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A colônia petrolífera de Donald Trump

Do A Terra É Redonda, 10 de janeiro 2026
Por CLAUDIO KATZ*


Entre o sequestro de Maduro e o desejo pelo petróleo, Trump resgata o colonialismo explícito e desafia a soberania regional, transformando a Venezuela no marco zero de um novo e perigoso domínio imperial

Com o sequestro de Nicolás Maduro, Donald Trump incorporou duas novidades à brutalidade imperial. Explicitou seu objetivo de roubar o petróleo e sua pretensão de instaurar um domínio colonial.

Seu argumento disparatado para furtar o petróleo é o pertencimento desse recurso aos Estados Unidos por conta de algum investimento feito no passado. Com esse critério, Texas, Califórnia e Arizona deveriam ser imediatamente devolvidos ao México, mas o magnata é um valentão que não raciocina. Ele proclama uma apropriação que começou com sanções, bloqueios e a confiscação da filial externa Citgo.

Agora, ele promove a expropriação total, para impedir a crescente exportação de petróleo bruto para a China. Exige a dissolução da empresa estatal PDVSA e sua imediata distribuição entre as grandes empresas estadunidenses. Impulsiona essa captura com urgência, porque na Venezuela estão localizadas as maiores reservas do mundo. O expropriador também projeta uma base militar para custodiar sua desejada colônia petrolífera.

Falácias, pretextos e fanfarronices

O ocupante da Casa Branca anunciou que governará diretamente em Caracas, com um modelo semelhante ao projetado para Gaza. Pretende assumir a direção pessoal de ambos os protetorados com o simples fundamento da coerção. Antecipou essa dominação com atos de pirataria, presença de uma grande armada e operações confessas da CIA.

Já se começa a saber que o sequestro de Nicolás Maduro não foi a operação cirúrgica relatada pelos difusores hollywoodianos. Entre os defensores do presidente, houve pelo menos 80 mortos, entre eles 32 militares cubanos. Mais cedo ou mais tarde, saberemos quantas baixas teve o lado dos assaltantes.

O pretexto do narcotráfico mal reaparece, desde que Donald Trump perdoou por esse crime um ex-presidente de Honduras condenado. Ele costuma coordenar, além disso, todo tipo de ação com seus aliados narcotraficantes da Colômbia e do Equador, sabendo que a Venezuela não figura como produtora, via de trânsito ou participante do fornecimento de drogas. Ninguém apresentou indícios de ligações do governo chavista com o extinto Tren de Aragua e tiveram que descartar a acusação de vínculos com o mítico cartel de Los Soles.

Essa falta de provas transforma o julgamento de Nicolás Maduro em Nova Iorque num disparate processual. A demonização midiática foi complementada com a apresentação do presidente venezuelano como um criminoso comum. Mas o início dessa infâmia já colidiu com um líder sóbrio que se declarou “prisioneiro de guerra”.

Em outra sequência de suas bravatas desconexas, Donald Trump acusou Nicolás Maduro de esvaziar as prisões de seu país para enviar assaltantes aos Estados Unidos. Ele usa esse disparate para justificar a caçada interna aos imigrantes, afetando em grande medida a própria comunidade de venezuelanos indocumentados.

Num trágico paradoxo do cenário atual, aqueles que mais comemoram a agressão ianque são vítimas diretas do império. Em várias cidades da América Latina, também comemoraram o sequestro de Nicolás Maduro, sem perceber que o fim do chavismo aumentaria a pressão para retirar-lhes a condição de residentes.

A imprensa hegemônica antepõe o adjetivo “ditador” a qualquer menção a Maduro, esquecendo que seu captor é um golpista impune, que comandou o frustrado assalto à Casa Branca. Donald Trump acaba de consumar, além disso, a fraude presidencial de seu servo em Honduras e instaurou a chantagem eleitoral, para forçar a vitória nas urnas de seu lacaio Javier Milei. O duplo padrão com Nicolás Maduro é particularmente escandaloso, quando o corrupto genocida Netanyahu é apresentado como um “democrata” e o criminoso monarca saudita Bin Salman, como um “príncipe herdeiro”.

Hipocrisias, ameaças e declínio

As hipocrisias para demonizar Nicolás Maduro e enaltecer os verdadeiros tiranos perdem centralidade neste período de preeminência grosseira do mais forte. Numa era de garrote e Corolário Trump da Doutrina Monroe, qualquer argumento passa para segundo plano. O magnata substituiu os artifícios institucionais do Lawfare pelo uso diligente do terrorismo.

