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Ser mulher, nascer mãe e dialogar com Silvia Federici

Ser mulher, nascer mãe e dialogar com Silvia Federici
 
Por RENATA NÓBREGA
Da Carta Capital, 27 DE MAIO DE 2019



Ter a companhia de Silvia Federici, autora italiana crítica, na recém maternidade me conferiu um novo olhar sobre sororidade
Não faz muitos dias, pouco mais de 365 para ser mais precisa, e a vida doméstica se me apresentou com uma cria nascida mulher e, com ela, o nosso lar pariu filhas, mães e redes de apoio e sobrevivência.

Alimentar e alimentar-se, cuidar e zelar. Foi-se montando uma rede de sororidade[1], em que laços femininos se desdobravam e ainda se arranjam na tentativa de dar conta das muitas agendas, dentro e fora do lar. E olhe que especificamente no nosso caso a problemática marcante permanece na seara da distribuição do tempo, algo que julgamos bastante leve quando percebemos situações em que também se faz necessário enfrentar carência material[2] e ou afetiva.

Outro dado de relevo visto a partir da experiência da maternidade é o de que, mesmo quando os elos masculinos que porventura compõem nossa rede estiveram por perto, a distinção entre atribuições produtivas e reprodutivas foram mantidas.

Algo de claridade solar invadiu-me a compreensão. Algumas linhas de uma publicação em espanhol, que a tradução livre me jogou na cara afirmações do tipo:

“Desde que o termo mulher se converteu em sinônimo de ama de casa, carregamos, onde quer que vamos, essa identidade, incluindo as habilidades domésticas que nos outorgam ao nascermos mulheres. (…) O trabalho reprodutivo, por não ser assalariado, embora esta seja uma condição que lhe foi socialmente imposta, reservou a ele uma aparência de naturalidade feminina. (…) E assim o capital, por anos, ditou que só servíamos para o sexo e para fabricar filhos”.

São palavras de El patriarcado del salario: criticas feministas al marxismo[3], da autora Silvia Federici, que destaca, dentre as importantes contribuições da teoria de Karl Marx, a noção de trabalho humano como principal fonte de produção de riqueza, sobretudo na sociedade capitalista, “el trabajo humano como la fuente de la acumulación capitalista”[4], chamando a minha atenção para algo aparentemente óbvio: ao se qualificar determinado trabalho, o produtivo, como algo não natural e, assim, atribuir-lhe salário, o trabalho assalariado mantém sua hierarquia sobre o trabalho reprodutivo, nele inserida a procriação e a criação dos braços que realimentarão as fileiras de venda de força de trabalho.

Aliás, qual não é a nossa preocupação com as crianças, que não seja constituí-las para o mercado. Todo nosso trabalho produtivo, quando temos um, é assalariado para reinvestirmos na própria manutenção do sistema, ou seja, os ganhos são, em grande medida, aplicados na melhor alimentação e formação dessas crianças a fim de que elas, mais adiante [e torcemos por isso], preencham os espaços produtivos.

Mas, embora procriar uma nova geração de trabalhadores seja fundamental, o trabalho reprodutivo foi categorizado como um processo natural e atribuído à mulher. É nesse contexto que Silvia Federici trabalha a noção do patriarcado do salário, ou seja, a dependência da mulher que trabalha em casa em relação ao salário masculino, criando-se através do salário essa hierarquia:

“o varão tem o poder do salário e se converte no supervisor do trabalho pago à mulher. E tem o poder de disciplinar. Esta organização do trabalho e do salário, que divide a família em duas partes, uma assalariada e outra não assalariada, cria uma situação onde a violência está sempre latente”[5].

O primeiro impacto das palavras da autora italiana para mim foi o de quebrar a possibilidade de nos dividirmos entre mulheres que trabalham e que não trabalham, reforçando minha dimensão de sororidade[6] e percebendo que há as que desempenham trabalhos reprodutivos, nele inseridos os domésticos, e as que, além disso, trabalham em um “segundo emprego”.

Em tradução livre do que é dito pela autora, a nós mulheres o sistema capitalista não nos oferece só o direito a trabalhar, como acontece no caso dos demais trabalhadores. É-nos oferecido o direito a trabalhar mais, a estarmos ainda mais exploradas, fazendo-nos esquecer de que o trabalho doméstico e a família estão nos pilares da produção capitalista e de que somos fundamentais no processo de perpetuação desse modo de produção[7].

Seguindo as quebras do que agora se apresenta tão óbvio, a leitura me faz ver que a distinção pelo salário propicia a dominação necessária à contenção feminina. Estáveis, bem disciplinadas, guardiãs de virtudes, responsáveis pela preservação dos nossos corpos submissos a algum patrão do lar ou das instituições privadas em prol da família e da ordem, tudo isso são características interessantes ou mesmo, como disse Silvia Federici, perfazem condições essenciais da produção em qualquer dos estágios de desenvolvimento capitalista.

Ao fim, a autora marcou-me, em clímax, ao desvelar-me ao menos duas coisas. A primeira foi a percepção da família ocidental como a institucionalização do trabalho não remunerado e a segunda a concepção da falta de salário para nosso trabalho reprodutivo como medida de disciplina e dominação. Diria uma cara professora[8] e querida amiga, citando Karl Marx, “distinguir para dominar”.

Meu olhar se dispersa. A minha atenção retoma as agendas do dia. Silvia Federici terá que esperar mais um pouco para continuar me trazendo suas impressões de mundo. Ela e outras escritas permanecerão na mesa de cabeceira enquanto a realidade pede passagem e não se sabe quando me concederá novo espaço na agenda. Amanhã serei eu a levar e a buscar na escola e, antes disso, teremos uma noite de escalas alternadas nas horas do choro, do cocô e do xixi. Entre uma coisa e outra, ainda preciso concluir trabalhos (produtivos) pendentes e jantar em família.

Até a próxima. A moenda segue a gira. Por enquanto, como disse Silvia Federici, nosso trabalho reprodutivo continua sem salário, então nos convencem de que se trata de um ato de amor[9].

Para Bia. Com amor, Renata.

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