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Organização das nações desunidas

Do A Terra É Redonda, 25 de agosto 2025
Por LUIZ GONZAGA BELLUZZO & MANFRED BACK*



Imagem: Hans-Peter Gauster
Em Yalta, líderes forjaram a paz com diplomacia e propósito. No Alasca, a encenação vazia de potentatos revela a falência da política na era do espetáculo

As coisas mudam superficialmente, mas continuam iguais. Não é questão de saudosismo, mas, sim. de averiguar os pesos dos participantes das reuniões ocorridas no Alasca, ano 2025, e em Yalta nos idos de 1945. Avaliar seus propósitos e resultados. Nesses tempos sombrios, onde se questiona até o valor de se aprender história, as indagações de internautas e influencers são sintomáticas: para que serve? Onde compra? Dá para monetizar? Não dá, não tem valor, utilidade. Vence a narrativa, as mil caras, bocas e gestos, a superficialidade, o raso. Como diz a música Brain Damage , os lunáticos estão na grama, em Anchorage, Alasca. Putin and Trump.


Mais a menosprezada e maltratada história ensina que já foi diferente. Entre os dias 4 e 11 de fevereiro de 1945 a conferência de Yalta.Com as presenças de Josef Stalin representado a União Soviética, Winston Churchill representando o Império Britânico e o artificie do encontro Franklin Delano Roosevelt presidente dos Estados Unidos, que sairia como grande vencedor da segunda guerra mundial junto com a União Soviética.

Muitas fotos dos três sentados um ao lado do outro, fotos que ultrapassaram o marketing pessoal e trouxeram soluções, metas para alcançar paz. A meta principal foi definida: discutir o futuro da Europa e do mundo com a derrota iminente poucos meses depois da Alemanha Nazista. Diferente da cúpula do Alaska, multo selfie, muito show, poucos resultados ou nenhum. The show must go on! A guerra Rússia e Ucrânia não só continua, como Trump não conseguiu nada de Putin.

Em Yalta, sob a batuta de Roosevelt e concordância de Stalin e Churchill iria avançar a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) com a missão de garantir a paz e segurança internacional.


Em Anchorage, Alasca, sob a batuta de Trump e discordância de Putin, sai a criação da Organização dos Países Desunidos (OND) com a missão dividir para reinar. No ocaso do império americano, o Calígula Laranja, sentado no Salão Oval da Casa Branca dispara a ameaça “eu mando você obedece”. Mas, tudo indica que nosso estagiário do segundo escalão da KGB, a antiga e temida agência de espionagem soviética, não está nem aí, muito ao contrário, ameaça. Essa cúpula está mais para cópula, desculpem o trocadilho. Como diz o ditado popular: desse mato não sai cachorro.

A diferença entre as conferências não está apenas abrigada nas propostas debatidas, mas em quem lidera e conduz Em Yalta em 1945, Roosevelt; em 2025, no Alaska, supostamente Trump.

Vamos entregar Trump a seus devaneios e seguir o historiador Michael Dobbs. No livro Seis Meses de 1945 Dobbs faz uma narrativa profunda e cuidadosa da preparação da reunião de Yalta e dos episódios mais expressivos do conclave.

Pedimos desculpas por abusar os leitores de Carta Capital com uma longa citação de Dobbs.

“Os Três Grandes (Roosevelt, Stalin e Churchill) reuniram-se para sua derradeira sessão plenária no domingo, 11 de fevereiro, no salão de baile do Palácio Livadia. Uma pilha de documentos estava sobre a mesa, diante de cada um deles. Os líderes começaram a folheá-los, seção por seção, examinando atentamente o vocabulário empregado. Churchill, que se orgulhava de seu estilo literário, fez restrições à quantidade de americanismos no comunicado final. “Há um excesso de joints [conjuntos]”, reclamou, indicando uma sentença sobre “nossos planos militares conjuntos.” Ele preferia “nossos planos militares combinados”. Para um inglês, a palavra “joint” lembrava “a família reunida no domingo para comer carneiro assado”. Chegou-se a um acordo com “os planos militares das três potências aliadas”.

Roosevelt e Stálin não estavam dispostos a discutir escaramuças. Cada um dava um jeito de se adequar à linguagem do outro para aprovar as passagens mais substanciais do texto. “O.k.”, disse rindo bastante Stálin, num inglês macarrônico de sotaque carregado. “Khorosho”, concordou Frank Delano, num russo americanizado.

Houve um debate bem-humorado sobre quem deveria assinar o comunicado primeiro. Churchill reivindicou para si o privilégio, com base na ordem alfabética e na idade. Para Stálin, isso não era problema algum, já que preferia ser o último a assinar. ‘Se a assinatura de Stálin for a primeira, as pessoas dirão que ele comandou a discussão.’ Roosevelt deixou que os dois outros fizessem como queriam, concordando em assinar em segundo lugar”.

Roosevelt enfrentou com coragem e sabedoria a Grande Depressão. Em seu discurso de 1936, proferido na campanha para a primeira reeleição, Roosevelt desferiu ataques aos poderes da oligarquia, poderes que precipitaram a crise de 1929.

“Mais da metade da riqueza corporativa do país estava sob o controle de menos de duzentas grandes corporações. Isso não é tudo. Essas grandes corporações, em alguns casos, nem tentaram competir entre si. Eles próprios estavam ligados por diretores, banqueiros e advogados interligados. Essa concentração de riqueza e poder foi construída sobre o dinheiro de outras pessoas, os negócios de outras pessoas, o trabalho de outras pessoas. Sob essa concentração, os negócios independentes só podiam existir por sofrimento. Tem sido uma ameaça ao sistema social, bem como ao sistema econômico que chamamos de democracia americana.”

Roosevelt dizia que a moderna civilização, depois de demolir as velhas dinastias, erigiu outras. “Novos impérios foram construídos a partir do controle das forças materiais. Mediante o novo uso das corporações, dos bancos e da riqueza financeira, da nova maquinaria da indústria e da agricultura, do trabalho e do capital – nada disso sonhado pelos fundadores da pátria –, a estrutura da vida moderna foi totalmente convertida ao serviço da nova realeza. Não havia lugar nos seios da nova nobreza para abrigar os milhares de pequenos negócios e comerciantes que desejavam fazer um uso sadio do sistema americano de livre iniciativa e busca do lucro… Sedentas de poder, elas se lançaram ao controle do governo. Criaram um novo despotismo envolvido nas roupagens da legalidade. Mercenários a seu serviço trataram de submeter o povo, seu trabalho e sua propriedade.”

Na era Trump, a nova finança e as BIGTHECS assumiram o controle do Estado, sob o patrocínios do Salão Oval da Casa Branca.

*Luiz Gonzaga Belluzzo, economista, é Professor Emérito da Unicamp. Autor entre outros livros, de O tempo de Keynes nos tempos do capitalismo (Contracorrente). [https://amzn.to/45ZBh4D]

*Manfred Back é graduado em economia pela PUC –SP e mestre em administração pública pela FGV-SP.

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