É evidente que o sequestro de um mandatário é um ato desse tipo, moldado ao método israelense de capturar ou assassinar adversários políticos, em qualquer parte do mundo. Com o assalto em Caracas, Donald Trump destruiu o pouco que restava do direito internacional baseado em regras. Sem declarar guerra à Venezuela, sequestrou seu presidente.

Com esse ato de arrogância, o criminoso da Casa Branca procura recuperar força interna. Ele espera sair vitorioso diante do Congresso, depois de convalidar a pressão belicista de Marco Rubio, num cenário adverso. Ele está muito afetado pelas denúncias de tráfico de influência no caso Epstein, sofreu severas derrotas eleitorais em vários distritos, enfrentou manifestações massivas contra sua figura (“No Kings”) e arriscou o veto legislativo de seu próprio partido frente ao ataque contra a Venezuela. Por isso, ao contrário de Bush I com o Panamá e Bush II com o Iraque, ele ignorou essa instância.

Essa omissão ilustra o desespero de Donald Trump em mostrar algum sucesso em sua política externa, após um ano de contínuos tropeços. Ele dissimulou essa adversidade com sua habitual fanfarronice (“economizamos 50 milhões de dólares da recompensa”), procurando contrapor seu perfil de brigão com a impotência de Joe Biden.

Essa exibição belicosa é uma mensagem para o exterior, para recriar a lenda de um poder invencível. Donald Trump tenta reverter as humilhações dos últimos anos, que reapareceram na comemoração do 50º. aniversário da derrota dos ianques no Vietnã. Lá, relembrou-se o embaraço no Iraque e a derrota no Afeganistão. O magnata espera agora assustar o resto do mundo para conseguir com tiros o que não consegue com tarifas, protecionismo e ameaças econômicas.

Se continuar encorajado, ampliará seus ataques à Venezuela. Como uma invasão em grande escala é desaconselhada por seus assessores (devido ao elevado número de efetivos e baixas), poderia capturar alguma zona petrolífera para balcanizar o país. Já anunciou que tem na mira a Colômbia e o México e exige da Dinamarca a rápida entrega da Groenlândia.

Donald Trump tenta emular seus antecessores do início do século XX, que invadiram a América Central, tomaram ilhas do Caribe e bombardearam as costas da Venezuela. Mas logo perceberá que os Estados Unidos já não são o que eram e que, em seu declínio, carecem do apoio econômico necessário para realizar aventuras militares bem-sucedidas.

Na prática, a erosão de Donald Trump aumenta no mesmo ritmo de suas ameaças. Ele se apresentou como o homem forte, que conseguiria evitar guerras apenas com a exibição de sua figura e, diante do fracasso dessa postura, recorre à força. Não conseguiu intimidar a Rússia e a China e briga sem nenhum benefício com a Índia. O sequestro de Nicolás Maduro deslegitima qualquer iniciativa sua e habilita eventuais ações do mesmo tipo por parte de seus rivais.

Sua operação em Caracas já gerou rejeições na ONU e um maior distanciamento com a Europa. Não conseguiu sequer o apoio da extrema-direita trumpista do Velho Continente. Com exceção de seus irrelevantes lacaios da América do Sul, a maior parte do mundo condenou sua agressão.

Rússia e China foram contundentes nessa reprovação e exigiram a restituição de Nicolás Maduro ao seu cargo. Muitos analistas interpretam erroneamente que predomina uma cumplicidade dessas potências com seu par estadunidense, através de uma divisão tripartite do planeta. Mas omitem que o Pentágono corroeu qualquer possibilidade dessa coexistência, através da agressão da OTAN na Ucrânia e do cerco naval à China.

O ataque à Venezuela não é um gesto de recuo para sua própria vizinhança, mas uma mensagem de dominação regional para escalar a confrontação global. China e Rússia conhecem essa ameaça e aumentam a defesa de seu próprio entorno.

Até agora, o sequestro de Niclás Maduro tem sido um sucesso militar dos Estados Unidos sem retornos políticos. Assemelha-se mais às provocações fracassadas de Israel contra o Irã do que à vitória triunfante sobre a Síria. No primeiro caso, o assassinato de figuras de alto nível não derrubou o governo e, no segundo, conseguiu essa queda, após uma série sistemática de bombardeios e devastações.

