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A paz na Europa começa na Venezuela

A paz na Europa começa na Venezuela
Da Carta Maior, 21 de Março, 2019
Por Jean-Luc Mélenchon


Os EUA vão atacar a Venezuela? As horas que correm são, sem dúvida, decisivas para o destino da paz na América do Sul pelas próximas décadas. Já defendi, em artigo para o jornal "Le Monde" escrito com meus amigos deputados Insoumis, a ideia da saída democrática proposta, em vão, pelo México e pelo Uruguai. Apenas o presidente Nicolas Maduro declarou a intenção de colaborar com esta solução. Os Estados Unidos e seus suplentes continuaram a dobrar suas apostas com o objetivo evidente de provocar um fracasso. De sua parte, o presidente francês havia dado um ultimato para que fossem marcadas eleições legislativas. Quando Nicolas Maduro disse que concordava, Macron e os outros europeus repentinamente passaram a clamar por uma eleição presidencial. Ou seja, o objetivo deixou de ser buscar uma saída democrática para a crise, mas obter uma rendição incondicional do presidente legítimo.

Ao longo desse período, as provocações irresponsáveis se sucederam com tal intensidade e má-fé que muitas pessoas conseguiram entender que o discurso dos EUA não diz respeito nem à situação alimentar dos venezuelanos nem aos direitos humanos no país. Já compreenderam que o que está em jogo é o petróleo venezuelano e a manutenção da dominação do Império na região que considera o seu quintal, a América do Sul.

Para muitos, está claro que os direitos humanos são apenas um pretexto para os EUA, que continuam a ser o país da tortura oficial em Guantánamo, da segregação racial e do apoio aos piores governos extrema direita do mundo, na Europa, no Oriente Médio e em outras partes do mundo. Mas muitas pessoas de boa fé ainda preferem aguardar para entender o que se passa. Têm dificuldade em perceber o poder agressivo dos Estados Unidos desde a sua fundação e seus 222 anos de guerra em 229 anos de existência. Muitos esqueceram ou nunca souberam dos anos sombrios de assassinatos e torturas em toda a América Latina sob o comando da escola de guerra dos EUA, onde ensinaram brutos sádicos como o general francês Paul Aussaresses. Foi nos anos 1970, após o assassinato do presidente Salvador Allende no Chile.

Quanto à Venezuela, muitos ignoram que Hugo Chávez sofreu uma tentativa de golpe e foi salvo in extremis do pelotão de execução dos golpistas. Sem a mobilização nas ruas de milhões de pessoas, e especialmente dos pobres, Chávez teria sido fuzilado. Ignoram também que, enquanto a França manteve na cadeia por 25 anos os generais rebeldes partidários da Argélia francesa, os mentores do golpe contra Chávez foram deixados em liberdade.

Qualquer que seja nossa opinião sobre os EUA e a Venezuela, somos todos, como cidadãos, instados a refletir sobre o que acreditamos que é certo e bom para todos neste momento da ordem mundial. Porque a ordem mundial é um todo. Ao convocar a opinião pública mundial em sua cruzada contra a Venezuela, os EUA também obrigaram todos nós a tomar posição. Depois de tantos episódios calamitosos como, por exemplo, as armas de destruição em massa de Saddam Hussein, hoje muitos alarmes soam a cada movimentação de combate dos EUA. Se, a princípio, muitos se puseram de prontidão, agora já vemos esmorecer o entusiasmo atlantista.

De forma que agora os ingênuos ou irresponsáveis chefes de estado começam a despertar, especialmente na Europa. Depois de reconhecer o líder dos golpistas da Venezuela como "presidente interino", eles compreendem que abriram a porta à intervenção militar americana para impor seu fantoche. Os líderes europeus finalmente entenderam que a América do Sul não é um continente infantil que precisa ser guiado por seus pais europeus ou norte-americanos. Finalmente descobriram que a intervenção militar contra a Venezuela é uma peça do xadrez dos EUA em um continente onde europeus, assim como chineses e russos, têm hoje interesses conflitantes. Eles entenderam também que a Venezuela representa um primeiro passo para que os mesmos argumentos sejam usados contra Cuba e Nicarágua. Quer gostemos ou não dos governos desses países – ou de alguns deles – a pergunta é se reconhecemos que o direito de interferência autoritária dos EUA está acima do direito internacional.

Cito aqui apenas argumentos limitados ao jogo de interesses. Mas a lista de razões contra a invasão militar da Venezuela é muito mais longa. Meu objetivo é que as pessoas honestas que se importam com os fatos não se contentem com a propaganda simplista dos Estados Unidos e retransmitida pela imprensa sob sua influência em nosso país. A questão da Venezuela é tratada na França de forma passional pelos inimigos da esquerda latino-americana. Misturam-se um "atlantismo" engajado (para eles os EUA são a solução e não o problema) e a satisfação de ver um revival da Guerra Fria. Nesta visão, nós, os "Insoumis", assumimos a posição de amigos cegos de um regime ditatorial. Essa situação nos dá profunda náusea. Não preciso repetir como nos causa repulsa este jogo de "dois pesos e duas medidas" conduzido pelos donos da razão. Ou quão lamentáveis foram as reportagens da TV France2 a cada véspera de eleição ou em uma de minhas raras passagens pelos estúdios desta emissora.

