Do GGN, 8 de janeiro 2026
Por Adalmir Antonio Marquetti, Alessandro Donadio Miebach e Henrique Morrone
Resumo da notícia
A ordem em questão: A Disputa pela Hegemonia Global
A ordem internacional, desenhada sob a hegemonia incontestável dos Estados Unidos e de seus aliados ocidentais no pós-Guerra Fria, está desaparecendo. Vivemos um período de intensa disputa hegemônica, no qual o conflito, que se manifesta em escala global, ocorre em múltiplas frentes: econômicas, tecnológicas e geoestratégicas. O cenário aponta para o risco real de escalada para o confronto militar. Mais ainda, observa-se uma efetiva contestação à preponderância ocidental, cujo processo de expansão iniciou-se há cerca de 500 anos.
A origem desse embate reside na perda relativa de dinamismo das economias desenvolvidas do Ocidente, particularmente dos países do G7 e da União Europeia (UE), em contraste com o crescimento acelerado da China e da Índia, bem como na reafirmação da Rússia como ator geopolítico e militar de primeira ordem. Os dados são apresentados na Tabela 1. O modelo neoliberal dominante nas últimas décadas, ao priorizar a financeirização, a desregulamentação e a maximização de lucros de curto prazo, produziu ganhos financeiros significativos, mas à custa da erosão da base produtiva e industrial das economias ocidentais. O mesmo modelo permitiu o acelerado crescimento econômico chinês, secundado pela excelente performance da economia indiana. Ainda que a adoção do neoliberalismo nos demais países do chamado Sul Global tenha sido assimétrica, pode-se estabelecer um padrão: A maior aderência às concepções neoliberais de primazia dos mercados como lócus das estratégias de crescimento e desenvolvimento implicou estagnação, desindustrialização e reprimarização das estruturas econômicas, enquanto que a adoção seletiva de alguns incentivos aos mercados, sujeitos a supervisão e ao planejamento estatal levaram ao maior dinamismo, progresso técnico e redução da pobreza e das desigualdades sociais.
A desindustrialização, a fragmentação das cadeias produtivas e o enfraquecimento do investimento público comprometeram a capacidade de crescimento de longo prazo do Ocidente. Um símbolo claro desse deslocamento estrutural é o papel da China na economia mundial. O país responde hoje por cerca de um terço da produção manufatureira global e avança em setores de alta e média-alta tecnologia, como semicondutores, inteligência artificial, energias renováveis e telecomunicações. Medido em paridade de poder de compra, o PIB somado de China, Índia e Rússia em 2024 já supera o do G7, evidenciando uma mudança na correlação de forças econômicas globais.
Tabela 1: As 30 maiores economias mundiais em 2019 em comparação com 1970 (milhões de dólares PPP de 2017)
| Pais | PIB 2019 | PIB 1970 | Mudança no ranking do PIB |
| 1. China | 20.572.606 | 1.085.341 | 4 |
| 2. Estados Unidos | 20.563.592 | 5.332.995 | −1 |
| 3. Índia | 9.163.052 | 684.889 | 5 |
| 4. Japão | 5.099.254 | 1.601.754 | −1 |
| 5. Alemanha | 4.314.068 | 1.682.669 | −3 |
| 6. Rússia | 4.052.185 | n.a. | n.a. |
| 7. Indonésia | 3.110.470 | 195.463 | 16 |
| 8. Brasil | 3.042.119 | 586.407 | 2 |
| 9. Reino Unido | 3.016.695 | 1.031.309 | −1 |
| 10. França | 2.965.339 | 1.036.055 | −3 |
| 11. Itália | 2.467.814 | 1.091.992 | −6 |
| 12. México | 2.406.410 | 521.774 | 0 |
| 13. Turquia | 2.242.847 | 261.568 | 8 |
| 14. Coréia do Sul | 2.193.132 | 85.524 | 28 |
| 15. Espanha | 1.896.315 | 553.604 | −4 |
| 16. Canadá | 1.874.187 | 508.118 | −3 |
| 17. Arabia Saudita | 1.649.509 | 302.702 | 1 |
| 18. Austrália | 1.315.734 | 309.083 | −1 |
| 19. Egito | 1.287.589 | 94.629 | 21 |
| 20. Tailandia | 1.229.521 | 92.786 | 21 |
| 21. Polônia | 1.214.222 | 271.562 | −1 |
| 22. Taiwan | 1.127.989 | 51.190 | 28 |
| 23. Paquistão | 1.078.573 | 112.720 | 9 |
| 24. Nigéria | 1.006.237 | 171.430 | 2 |
| 25. Irã | 1.001.589 | 358.567 | −10 |
| 26. Argentina | 975.569 | 388.738 | −12 |
| 27. Países Baixos | 960.771 | 314.629 | −11 |
| 28. Filipinas | 929.960 | 122.620 | 1 |
| 29. Malásia | 821.183 | 38.493 | 27 |
| 30. Bangladesh | 766.135 | 95.964 | 7 |
Nota: n.a.: Informação não disponível.