Na Venezuela, o processo bolivariano segue de pé. Donald Trump não tem o controle político, militar ou territorial desse país. O núcleo do poder estatal chavista persiste e essa coesão continua sendo o principal obstáculo à desestabilização externa. Se a captura de Maduro pretendia induzir uma rebelião militar, essa revolta não se concretizou. Também não desencadeou uma ação política equivalente. Não houve “guarimbas” (como em 2014 ou 2017) e as únicas mobilizações foram protagonizadas pelo chavismo.

No lado oposto, reina um imobilismo congruente com o enfraquecimento da direita. As comemorações no exterior não têm contrapartida interna e, após o fracasso de Guaidó e González Urrutia, Donald Trump carece de uma força vassala para sustentar seu colonialismo. Por isso, ele ignorou María Corina Machado, reforçando o caráter patético de uma Prêmio Nobel da Paz que elogia a guerra e considera a invasão de seu país.

A expectativa de uma dominação estadunidense positiva é uma ilusão predominante entre a maioria dos emigrados. Em suas fantasias, identificam o protetorado ianque com a transformação da Venezuela num Estado a mais da União que Washington administra. Ficaram tão cegos pela propaganda gringa que nem sequer percebem a espoliação que seu tutor prepara. Não ouvem Donald Trump quando afirma que o controle da Venezuela “não nos custará nada”, porque será um negócio lucrativo “reembolsado com petróleo”.

O roteiro imperial da traição

A confrontação na Venezuela está apenas começando e apenas o primeiro ato de um cenário aberto foi encenado. Essa indecisão é desconhecida por aqueles que já diagnosticam uma vitória imperialista, baseada na traição interna do chavismo. Eles repetem Marco Rubio, que se vangloria de ter conseguido a rendição de Maduro por seus pares do exército. Embora não forneça qualquer dado sobre essa infâmia, sua tese é reproduzida e apresentada como uma explicação para a captura fulminante do presidente.

Mas essas potenciais cumplicidades não provam a existência de uma traição de grande magnitude no alto comando. É uma possibilidade, mas não há indícios que confirmem a eventualidade que vários pensadores de esquerda consideram certa.

A esta altura, deveria ser evidente que qualquer afirmação de Donald Trump (ou de seu entorno) tem credibilidade zero. Os fatos sugerem um desfecho diferente. Sabe-se que houve muitos mortos, numa confrontação com o aparato militar mais poderoso e sofisticado do planeta.

Como ninguém apresenta provas de traição no plano militar, circulam teses sobre seu equivalente político. Afirma-se que Delcy Rodríguez lidera um “governo de transição”, afetado pela paralisia e pelo vazio de poder. A nova presidente é apresentada como uma líder marginal, totalmente divorciada da base chavista.

Essa desqualificação de um governo submetido ao ataque militar dos Estados Unidos ilustra mais a posição política de seus enunciadores do que o cenário a ser esclarecido. Nos poucos dias que se passaram desde o sequestro, Delcy ratificou sua lealdade a Maduro, exigindo sua libertação e reintegração ao cargo. Essa atitude é coerente com sua trajetória.

Especula-se que ela esteja negociando com Donald Trump algum compromisso de venda de petróleo. Mas mesmo essa opção poderia ser interpretada como um recurso para lidar com a adversidade. Durante décadas, o Irã aceitou as inspeções ocidentais de sua atividade atômica, reforçando ao mesmo tempo sua defesa militar. O desfecho que os países perseguidos enfrentam não se resolve em cinco minutos.

Os defensores da traição sugerem a existência de uma série de pactos para enterrar Maduro. Mas, se essa conspiração existe, até agora não alcançou os resultados esperados. Há décadas, CIA, DEA, Pentágono e Casa Branca promovem campanhas para enfraquecer o processo bolivariano e destruir a aliança cívico-militar que o sustenta.

Nenhuma dessas operações psicológicas, midiáticas e monetárias deveria ser reproduzida por analistas sérios e menos ainda se eles se consideram de esquerda. As ações imperiais estão obviamente destinadas a semear a desconfiança popular, fragmentar as lideranças anti-imperialistas e minar o moral da militância.