No entanto, não devemos cair em sua armadilha. Precisamos continuar a argumentar. Porque os amigos incondicionais dos EUA não têm argumentos. Lembramos o número lamentável no estúdio da France2 daquela estranha opositora franco-venezuelana que vive na Espanha, que reivindicava o fim do poder chavista porque faltava papel higiênico em Caracas.

Eis aqui esses grandes democratas apoiando um projeto de intervenção militar a partir de um país, a Colômbia, onde mais de 50 democratas, incluindo vários jornalistas, foram assassinados desde o final da eleição presidencial sem que tenham expressado uma palavra de compaixão. Mas pouco importa sua miopia. Eles são tão amigos dos EUA que esquecem o interesse e o lugar do seu próprio país, a França. Porque fazer papel de cachorrinhos dos EUA diante de toda a América Latina não é bom em nenhum ambiente social deste continente. Deve-se compreender que o nacionalismo na América do Sul tem sido uma ideia fundadora desde as guerras de independência da Espanha. Mesmo aqueles que odeiam ferozmente os comunistas na América do Sul continuam a convidar Cuba para todas as reuniões internacionais, pela simples razão de que a ilha resiste aos EUA, e sua presença funciona como um alerta para aquele país.

Na atitude dos líderes franceses, há um fundo de colonialismo que os faz ignorar a realidade política e econômica do mundo contemporâneo. Esses franceses da TV e da política são incapazes de pensar em relações igualitárias com os países que foram outrora dominados por nossos países. Eles não conseguem pensar em relações fora do quadro grosseiro da antiga divisão do mundo. Em sua visão, a África pertence à França, assim como a América do Sul aos Estados Unidos. Nada mudou. Os EUA ajudam o governo francês a destruir a Líbia (para o seu bem, é claro) e, em troca, os líderes franceses aplaudem tudo o que os EUA quiserem fazer em seu continente. Cito aqui apenas a Líbia para não falar em exemplos mais recentes e igualmente lamentáveis em que embarcamos de uma aventura militar para a próxima.

Na realidade, os agitadores de toda parte esperavam que o governo de Maduro entrasse em colapso. Não foi o que aconteceu. O que tem ocorrido é justamente o oposto. Assim que se começou a cogitar uma intervenção militar americana e assim que os tambores da Europa começaram a rufar, um número cada vez maior de pessoas, incluindo adversários de Maduro, abandonou os golpistas, que passaram a ser vistos como partidários de uma invasão.

O nacionalismo dos povos latino-americanos é pouco conhecido ou mesmo desprezado na França. Poucos percebem que a Europa, para muitos, é também a Espanha, seu antigo colonizador, é a França e sua expedição mexicana. A história também existe na consciência coletiva dos povos da América do Sul. A intervenção dos EUA e dos europeus lhes é tão intolerável quanto seria uma intervenção militar da Alemanha na França para resgatar os coletes amarelos e instalar Eric Drouet como presidente "interino". Faço esta comparação voluntariamente caricatural para tentar sensibilizar para as percepções reais dos povos do novo mundo. Porque muitos na Europa continuam a considerá-los como crianças difíceis e seus países como protetorados em liberdade vigiada. Sei que isso vai me trazer novos insultos, acusações grosseiras e todo tipo de ignomínia que já sofri a respeito desta e de muitas outras questões de política externa. Mas penso ser um dever buscar abrir constantemente caminhos alternativos ao reinado da violência globalizada.

Aceito avaliações comparativas sobre os últimos 25 anos. Da primeira Guerra do Golfo ao Afeganistão, passando pela Síria, quando estive errado ao me opor à mídia e aos atlantistas que queriam a guerra como solução? Onde suas guerras resolveram qualquer dos problemas apresentados? Onde a situação não piorou desde então? Neste momento de apelo contra a guerra na Venezuela, quero admitir um erro cometido no passado. Pois acredito que este exemplo também ajudará a refletir sobre o presente. Aceitei a ideia de um corredor de exclusão aérea na Líbia quando Kadafi ameaçou fazer, em suas próprias palavras, um banho de sangue em uma cidade rebelde. Fui imprudente porque o Conselho de Segurança da ONU foi unânime sobre o assunto. Erro. Assim que a OTAN entrou na brecha, o corredor de exclusão aérea se transformou em corredor de bombardeio desmedido. Na época, fui duramente criticado por muitos amigos queridos da América do Sul: eles apontavam minha ingenuidade enquanto eu os repreendia por não entenderem as revoluções populares no Norte da África. A história deu mais razão a eles do que a mim neste caso. Mas isso prova que, para se posicionar, é essencial compreender de fato as motivações dos protagonistas e ter uma consciência clara do que parece mais importante para nós.

