o território do povo palestino, do rio ao mar, sem esquecer que o Hamas é um grupo fundamentalista.
Tudo isso é necessário para ver o mundo clareza – e para saber como intervir mesmo.
O entendimento da natureza do governo de Nicolás Maduro também é necessário para tentar compreender o desenrolar dos acontecimentos. É constrangedor ver um jornalista como Breno Altman – um sujeito capaz, sem dúvida, mas preso em sua persona de stalinista impenitente e porta-voz brasileiro do regime venezuelano – vituperando contra quem sugere que possa ter havido um acordo entre a presidente interina, Delcy Rodríguez, e Donald Trump.
Segundo ele, pensar nessa hipótese seria como uma traição, destinada a “desmobilizar a resistência”.
Aliás, Breno Altman sempre propagandeou que o grande diferencial da Venezuela era a “mobilização popular”. Até ficou famosa a resposta da ex-presidente Dilma Rousseff, questionada por ele e explicando que quem garantia o regime não era a mobilização popular, mas as forças armadas. E agora, quando a reação popular à agressão imperialista se mostra quase inexistente, revelando o desânimo e o desencanto dos setores que no passado foram base do chavismo, ele tem pouco a falar.
4.
Não pode ser “traição” encarar a realidade. Regimes fechados costumam ter sua cúpula dividida em camarilhas imersas em disputas internas. Processos inicialmente revolucionários em decrepitude fomentam o oportunismo. Muitos relatos sobre a Venezuela, inclusive de antigos apoiadores de Hugo Chávez, dão conta de ambos os fenômenos.
São suposições, claro, mas a hipótese de colaboração interna é a que melhor explica a surpreendente ausência de baixas estadunidenses na operação de sequestro de Nicolás Maduro. Não pode ser descartada por dogmatismo.
O fato é que Donald Trump fez todas as suas bravatas, mas descartou impor um oposicionista como chefe da Venezuela e aceitou Delcy Rodríguez como presidente do país. E ela, por sua vez, continua com a retórica de que Nicolás Maduro deve ser libertado, mas ao mesmo tempo anuncia que deseja uma relação “equilibrada e respeitosa” com Washington. Donald Trump anunciou que 50 milhões de barris de petróleo venezuelano que seriam destinados à China agora serão dos Estados Unidos. Os chineses deram mostras que acreditaram.
Mas, claro, não falta gente que prefere acreditar nas fake news triunfalistas de algum Pepe Le Gambá, falando sobre como os EUA chegaram ao fundo do poço.
Só o desenrolar dos acontecimentos vai trazer luz, mas, no momento, é razoável imaginar que os dois lados veem como possível tentar um acordo – e os termos dele, não é preciso ser muito perspicaz para imaginar, incluiriam a permanência da camarilha dirigente venezuelana no poder, de um lado, e tratamento mais camarada para as petroleiras estadunidenses, do outro.
Em vez de mandar tropas para controlar o país, com resultado provavelmente desastroso, ou tentar empossar uma María Corina da vida, que não controlaria os militares e geraria uma crise permanente, faz sentido que Donald Trump consiga um arranjo com o governo atual. É o caminho mais rápido para a “estabilização”, até porque, sem o apoio dos EUA, a oposição de direita ao regime vai à míngua.
É razoável, eu escrevi – não é certo. Mas se trata realmente disso: reconhecer a incerteza, pensar em cenários prováveis sabendo que não estão definidos, usar a navalha de Ockham, resistir à tentação de acreditar em narrativas mirabolantes apenas porque aquecem nosso coração.
E lembrar sempre que embora claramente exista um vilão, não há mocinho nessa história.
*Luis Felipe Miguel é professor titular de Ciência Política na Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Democracia na periferia capitalista: impasses do Brasil (Autêntica) [https://amzn.to/45NRwS2].
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