De Outras Palavras, 8 de junho 2026
Por Mishka e Jaime Iturri, no Nodal | Tradução: Rôney Rodrigues
Dança e revolução: a arte de atravessar um bloqueio
Eles ganham a vida tocando rancheras em um país que, apesar de estar a milhares de quilômetros do México, comemora aniversários ao som de “Ainda Sou o Rei” (“Sigo Siendo el Rey”). Agora, o bloqueio se interpõe entre eles e o contrato que precisam cumprir. De repente, alguém entre os manifestantes grita: “Que cantem!”. E os mariachis andinos chegam a um acordo: músicas em troca da passagem.
Não é chantagem, é parte do que se conhece como reciprocidade andina. É assim que funciona o “preste” (sistema de ajuda mútua) que torna a festa possível. Cada convidado leva algumas caixas de cerveja (sempre em número par, porque sem par não estamos completos) e se anota no caderno. Quando aquele que “emprestou” celebra algum acontecimento, deve receber a mesma quantidade que entregou.
Agora é música pela passagem em um bloqueio que já dura mais de três semanas e que, no sábado, não pôde ser rompido pela polícia e pelo exército. De forma muito sensata, a Central Operária Boliviana e as organizações camponesas determinaram que o corte da estrada continua, mas que se deixe passar ambulâncias, gestantes e veículos com medicamentos e oxigênio que seguem para uma cercada sede do governo.
O grupo de mariachis começa com uma canção que diz “o mariachi louco quer dançar”, mas, como são tempos novos, cantam-na entoando “o mariachi louco quer passar”. Gargalhadas e abraços, porque como disse Max Eastman em 1921, há mais de cem anos: “O riso é, depois da fala, o principal que mantém a sociedade unida.”
O autor russo Mikhail Bakhtin foi além ao afirmar: “O riso carnavalesco é, antes de tudo, patrimônio do povo; todos riem, o riso é geral. Em segundo lugar, é universal: abrange todas as coisas e todas as pessoas; o mundo inteiro parece cômico. Por fim, esse riso é ambivalente: alegre e cheio de júbilo, mas, ao mesmo tempo, zombeteiro e sarcástico; nega e afirma, amortalha e ressuscita simultaneamente.”
São um grupo de dança juvenil chamado Los Turrománticos. O que fazem é um ritmo parecido com a cumbia villera, gênero que alcançou grande sucesso entre os setores populares da Bolívia. Eles cantam, e as mulheres de saia rodada (pollera), que há poucos minutos estavam caladas e solenes, acompanham o compasso com palmas. “Porque na vida nem tudo é brigar, meu jovem”, diz dona Jacinta Barrios.
Com razão, a anarquista judia norte-americana Emma Goldman dizia algo parecido a “Se não posso dançar, não quero a sua revolução”. E é por isso também que William de Baskerville, personagem criado por Umberto Eco no romance O Nome da Rosa, afirmava: “o riso… é respirar em meio à tragédia”. Dançar e cantar também.
De frio e calor
Faz frio nos bloqueios, pois o inverno já começou. De fato, nevou na madrugada de domingo. Para os povos andinos, isso é sinal de boa sorte. Dançar ajuda a espantar a rigidez do corpo provocada pelo frio, mas faz mais do que isso: recoloca as coisas em seu devido lugar. Isto é festa e revolução.
Nem mesmo os estudantes escapam a essa prática de “pagar” a passagem pelos bloqueios. Uma banda escolar entoa o hino nacional. E, diante dele, não há boliviano bem-nascido que não se aprume.
Há quem venda um pouco de ají de fideo por menos de um dólar o prato — embora, na verdade, o “prato” seja apenas um pedaço de papel sobre o qual a comida é servida.
Em outro bloqueio, um grupo de meninas reproduz a coreografia de uma banda de chicha, e os manifestantes lhes dirigem elogios: “lindas mocinhas”.