Fonte: Marquetti, Miebach e Morrone (2024)
Desde a crise financeira internacional de 2008, os Estados Unidos e seus aliados têm adotado políticas voltadas a conter esse processo de perda relativa de hegemonia. No entanto, até o momento, os resultados dessas estratégias têm sido limitados. A intensificação de políticas industriais, a adoção de subsídios, barreiras comerciais e restrições tecnológicas refletem menos uma retomada consistente do dinamismo produtivo do que uma tentativa de preservar posições estratégicas. Ao mesmo tempo, essas ações têm o efeito paradoxal de induzir ainda mais investimentos tecnológicos em seus competidores à medida que estes buscam reduzir sua dependência das tecnologias dos EUA e de seus satélites.
Sob esse prisma, a guerra na Ucrânia deve ser interpretada não apenas como um conflito regional, mas como a expressão mais aguda e trágica da competição global, uma guerra por procuração na qual a OTAN e o projeto geopolítico russo testam os limites da nova ordem internacional ainda em formação. Ao mesmo tempo, a economia russa cada vez mais se volta para a Ásia, articulando-se com a dinâmica de crescimento chinesa e indiana.
Na Europa, essa mudança de cenário tem provocado uma inflexão significativa nas prioridades econômicas e políticas. O Relatório Draghi de 2024 sobre a competitividade da União Europeia alerta para a necessidade de ampliar os investimentos produtivos e de acelerar a modernização tecnológica, mas também enfatiza a expansão dos gastos militares. Em 2024, a União Europeia aumentou seus gastos militares em cerca de 20% em relação ao ano anterior, passando a responder por 13,9% do gasto militar mundial. A Alemanha aprovou a ampliação do orçamento de defesa e planeja elevar seus gastos militares para 3,5% do PIB até 2029. A Inglaterra anunciou uma trajetória semelhante, com a meta de alcançar 3% do PIB em gastos militares, enquanto o presidente Emmanuel Macron defendeu níveis ainda mais elevados para a França e para a União Europeia.
Esse processo tende a ser acompanhado por cortes ou contenções nos gastos sociais, o que indica uma reconfiguração das prioridades. Militarismo e keynesianismo voltam a se aproximar, mas agora em nova configuração: o estímulo fiscal direcionado à indústria bélica ocorre simultaneamente ao enfraquecimento do estado de bem-estar social e à acentuação de tensões políticas internas à medida que ganhadores e perdedores contabilizam os resultados da nova configuração econômica europeia. Entretanto, cabem dúvidas acerca da capacidade da União Europeia de articular uma estratégia de crescimento econômico conjunto que a permita se colocar em parâmetros mais próximos aos de seus competidores chineses e mesmo estadunidenses. A dificuldade de consenso europeu acerca o acordo EU-Mercosul, amplamente benéfico aos interesses industriais do velho continente, é um exemplo cabal destas limitações
Do lado norte-americano, o movimento Make America Great Again (MAGA), sob a liderança de Donald Trump, expressa uma resposta agressiva à possível perda relativa de hegemonia. A estratégia combina guerra comercial, financeira, tecnológica e militar, com o objetivo de reafirmar a primazia dos Estados Unidos. O documento National Security Strategy 2025 prioriza a reindustrialização doméstica, pressiona para que a Europa assuma maior responsabilidade por sua própria defesa, aceita que a China e a Rússia assumam papéis mais relevantes na economia mundial e reinterpreta a Doutrina Monroe, visando reafirmar a influência estadunidense no hemisfério ocidental. Em 2024, os Estados Unidos responderam por cerca de 38% do gasto militar mundial, totalizando aproximadamente 997 bilhões de dólares.