A França não é um puxadinho do exército americano, nem uma das fortalezas do "Ocidente" conectada às outras. A França não é uma nação "ocidental". É uma nação universalista, em minha opinião. Nosso país está, aliás, presente no continente sul-americano, não canso de lembrar. Está presente na Guiana, onde tem sua maior fronteira terrestre: 800 quilômetros de fronteira com o Brasil. Presente no Caribe, onde Martinica e Guadalupe oferecem uma parceria negligenciada pelo país. Temos coisas melhores para fazer lá do que nos fazer de soldadinhos do Império. Nosso dever primeiro no mundo é estar do lado do direito dos povos à autodeterminação. A França deveria, portanto, se consagrar ao anticolonialismo e se dedicar a promover as decisões tomadas pela soberania popular.

Tudo isso pode parecer abstrato. Mas o independentismo francês – que é a minha linha e a do programa "O Futuro em comum" – é, ao contrário, a contribuição concreta que nosso país pode oferecer diante do uso continuado das armas. As armas não são o problema, a meus olhos. Ao dizer isso, deixo de lado, neste momento, a questão moral dos crimes que elas causam em todas as circunstâncias e sem exceção. A questão é que elas não apenas quase nunca resolvem algo e ainda agravam tudo. No caso da Venezuela, o que a intervenção americana pode resolver? Isso presumindo que seja vitoriosa, contrariando os exemplos do Vietnã ou do Afeganistão. Ela só pode "resolver" o destino da propriedade das primeiras reservas de petróleo do mundo e de 18% do combustível já consumido nos EUA. Não é motivo suficiente ou aceitável para assassinar as centenas de milhares de pessoas que se oporão à invasão.

Então adiciono algo que conta em minha motivação sobre o assunto, mas que não é uma condição para se opor à intervenção militar. A Venezuela é um país amigo com um povo de admirável engajamento político pelos direitos dos pobres e oprimidos. A Venezuela nunca negociou seu apoio, seu dinheiro ou seu conhecimento para ajudar os povos dos locais atingidos por catástrofes naturais, seja no continente ou no Caribe; os franceses se beneficiaram dessa ajuda em cada um dos desastres sofridos no Caribe. Não temos nenhuma conta a cobrar deste país. As dificuldades do governo de um país cujas receitas petrolíferas entraram em colapso podem ser compreendidas. Especialmente quando ele distribuía grande parte dessa receita através dos mais diversos tipos de programas sociais, ao contrário das monarquias petrolíferas e de outros estados petrolíferos comparáveis.

O povo da Venezuela, se achar que se enganou na escolha de sua política e de seus líderes, saberá dizê-lo em boa hora, pois as eleições na Venezuela são livres. Seus resultados só são contestados por uma parte dos derrotados, que boicotam as eleições em vão. E pelos EUA, claro. Mas nenhum organismo internacional as questionou. O que não é o caso, por exemplo, no Cazaquistão, que fornece à França todo o urânio que ela compra, mas cujo partido e presidente estão no poder desde 1989 e são acusados de incontáveis crimes, de tortura e de manipulação das eleições. No entanto, há alguns meses, a França assinou um acordo ampliado de cooperação com aquele país e o porta-voz da República em Marche (partido do presidente Emmanuel Macron) parabenizou o país por seus progressos democráticos. Claro que votei contra. E é claro que os macronistas que se fazem de indignados em relação à Venezuela votaram pela ampliação da amizade com o regime do Cazaquistão.

Minha convicção pessoal baseia-se na experiência adquirida sobre o assunto ao longo de várias décadas de engajamento nas questões internacionais. Tudo deve ser feito para impedir que os EUA ataquem a Venezuela. Não há nenhuma base legítima para uma intervenção militar. E o que está em jogo nos diz respeito diretamente. Trata-se de saber se concordamos que os Estados Unidos são os donos do mundo. Que serão nossos donos também. Na Europa, a submissão nos levou ao ponto em que as baterias de mísseis da OTAN na Polônia nos valem a ameaça de uma instalação semelhante por parte dos russos voltada para os centros de comando da OTAN na Bélgica e na Alemanha. Uma situação pior do que na Guerra Fria. O trabalho de frear a escalada na Europa começa na fronteira venezuelana.

*Publicado originalmente no blog do autor | Tradução de Clarisse Meireles

NdaR: Não foi nos anos 1970, mas na década de 1960 (1963) que o general Aussaresses e outros militares franceses foram para os Estados Unidos ensinar as lições da Batalha de Argel.

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