Há alguns anos, durante o golpe de Estado de 2019, os manifestantes das chamadas “jornadas de agosto”, que exigiam eleições para recuperar a democracia, cantavam o conhecido refrão “vamos voltar, vamos voltar, nós vamos voltar”, ressignificando um grito das arquibancadas de futebol. Também se ouvia nas marchas a cueca La Caraqueña, composta por Nilo Soruco durante o exílio: “Mas hei de voltar; não chores, meu amor, não chores, meu amor! Ninguém erguerá muralhas contra a nossa verdade! Nunca o mal durou cem anos, nem houve povo que resistisse para sempre. Eles haverão de pagar. Não chores, querida. Em breve voltarei!” E esperávamos o retorno da democracia e dos nossos exilados com a fé de quem luta por aquilo que sonha.
Não há dúvida de que a Bolívia mais profunda, a mais sacrificada, mas também a mais vital, está em movimento. E, por aqui, o riso e a dança são verdadeiramente subversivos, porque, no fim das contas, zombam dos poderosos e lhes dizem: não precisamos de vocês para mover nossos corpos da maneira como queremos mover o governo.
Por fim, como também dizia Max Eastman: “O riso coloca o cérebro, o sistema nervoso central e todo o nosso ser em um estado de livre brincadeira.” E que liberdade poderia ser maior do que a de decidir quem é o dono das estradas e dos caminhos? Em última instância, quem é o dono da pátria.
A música e a dança, assim como os livros, também são espelhos. Dizia Umberto Eco em O Nome da Rosa: “neles só se vê aquilo que cada um traz dentro de si”. E o que esses bolivianos trazem dentro de si é resistência, alegria e a convicção de que as estradas lhes pertencem. Porque o espelho não devolve apenas o reflexo de quem o contempla; devolve também suas ilusões, seus desejos e suas esperanças. E a esperança, neste caso, é que essa revolução feita de canções, vivas e danças devolva ao povo aquilo que sempre foi seu: a capacidade de decidir os rumos da própria pátria.
Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, contribua com um PIX para outrosquinhentos@outraspalavras.net e fortaleça o jornalismo crítico.
Por Mishka e Jaime Iturri, no Nodal | Tradução: Rôney Rodrigues
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Foto: Gaston Brito Miserocch/Getty Images |
Dança e revolução: a arte de atravessar um bloqueio
Eles ganham a vida tocando rancheras em um país que, apesar de estar a milhares de quilômetros do México, comemora aniversários ao som de “Ainda Sou o Rei” (“Sigo Siendo el Rey”). Agora, o bloqueio se interpõe entre eles e o contrato que precisam cumprir. De repente, alguém entre os manifestantes grita: “Que cantem!”. E os mariachis andinos chegam a um acordo: músicas em troca da passagem.
Não é chantagem, é parte do que se conhece como reciprocidade andina. É assim que funciona o “preste” (sistema de ajuda mútua) que torna a festa possível. Cada convidado leva algumas caixas de cerveja (sempre em número par, porque sem par não estamos completos) e se anota no caderno. Quando aquele que “emprestou” celebra algum acontecimento, deve receber a mesma quantidade que entregou.
Agora é música pela passagem em um bloqueio que já dura mais de três semanas e que, no sábado, não pôde ser rompido pela polícia e pelo exército. De forma muito sensata, a Central Operária Boliviana e as organizações camponesas determinaram que o corte da estrada continua, mas que se deixe passar ambulâncias, gestantes e veículos com medicamentos e oxigênio que seguem para uma cercada sede do governo.
O grupo de mariachis começa com uma canção que diz “o mariachi louco quer dançar”, mas, como são tempos novos, cantam-na entoando “o mariachi louco quer passar”. Gargalhadas e abraços, porque como disse Max Eastman em 1921, há mais de cem anos: “O riso é, depois da fala, o principal que mantém a sociedade unida.”
