Do, GGN, 01 de junho, 2016
Por Jorge Arbache, Valor
"Velocidade de acesso a mercado e condições para se fazer negócios estão suplantando fatores como custos de produção", afirma Arbache, citando o caso do Boeing 787, produzido com uma grande rede global de fornecedores que deveria reduzir os custos de produção, mas que acabou se tornando um "fiasco" devido às multas bilionárias por atrasos de entrega. Ele também analisa fatores como as mudanças nos padrões de consumo, o crescimento da economia digital, os acordos plurilaterias de comércio e a preocupação com o meio ambiente. Leia a coluna abaixo:(...)
Virou lugar comum o argumento de que participar de cadeias globais de valor é condição para melhorar a inserção de países na economia mundial. Afinal de contas, diz o argumento, redes globais de produção expõem as empresas a melhores práticas, disciplinas de trabalho, padrões regulatórios, tecnologias, ideias, parcerias e clientes, o que aumentaria a produtividade e a competitividade.
Evidências empíricas corroboram o argumento. No entanto, é provável que esta visão venha a ser parcialmente contestada e melhor qualificada nos próximos anos. E motivos para isto não faltam.
Primeiro, as novas tecnologias de produção e de organização da produção estão colocando o modelo de produção fragmentada em xeque. Impressoras 3D, robôs, inteligência artificial, manufatura avançada, novas energias e outras tecnologias estão reescrevendo as condições de produção e viabilizando a produção local/regional de muito daquilo que hoje é produzido por parceiros espalhados em vários continentes. Essas tecnologias permitem produzir em condições competitivas desde bens sofisticados até bens simples, como um calçado esportivo. Velocidade de acesso a mercado e condições para se fazer negócios estão suplantando fatores como custos de produção e incentivos fiscais enquanto fontes de competitividade.
Segundo, a crescente sofisticação e customização dos produtos está desafiando a produção fragmentada. Um caso revelador é o do Boeing 787, produzido a partir de uma extensa rede global de fornecedores. Embora no papel o projeto levasse a menores custos e a maior agilidade, o projeto foi um fiasco e gerou multas bilionárias por atrasos de entrega. Estamos aprendendo que parece haver uma relação inversa entre viabilidade da fragmentação da produção e nível de complexidade e de customização do produto, o que se deve, sobretudo, aos elevados custos de coordenação.
Terceiro, as mudanças nos padrões de consumo estão favorecendo os serviços e os produtos superintensivos em serviços. De fato, a participação dos serviços na cesta de consumo das pessoas e na matriz de custos das empresas só faz crescer. São serviços de toda natureza. Mas a parcela que mais cresce é a de serviços "embutidos" nos produtos tangíveis, como P&D, design, softwares, marcas e outras manifestações que agregam valor, conectam bens à internet e criam novas funcionalidades. Quando calculados por valor adicionado, os serviços já representam 54% do comércio global, mas estimase que serão 75% até 2025.
Quarto, a ascensão da economia digital está criando oportunidades para novos modelos de negócios. Enquanto o comércio global de bens e fluxos financeiros parece ter atingido o pico em termos de parcela do PIB, os fluxos de dados estão crescendo quase que exponencialmente. Segundo McKinsey (2016), apenas entre 2005 e 2014 o fluxo global de dados cresceu 45 vezes. Expansão da infraestrutura de conectividade, efeitorede, custos cadentes de computação e de sensores, arquiteturas abertas de softwares e desregulação dos mercados digitais estão acelerando o ritmo de adoção e de uso de tecnologias digitais e viabilizando a emergência de toda uma nova geração de investimentos e de modelos de negócios.
Leia mais
Tags
cadeias globais de valor
produção
manufatura
Nota 1
Nota 2
Nota 3
Nota 4
Nota 5
COMENTAR
AddThis Sharing Buttons33
10 comentários
Comentários
ESPAÇO COLABORATIVO DE COMENTÁRIOS
Ainda não se aplica no Brasil, infelizmente
qua, 01/06/2016 - 15:38
O Brasil tem um grave problema nisso: os materiais avançados e equipamentos usados para que essa produção descentralizada, em menor escala, possa ser economicamente viável via de regra ou não existem no país ou são absurdamente mais caros do que no exterior. Não parece existir uma política coerente para incentivar o uso desses materiais e equipamentos no país.
Isso quer dizer que países mais avançados, onde essa substituição das etapas internacionais das cadeias de valor é viável, são capazes de cada vez mais substituir etapas brasileiras por fornecedores locais, mas o Brasil ainda não se capacitou a fazer o mesmo processo e internalizar as etapas atualmente feitas no exterior.
Ruim
Bom
Muito bom
Ótimo
Excelente
LINK PERMANENTE
RESPONDER
Futuro na produção local
qua, 01/06/2016 - 15:28
Eu desconheço o passado do autor do artigo mas há muita coisa que ele escreveu que realmente está acontecendo.
Estamos saindo de sistemas de "máquina tradicional levava uma ou duas horas para 'esculpir' uma peça em bloco de aço, gerando, claro, muita sucata" (trecho do comentário de W K) para sistemas bem mais práticos de trabalhar.
Os materiais mudaram. Por exemplo, temos hoje o uso de fibra de carbono ( fonte:http://www.autoentusiastasclassic.com.br/2013/11/mclaren-pioneira-na-fib... ):
"A tecnologia da fibra de carbono foi usada no carro, agora com uma nova variação.
Chamada de monocell (monocélula), a estrutura principal do carro é a região central do carro, onde fica o habitáculo, que é uma espécie de banheira de fibra de carbono. Os demais elementos que formam o chassi são fixados

Nenhum comentário:
Postar um comentário