No caso da América Latina, o documento identifica três “ameaças” centrais: os fluxos migratórios, o narcotráfico e a crescente presença econômica e política da China. A Doutrina Monroe, sintetizada no lema “América para os americanos”, expressa a prevalência histórica dos interesses dos Estados Unidos na região e vem sendo revitalizada em um contexto de hegemonia contestada. Em 2025, observaram-se episódios de interferência em processos eleitorais na Argentina e em Honduras, pressões sobre o sistema judiciário brasileiro, ataques verbais contra o Pres. Petro da Colômbia e, agora, o ataque à Venezuela e a remoção de Nicolás Maduro do poder, para além de recorrentes ameaças de tomada da Groelândia. Em 2026, ocorrerão cinco eleições na América Latina. Haiti, Costa Rica, Peru, Colômbia e Brasil irão definir seus presidentes e a composição de seus respectivos legislativos. A questão que se coloca é qual será o próximo passo da intervenção na região? Historicamente, as intervenções ocidentais na América Latina dependem não apenas da vontade das potências estrangeiras, mas também da participação ativa das elites locais, ou, ao menos, de importantes segmentos delas. É relevante ponderar a compatibilidade de interesses entre as elites locais e os intervenientes estrangeiros. O ciclo de intervenções dos EUA na América Latina durante a Guerra Fria foi efusivamente saudado pelas elites locais, cujos laços econômicos estavam majoritariamente vinculados à economia estadunidense. No século XXI, após décadas de neoliberalismo e reprimarização, surgem algumas questões: as elites locais poderão abdicar da demanda chinesa? Qual será a proposta estadunidense às oligarquias latino-americanas? Será possível compatibilizar a tradicional sujeição cultural e política das elites da América Latina aos EUA com interesses econômicos vinculados aos BRICS, especialmente à China? Ou existe um caminho alternativo?
Por fim, cabe reforçar que a capacidade militar dos Estados Unidos e do Norte Global é muito superior à do Sul Global. Os BRICS responderam por cerca de 21,5% do gasto militar mundial em 2024, com destaque para a China (11,8%), a Rússia (4,6%) e a Índia (3,3%). Em 2024, a China aumentou seus gastos militares em 5,7%, mantendo uma expansão semelhante ao seu PIB. Os BRICS não utilizam os gastos militares como eixo de suas estratégias de crescimento econômico, exceto a Rússia, que está em guerra. Por enquanto, esses países não têm acordos militares. O que parece auxiliar na compreensão da estratégia chinesa de ganhar tempo, acumular musculatura econômica e militar e evitar o envolvimento direto em conflitos bélicos, ao mesmo tempo em que busca assertividade na defesa de seus interesses comerciais.
Apesar do discurso em favor da paz e da estabilidade, a história do capitalismo mostra que as grandes potências recorreram repetidamente à guerra, em suas diversas formas, como instrumento para construir, preservar ou restaurar sua hegemonia. Ainda é prematuro afirmar que o declínio do Norte Global ocidental seja irreversível. A questão decisiva, no entanto, é se os países conseguirão administrar os conflitos inerentes a essa disputa hegemônica dentro dos limites de uma competição geoeconômica ou se o mundo caminhará para uma escalada que culminará em guerras ou até mesmo em um conflito global de grandes proporções.
Adalmir Antonio Marquetti (Professor PUCRS)
Alessandro Donadio Miebach (Professor da UFRGS)
Henrique Morrone (Professor da UFRGS)
Autores do livro Unequal Development and Capitalism: Catching Up and Falling Behind in the Global Economy)
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