O autor russo Mikhail Bakhtin foi além ao afirmar: “O riso carnavalesco é, antes de tudo, patrimônio do povo; todos riem, o riso é geral. Em segundo lugar, é universal: abrange todas as coisas e todas as pessoas; o mundo inteiro parece cômico. Por fim, esse riso é ambivalente: alegre e cheio de júbilo, mas, ao mesmo tempo, zombeteiro e sarcástico; nega e afirma, amortalha e ressuscita simultaneamente.”
São um grupo de dança juvenil chamado Los Turrománticos. O que fazem é um ritmo parecido com a cumbia villera, gênero que alcançou grande sucesso entre os setores populares da Bolívia. Eles cantam, e as mulheres de saia rodada (pollera), que há poucos minutos estavam caladas e solenes, acompanham o compasso com palmas. “Porque na vida nem tudo é brigar, meu jovem”, diz dona Jacinta Barrios.
Com razão, a anarquista judia norte-americana Emma Goldman dizia algo parecido a “Se não posso dançar, não quero a sua revolução”. E é por isso também que William de Baskerville, personagem criado por Umberto Eco no romance O Nome da Rosa, afirmava: “o riso… é respirar em meio à tragédia”. Dançar e cantar também.
De frio e calor
Faz frio nos bloqueios, pois o inverno já começou. De fato, nevou na madrugada de domingo. Para os povos andinos, isso é sinal de boa sorte. Dançar ajuda a espantar a rigidez do corpo provocada pelo frio, mas faz mais do que isso: recoloca as coisas em seu devido lugar. Isto é festa e revolução.
Nem mesmo os estudantes escapam a essa prática de “pagar” a passagem pelos bloqueios. Uma banda escolar entoa o hino nacional. E, diante dele, não há boliviano bem-nascido que não se aprume.
Há quem venda um pouco de ají de fideo por menos de um dólar o prato — embora, na verdade, o “prato” seja apenas um pedaço de papel sobre o qual a comida é servida.
Em outro bloqueio, um grupo de meninas reproduz a coreografia de uma banda de chicha, e os manifestantes lhes dirigem elogios: “lindas mocinhas”.
Há alguns anos, durante o golpe de Estado de 2019, os manifestantes das chamadas “jornadas de agosto”, que exigiam eleições para recuperar a democracia, cantavam o conhecido refrão “vamos voltar, vamos voltar, nós vamos voltar”, ressignificando um grito das arquibancadas de futebol. Também se ouvia nas marchas a cueca La Caraqueña, composta por Nilo Soruco durante o exílio: “Mas hei de voltar; não chores, meu amor, não chores, meu amor! Ninguém erguerá muralhas contra a nossa verdade! Nunca o mal durou cem anos, nem houve povo que resistisse para sempre. Eles haverão de pagar. Não chores, querida. Em breve voltarei!” E esperávamos o retorno da democracia e dos nossos exilados com a fé de quem luta por aquilo que sonha.
Não há dúvida de que a Bolívia mais profunda, a mais sacrificada, mas também a mais vital, está em movimento. E, por aqui, o riso e a dança são verdadeiramente subversivos, porque, no fim das contas, zombam dos poderosos e lhes dizem: não precisamos de vocês para mover nossos corpos da maneira como queremos mover o governo.
Por fim, como também dizia Max Eastman: “O riso coloca o cérebro, o sistema nervoso central e todo o nosso ser em um estado de livre brincadeira.” E que liberdade poderia ser maior do que a de decidir quem é o dono das estradas e dos caminhos? Em última instância, quem é o dono da pátria.
A música e a dança, assim como os livros, também são espelhos. Dizia Umberto Eco em O Nome da Rosa: “neles só se vê aquilo que cada um traz dentro de si”. E o que esses bolivianos trazem dentro de si é resistência, alegria e a convicção de que as estradas lhes pertencem. Porque o espelho não devolve apenas o reflexo de quem o contempla; devolve também suas ilusões, seus desejos e suas esperanças. E a esperança, neste caso, é que essa revolução feita de canções, vivas e danças devolva ao povo aquilo que sempre foi seu: a capacidade de decidir os rumos da própria pátria.
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