Uma eventual traição constitui, em todo o caso, uma questão secundária, face à prioridade de apoiar a resistência. Logo haverá respostas para as questões do fracasso da defesa antiaérea ou dos erros na proteção de Maduro. Em vez de distrair as questões do momento com essas perguntas, convém concentrar as acusações no inimigo ianque.

É preciso pedir prestação de contas à Casa Branca e não a Miraflores e, em vez de contestar a insuficiência do dispositivo defensivo, deve-se enaltecer a memória dos companheiros mortos na operação terrorista. É mais válido honrar esses militares do que especular com o roteiro de Marco Rubio, e é mais encorajador observar como Delcy Rodríguez enfrenta a tempestade do que sentenciar uma derrota que ainda não ocorreu.

Os intérpretes da traição dão como certo que a batalha da Venezuela está perdida. Por isso, eles se aprofundam nos detalhes de uma regressão, consumada, em sua opinião, com deslealdades de todos os tipos. Eles também determinam a inexistência de mobilizações populares, quando essas manifestações começam a aparecer.

Na melhor das hipóteses, eles descrevem um drama invariavelmente negativo, evitando tomar partido. Denunciam Donald Trump atacando ao mesmo tempo Nicolás Maduro, sem notar a inconsistência dessa dualidade. Essa postura permite-lhes justificar sua própria inação, enquanto se congratulam pelo fracasso do chavismo que tantas vezes previram e não conseguiram confirmar. No meio da batalha, convém arquivar esses presságios, lembrar quem é o inimigo e reforçar a luta para derrotá-lo.

Urgências, agendas e disjuntivas

Frear os ataques à Venezuela é a prioridade do momento. É imprescindível conter Donald Trump, porque ele pode repetir a captura de outros mandatários, para se apropriar dos recursos desses países. Hoje é Nicolás Maduro, amanhã será o presidente que desagrada a Casa Branca. As ameaças à Colômbia, ao México e à Dinamarca não são mera retórica.

Quando Hitler invadiu a Áustria em 1938 ou a Polônia em 1939, o cataclismo já era inevitável. Mas alguns anos antes, uma resposta decidida ao seu expansionismo poderia tê-lo contido. Donald Trump enuncia sem qualquer dissimulação seus propósitos imperiais e a Venezuela é um caso exemplar. É possível detê-lo, se se agir a tempo.

Esse freio deve ser imposto na América Latina, porque é a área de agressão imediata do magnata. Donald Trump começou a implementar operações bélicas convencionais, para complementar as guerras híbridas de última geração. O estatuto da região como zona de paz pode extinguir-se num prazo muito curto. O México, a Colômbia e o Brasil levantaram a voz, destacando a violação do direito internacional, mas cabe exigir claramente a libertação de Nicolás Maduro e sua reintegração à presidência.

Essa exigência confronta-se com a pressão midiática para diluir o tema, nos próximos cenários eleitorais da região. Mas está provado que a contemporização do adversário encoraja Donald Trump e o leva a intensificar as agressões. Para neutralizar sua investida, é preciso responder com a mesma contundência.

Na Argentina, a defesa da Venezuela é um eixo central da luta contra Javier Milei. O bajulador de Donald Trump comemora o sequestro de Nicolás Maduro e reforça o rearmamento do exército, com o alvo dirigido para algum ato de servilismo militar. Ele conta com o apoio da direita convencional, dos meios de comunicação hegemônicos e das classes dominantes.

No polo oposto, estão os organizadores das marchas de protesto em frente à embaixada dos Estados Unidos. Um amplo espectro de grupos políticos, sindicais e sociais da esquerda e do peronismo convergiram para essa convocatória. Na segunda manifestação, foi alcançado um nível de participação muito superior ao do primeiro protesto.

A Venezuela é a batalha do momento. Lá está em jogo o futuro de toda a região. Se Donald Trump conseguir seu objetivo, imporá à América Latina um retrocesso histórico de todas as aspirações populares. Se, pelo contrário, ele for derrotado, ficará aberto o caminho para conquistas de todo tipo. Nessa luta se decide o futuro da região.

*Claudio Katz é professor de economia na Universidad Buenos Aires. Autor, entre outros livros, de Neoliberalismo, neodesenvolvimentismo, socialismo (Expressão Poplar) [https://amzn.to/3E1QoOD].

Tradução: Fernando Lima das Neves.

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